Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA) consolida a cotonicultura como motor econômico, social e cultural, com destaque para inovação, sustentabilidade e inclusão feminina.

Por Amanda Cruz*

Publicada em 02/10/2025

Plantação de algodão da Fazenda Busato, em Luís Eduardo Magalhães (BA). (Foto: Amanda Cruz)

   O algodão baiano ganhou força, identidade e organização com a criação da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), em 2000. A entidade reúne produtores do Oeste, em menor escala, do Sudoeste do estado, e se consolidou como referência em pesquisa, inovação tecnológica, certificação e representatividade política. Hoje, os associados respondem por grande parte da produção que garante à Bahia o posto de segundo maior estado produtor de algodão do Brasil.

   Segundo especialistas do setor, a cotonicultura no Oeste baiano é hoje considerada uma das mais tecnificadas do mundo. Isso significa que o uso de maquinário, sementes melhoradas e manejo sustentável colocam a Bahia em destaque não apenas no Brasil, mas também em relatórios internacionais sobre produtividade agrícola. A presidente da ABAPA, Alessandra Zanotto Costa, ressalta: “O algodão, por si só, provoca um desenvolvimento humano muito forte, porque é uma cultura que exige muita inovação, tecnificação e gestão.”

   Na safra 2022/23, a Bahia colheu 615 mil toneladas de pluma em 312,6 mil hectares, com produtividade média de 1.968 kg/ha, segundo a Secretaria da Agricultura da Bahia (Seagri-BA). Para 2024/25, a projeção é de 787,6 mil toneladas em 413,1 mil hectares, mesmo com revisões causadas por estiagens prolongadas como demonstram dados da Notícias Agrícolas, 2025.

 

  “A gente costuma dizer que onde o algodão chega, ele transforma. Transforma a vida das pessoas, da sociedade, transforma os lugares, transforma a infraestrutura”, afirma a presidente da ABAPA, Alessandra Zanotto Costa.
  Esse impacto também pode ser percebido nas cidades que cresceram com a chegada da cotonicultura. Municípios como Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e Correntina vivenciaram expansão da rede hoteleira, maior oferta de cursos técnicos e universitários ligados ao agronegócio e melhoria da infraestrutura urbana. A presidente da ABAPA lembra que ‘o algodão trouxe não apenas renda, mas também conhecimento e oportunidades de formação para jovens que antes precisavam sair do interior em busca de estudo e emprego’, disse.

Economia que sustenta famílias

Máquina em operação durante a colheita de algodão na Fazenda Busato. (Foto: Amanda Cruz)

 

   “Eu acho que hoje o algodão significa muito não só para mim, mas para todo mundo que trabalha aqui na fazenda. É sustento, é desenvolvimento, é oportunidade. Talvez, se não tivesse algodão, só 30% dos funcionários estariam empregados”, afirma Juliano Nascimento, técnico agrícola que deixou o Rio Grande do Sul em 2010 e hoje construiu sua vida em Luís Eduardo Magalhães graças ao trabalho no campo.

   O setor gera empregos diretos no plantio, colheita e beneficiamento, além dos indiretos em transporte, comércio e serviços. A ABAPA estima que a cotonicultura empregue cerca de 35 mil pessoas em toda a Bahia, consolidando-se como uma cadeia de impacto econômico e social.

 

  Um estudo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que, para cada vaga aberta diretamente no campo, outras três são movimentadas em atividades indiretas, como transporte, oficinas mecânicas e serviços de alimentação. Esse efeito multiplicador garante que o algodão não seja apenas um produto agrícola, mas um vetor de desenvolvimento regional. Alessandra Zanotto Costa, presidente da ABAPA, ressalta que a cadeia produtiva do algodão ‘tem a capacidade de manter o cerrado baiano conectado a mercados globais e, ao mesmo tempo, gerar prosperidade local’, destaca.

Algodão recém-colhido armazenado em fardos protegidos por lonas na Fazenda Busato. (Foto: Amanda Cruz)

Inclusão e desafios das mulheres no agro

Análise da fibra do algodão no laboratório da ABAPA, em Luís Eduardo Magalhães (BA). (Foto: Amanda Cruz)

   Se o algodão molda economias, também ajuda a questionar a predominância masculina no campo. Isabela Busato, engenheira agrônoma e filha do fundador da Fazenda Busato, destaca o papel da família e a força feminina na gestão.

   “A principal pessoa era a matriarca, minha avó. Ela faleceu há dois anos, mas foi quem pautou e moldou muitos valores que levamos até hoje. No nosso escritório, a maioria dos funcionários é mulher. Temos mulheres também na administração e até em laboratórios dentro da fazenda. A questão dos alojamentos pesa. Eu não me sentiria segura em alojar mulheres em fazendas distantes da cidade, porque seriam minha responsabilidade. O agro ainda é predominantemente masculino. Mas acredito que quem tem vontade, seja homem ou mulher, encontra espaço nesse setor”, conta.

   A presidente da ABAPA, Alessandra Zanotto Costa, reforça: “Eu carrego a responsabilidade de inspirar outras mulheres, não apenas para estarem no setor, mas para ocuparem cargos de liderança. O agro ainda é majoritariamente masculino, mas é uma cadeia que exige cada vez mais sinergia e diversidade”, destaca.

A presença feminina, no entanto, cresce de forma contínua. Segundo dados da ABAPA, cerca de 30% das funções administrativas e de laboratório são ocupadas por mulheres, e a expectativa é de que esse número aumente nos próximos anos. Para Alessandra Zanotto Costa, presidente da ABAPA, esse avanço é resultado de uma mudança cultural dentro das próprias famílias produtoras, que começam a ver as filhas como sucessoras naturais nos negócios rurais. “Eu carrego muito desse propósito aqui dentro da associação e é o que eu quero cada vez mais: poder inspirar outras mulheres, não para apenas estarem no setor, mas principalmente para ocuparem cargos de liderança. A cadeia ainda é majoritariamente masculina, mas tem exigido cada vez mais sinergia e diversidade”, afirma.

A rotina de quem faz a colheita

   O algodão não é apenas números: é o dia a dia de trabalhadores que encontram na fibra um caminho para qualidade de vida. Gecivaldo Pereira, mecânico de máquinas na Fazenda Busato, resume: “Peguei muita experiência aqui e gostei muito. A renda extra ajuda bastante. Quanto mais produtivo o algodão, maior a renda para a gente. Só gostaria que quem compre roupas e lençóis valorizasse mais o nosso trabalho”, relatou.

Colheita de algodão na Fazenda Busato, em Luís Eduardo Magalhães (BA). Foto: Amanda Cruz

 

   O relato de Gecivaldo se repete entre muitos trabalhadores que encontraram no algodão a chance de construir uma vida digna no interior. Programas de capacitação promovidos pela ABAPA em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e universidades da região oferecem cursos de operador de máquinas, manutenção de colheitadeiras e gestão agrícola. ‘A formação é essencial para que o trabalhador cresça junto com a lavoura’, explica a presidente da ABAPA, Alessandra Zanotto Costa, destacando que a qualificação técnica é um dos pilares do setor.

Educação, tecnologia e impacto social

   Além do papel econômico, a ABAPA investe em programas sociais e educacionais que aproximam campo e sala de aula. O Projeto Fitossanitário da Bahia leva orientações sobre pragas e manejo sustentável a mais de 2 mil produtores, integrando ciência, extensão e capacitação. Já o Programa Patrulheiros promove educação ambiental para crianças e adolescentes da rede pública, com oficinas e visitas a fazendas que os transformam em multiplicadores de hábitos sustentáveis.

  A associação também firma parcerias com universidades e institutos de pesquisa, oferecendo bolsas e estágios em áreas como engenharia agrícola, biotecnologia e economia rural, o que ajuda a fixar jovens no interior e renovar o setor. No campo da inovação, drones, sensores de solo e softwares de gestão já fazem parte da rotina das fazendas, reduzindo custos e otimizando insumos.

 Essas ações sociais, educacionais e tecnológicas mostram que o algodão vai além da fibra: transforma comunidades. Como destaca Alessandra Zanotto Costa, “investir em pessoas é tão importante quanto investir em maquinário. A tecnologia evolui rápido, mas é o capital humano que garante a permanência da atividade no futuro”.

Sustentabilidade e futuro

   A ABAPA aposta em sustentabilidade para fortalecer a imagem da fibra no mercado internacional. De acordo com dados da Associação Baiana dos Produtores de Algodão, programas de certificação como ABR e BCI alcançam mais de 269 mil hectares certificados, equivalendo a 87% da área plantada na Bahia (Dados da ABAPA, 2023). Além disso, o Centro de Análise de Fibras registrou 3,55 milhões de amostras na safra 22/23, garantindo qualidade para exportações, de acordo com informações publicadas pelo portal BNews em 2023.

   “O algodão é sustentável por essência. Da pluma ao caroço, tudo é aproveitado. Produzimos pluma, óleo, ração animal e até adubo com os subprodutos. Produzir sem cuidar do meio ambiente é impossível, e é por isso que a ABAPA mantém projetos de preservação e recuperação de nascentes”, explica Alessandra Zanotto.

   O destino da fibra é global: a Bahia exporta para China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão, países onde se concentram as maiores indústrias têxteis do mundo. Apesar dos números positivos, os produtores enfrentam desafios relacionados à competitividade internacional. A variação cambial, os custos logísticos e as exigências ambientais cada vez mais rígidas pressionam o setor a buscar constante inovação.

Campo de algodão após a colheita. com fardos já compactados na Fazenda Busato. (Foto: Amanda Cruz)

   ‘O consumidor europeu e asiático está cada vez mais atento à origem dos produtos. Isso nos desafia a ser ainda mais transparentes e sustentáveis’, comenta a presidente da ABAPA, Alessandra Zanotto Costa. Nesse contexto, projetos de rastreabilidade da fibra e uso de tecnologias digitais ganham força como diferenciais para manter a Bahia na vanguarda.

Identidade e perspectiva de futuro

   Na Fazenda Busato, o algodão é mais do que cultura agrícola: é identidade. “Tudo que eu tenho construí trabalhando com algodão”, resume Juliano Nascimento.

   Entre estatísticas e colheitas, o que se revela é um setor que movimenta economias, sustenta famílias, fortalece comunidades e abre espaço para novas gerações, especialmente mulheres que, como Alessandra e Isabela, reafirmam que o futuro do agro pode e deve ser mais diverso.

Aluna do curso de jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Juliana Almeida*.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra