Adaptação, responsabilidade e inovação são estratégias utilizadas pelo setor no enfrentamento às mudanças que fazem do clima uma variável importante na qualidade do algodão que é exportado para vários países do mundo.
José Bores de Araújo Júnior*
Publicada em 22/09/2025
É no interior do cerrado brasileiro que brota uma nova história a cada dia para a cotonicultura do Brasil. Com, pelo menos, duas estações definidas, verão chuvoso e inverno seco, Luís Eduardo Magalhães, distante 953 km de Salvador, tem uma vocação: transformou-se num polo do agronegócio, em menos de três décadas. Foi no início do século XXI que o município do oeste baiano surgiu a partir do povoado de Mimoso do Oeste, em Barreiras, e se emancipou em 2000. Segundo o Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade possui 107.909 habitantes, representando um aumento de 79,53% em comparação com o Censo de 2010.
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária – MAPA revelam que Luís Eduardo Magalhães se destacou entre os 100 municípios com maior valor de produção em 2023, ocupando a 32ª posição no ranking. A cidade registrou uma produção de R$ 2.705.861, enquanto o Brasil alcançou R$ 814.507.798. O algodão foi um dos produtos que se destacou na produção nacional, com uma área colhida de 1.709.425 hectares e uma produção de 7.496.603 toneladas.
O município de São Desidério (BA), distante 116 km de Luís Eduardo Magalhães, foi um dos 5 municípios que se destacaram na produção do algodão em nível nacional, com 543.506 toneladas da cultura.
O futuro da fibra baiana
A cotonicultura é uma atividade humana realizada há milhares de anos. Foi na Arábia que ocorreu a domesticação do algodão, tornando-o como conhecemos hoje. A matéria-prima é utilizada na indústria têxtil, na produção de tecnologias, dinheiro, alimentos, fertilizantes e biocombustível.
Na indústria algodoeira, nada se perde, tudo se usa. A semente é utilizada para produzir óleo vegetal de algodão, que possui diversas propriedades, como antioxidantes e anti-inflamatórias, auxiliando na saúde do coração e na imunidade. Rico em vitamina E, ômega 6 e ômega 9.
Desde a safra 2003/04, a Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil. Foi no cerrado baiano que essa narrativa ganhou fôlego, com investimentos em mecanização, irrigação e inovação tecnológica. O estado baiano foi responsável, de acordo com dados da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), na safra de 2022/23 por uma produção de 1.550,8 mil toneladas de algodão em caroço, já o algodão em pluma obteve uma produção de 635,8 mil toneladas, e o caroço de algodão teve uma produção de 806,4 mil toneladas.
A Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa) atua na produção sustentável, na articulação institucional e comercial tanto de órgãos públicos como privados, e tem o compromisso de tornar a cotonicultura brasileira cada vez mais conhecida no cenário nacional e internacional, a partir de iniciativas como o Programa Algodão Brasileiro Responsável – ABR, que visa aumentar padrões de sustentabilidade da pluma produzida na indústria algodoeira brasileira. “A gente está sempre no presente pensando qual é o próximo passo, qual é a próxima inovação, qual é a próxima demanda de mercado. O fato de a gente ter uma estratégia organizada em quatro pilares, considerando as vertentes de qualidade, sustentabilidade, rastreabilidade e como a gente comunica isso para o cliente final e para a cadeia têxtil, demonstra muito que a Abrapa tem uma visão de futuro”, destaca a diretora de Relações Institucionais da Abrapa, Silmara Ferraresi.
A Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), criada há 25 anos para fortalecer a cotonicultura no oeste do estado, tem sido essencial para o crescimento do setor no agronegócio. Com a visão de contribuir para o desenvolvimento sustentável e tendo um objetivo da divulgação da qualidade da fibra no mercado interno e externo¸ sem comprometer as futuras gerações. A presidente da Abapa, Alessandra Zanotto, enfatiza os programas desenvolvidos pela entidade para garantir qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade. “Quando a gente fala em sustentabilidade, a gente precisa entender esse conceito sobre seus três pilares que envolvem o compromisso social, ambiental e econômico”, disse.
Mudanças Climáticas e a Produção de Algodão
As alterações no padrão de chuva e o aumento da temperatura impactam diretamente o agronegócio no Brasil. Segundo o Serviço de Mudança Climática Copernicus da Comissão Europeia, a temperatura do planeta é superior a 1,5 ° C em comparação a era pré-industrial. A presidente da Abapa reflete sobre as mudanças climáticas e os impactos na cotonicultura. “A gente precisa pensar em soluções, como que o nosso trabalho está colaborando, contribuindo ou prejudicando eventualmente as transformações climáticas que estão acontecendo no mundo e o que a gente pode fazer para reverter esse cenário”, disse Zanotto.
Oriundo da imigração do Rio Grande do Sul, o produtor rural, Júlio Cesar Busato, foi um dos impulsionadores da indústria algodoeira no oeste baiano. Durante a sua gestão como presidente da Abapa é que foram adotadas práticas sustentáveis em toda a cadeia produtiva. Ele fala sobre as queimadas que eram recorrentes no campo. “Temos consciência que não podemos colocar fogo no campo. Foi investimento alto montar a chamada palhada. É o que vai fornecer matéria orgânica para nós, contribuindo para longevidade, sustentabilidade e produtividade”, disse Júlio César Busato.
O trabalho no campo envolve operações que expõe o uso de máquinas, combustíveis, têm um grande impacto que contribui para o efeito estufa e as mudanças climáticas. Por isso, é necessário pensar em alternativas para diminuir os efeitos. “A gente deve fazer, cada vez mais, um manejo eficiente da nossa lavoura e trabalhar com ferramentas que possam concentrar as nossas operações e fazer um manejo cada vez mais eficiente, onde tenhamos menos entradas de máquinas na lavoura”, disse Zanotto. “Tudo é operacionalizado, desde o plantio, o manejo da lavoura até a transformação dentro das usinas de beneficiamento. Também é muito comum você ir às fazendas hoje e elas funcionarem à base de energia solar. Então são soluções que a gente busca, não só dentro das nossas propriedades, mas está conectando também com os outros elos da cadeia, para que a gente possa ter um impacto cada vez menor no efeito de gases, para que não piore ainda mais a situação do nosso clima”, finaliza a presidente.
A diretora de Relações Institucionais da Abrapa, Silmara Ferraresi, reflete sobre a necessidade do uso de meios tecnológicos e exemplos sustentáveis para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. “Com o uso da tecnologia a meu favor, posso me adequar e cumprir a legislação, a exemplo do que faz a Abapa com proteção de nascente, todo cuidado com o manejo do solo e boas práticas agrícolas. Isso também ajuda a contribuir para deixar um legado para as próximas gerações e tentar reduzir ao máximo esses impactos que são anunciados” disse Ferraresi.
A direção atual do agronegócio é investir cada vez mais em técnicas, insumos que preservem o meio ambiente e caminhem lado a lado com uma produção de qualidade, além de respeitar práticas agrícolas sustentáveis. Com a adoção de métodos seguros, o produto tem um maior valor de mercado e os clientes exigem mais sustentabilidade. “As fazendas estão priorizando o uso do plantio direto, de bioinsumos como adubos verdes, de micro-organismos que diminuem o uso de agrotóxicos e de adubos químicos, além da utilização de técnicas de conservação do solo e da água. Tudo isso são indicadores que o agro está caminhando para ser a cada dia mais responsável com o meio ambiente”, destaca o engenheiro agrônomo, Lailton Barreto.
No setor do agro é possível, com responsabilidade social, ambiental e inovação, unir a prosperidade econômica à preservação dos recursos naturais, com iniciativas que garantam que as futuras gerações herdem um planeta mais equilibrado e saudável. Toda prática já adotada é um passo consciente para o enfrentamento das mudanças climáticas em uma cultura milenar imprescindível para a economia mundial que, com tecnologia, tem mudado paisagens em campos prósperos.
Aluno do curso de jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Juliana Almeida*