De carreteiros a técnicos agrícolas, de jovens recepcionistas a lideranças femininas, a fibra se transforma em motor de desenvolvimento e esperança em Luís Eduardo Magalhães.
Por Lucas Assunção*
Publicada em 01/10/2025
Nas vastas planícies do Oeste baiano, onde o horizonte parece não ter fim, o algodão cresce como uma fibra que costura histórias, oportunidades e futuros. Em Luís Eduardo Magalhães, município emancipado em 2000 e já soma mais de 100 mil habitantes, a fibra branca não é apenas cultura agrícola: é motor de desenvolvimento econômico e de transformação social.
A cidade está a 950 quilômetros de Salvador e se consolidou como um dos maiores polos do agronegócio brasileiro. Segundo a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), a Bahia responde por mais de 30% da produção nacional da fibra. Só em 2024, foram mais de 1,5 milhão de toneladas colhidas. A cadeia do algodão gera cerca de 35 mil empregos diretos e 140 mil indiretos na região.
Por trás desses números, estão vidas que se entrelaçam com a lavoura, homens e mulheres que encontraram no algodão a chance de escrever novos capítulos de suas trajetórias.
Do volante às raízes do Oeste
Nivaldo de Jesus Santos conhece como poucos os caminhos que ligam o algodão da roça às estradas. Natural de Feira de Santana, motorista carreteiro e pai de dez filhos, ele encontrou no trabalho com a fibra um lugar de acolhimento.
“Aqui é um lugar acolhedor. Os patrões são seres humanos de verdade. Aqui só saio quando morrer. Enquanto existir VARPÓ, é o melhor lugar de se transportar. Falo de coração”, diz, em referência à Fazenda VARPÓ, uma das grandes referências da cotonicultura no Oeste baiano.
Com produção mecanizada e integração de tecnologias, a VARPÓ gera emprego e renda para centenas de trabalhadores e é reconhecida como um dos pilares regionais da cotonicultura.
Histórias como a de Nivaldo revelam como o algodão costura não apenas rotas comerciais, mas também vínculos de pertencimento.
Portas que se abrem
Para Antônio Lopes Pires, motorista de ambulância e natural de Marcionílio Souza, o algodão representou uma chance de superar os limites de sua terra natal.
“A oportunidade, né? Na região lá não tem. Lá é só pecuária. Em Salvador, é mais construção civil. Desde 2005 que eu trabalho aqui, no Gerais, que nem dizem os mais velhos”, conta.
Assim como ele, muitos migrantes chegaram ao Oeste baiano atraídos pela promessa de emprego nas fazendas de algodão. A lavoura, antes distante da realidade de pequenos municípios, tornou-se alternativa concreta de renda e dignidade.
Sonhos que florescem
A fibra branca também marca a trajetória de jovens como Vamylle Araújo, recepcionista. Foi o trabalho no setor que possibilitou conquistas pessoais. “No ano passado mesmo eu consegui tirar minha habilitação, justamente com o trabalho que eu tive aqui na ABAPA. O algodão me realizou sonhos que eu não tinha conseguido antes”, lembra Araújo.
Aldete Macedo Souza, empilhador, também construiu sua trajetória dentro da empresa. Quando chegou, era solteiro e cheio de planos; hoje é casado e pai de três filhos. “Quando eu entrei aqui era solteiro. Hoje tô com três filhos. E tudo que eu tenho, conquistei aqui”, contou.
Mais que lavoura
O impacto do algodão vai além da vida individual. Estruturas coletivas se transformam. Para Alessandra Zanotto Costa, presidente da ABAPA, a cultura abre horizontes em áreas muitas vezes invisíveis ao público. “O agro traz esse mar de possibilidades. Gestão, contabilidade, comunicação, marketing… consegue conectar pessoas que nunca se viram parte do campo”, afirma Costa.
Esse movimento ultrapassa as fazendas e reverbera em todo o território. “Costumamos dizer que onde o algodão chega, ele transforma. Transforma a vida das pessoas, da sociedade, a infraestrutura. Para produzir algodão, requer muito mais que o campo”, enfatiza Costa.
Da semente à indústria
A fibra também gera subprodutos que abastecem diferentes setores da economia. Cláudia Souza, supervisora de IDHO na Terra Forte, explica como a semente do algodão vai muito além da pluma.
“Da semente de algodão extraímos linter (fibras curtas que recobrem a semente), torta, farelo, óleo e até biodiesel. Nosso óleo é rico em OHC (do inglês “Over-Height Cotton” ou Algodão de Alto Porte), zero gordura trans, apropriado para frituras. Também temos a margarina Elogiata. O algodão não é só pluma: ele se desdobra em indústria, alimentação e até maquiagem.”
Esse potencial explica por que a Bahia é referência mundial em tecnologia de produção. Gustavo Prado, gerente executivo da ABAPA, lembra que a pluma baiana está entre as mais valorizadas do mundo por sua qualidade e rastreabilidade.
Trabalho e formação no algodão
O destaque internacional do algodão baiano também é fruto do investimento na formação de pessoas. No Centro de Treinamento da ABAPA, coordenado por Douglas Fernandes Oliveira, trabalhadores recebem capacitação contínua, o que fortalece toda a cadeia produtiva.
Nesse espaço, o algodão é compreendido como algo que vai além da lavoura. “A cultura do algodão nos permite compartilhar riquezas, porque temos muitas pessoas envolvidas em diversos setores. Eu enxergo que a cultura não é só sustentável, ela é rentável para o produtor e para toda a comunidade”, ressalta Oliveira.
O algodão também atrai quem vem de longe. Juliano Picollo, técnico agrícola do Rio Grande do Sul, chegou em 2010 ao Oeste e hoje atua na Fazenda Busato, uma das propriedades de destaque da região, reconhecida por investir em inovação e mão de obra qualificada. “Aqui encontrei espaço para crescer profissionalmente e também construir minha vida pessoal. O algodão foi o caminho para isso”, afirma Picollo.
O setor também registra a presença cada vez maior das mulheres. É o caso de Isabela Busato, do setor de gestão de pessoas da Fazenda Busato. “O algodão abriu espaço para novas lideranças femininas. Hoje, temos mulheres em diferentes áreas, mostrando que há lugar para todas nós nesse processo”, revela Busato.
Sustentabilidade e segurança
Outro eixo fundamental é a sustentabilidade. Silmara Ferrarezi, ligada à área socioambiental da ABAPA, explica que cada produtor é acompanhado para garantir práticas responsáveis. “As políticas ambientais orientam desde a escolha das sementes até o uso racional da água. O algodão baiano só é competitivo porque também é sustentável”, explica Ferrarezi.
Na mesma linha, Lázaro Felipe, técnico de segurança e enfermeiro, reforça a centralidade da proteção do trabalhador. “Segurança não é detalhe, é parte do processo produtivo. Cada colheita só é possível porque existe cuidado com as pessoas que estão por trás dela”, alerta.
Fio de presente, passado e futuro
De Feira de Santana a Marcionílio Souza, de Xique-Xique ao Rio Grande do Sul, o algodão do Oeste baiano costura destinos. Em cada fio, há suor, tecnologia e sonhos. Em cada pluma, há presente, passado e futuro.
Luís Eduardo Magalhães, a cidade que nasceu da terra vermelha e cresceu com o algodão, firma-se não apenas como polo agrícola, mas como território de vidas transformadas.
Aluno do curso de jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Dayanne Pereira*