Entre raízes firmes, o Colégio Estadual do Campo Filinto Justiniano Bastos segue na valorização da educação do campo em zonas rurais da Chapada Diamantina.

Por Poliana Fraga*

  A sede do Colégio Estadual do Campo Filinto Justiniano Bastos (CECFJB), localizado em Seabra, Bahia, encerra sua jornada no centro da cidade em 2024 e passa a ter sua nova sede na zona rural de Angical no ano seguinte. Além disso, a instituição expande seu alcance com quatro anexos na zona rural: Lagoa da Boa Vista, no Angico, Vão das Palmeiras e Palmeira dos Mendes com o Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

  A transferência para zona rural faz parte de uma estratégia estadual de centralizar o ensino médio da cidade em um único espaço, o Centro Estadual de Educação Profissional de Seabra (CEEP), onde municípios vizinhos seguem o mesmo modelo. 

 

Origem: dar Voz ao Campo

  A criação do CECFJB teve como motivação dar visibilidade aos estudantes do campo e fortalecer o sentimento de pertencimento à comunidade, valorizando suas origens. A diretora da instituição, Aguida Rodrigues, que tem raízes nordestinas, observou que muitos alunos se sentiam desvalorizados e até envergonhados de suas origens, trocando alimentos naturais por produtos industrializados 

  Mariele Souza, ex estudante do Filinto e atualmente estudante de Jornalismo na Universidade da Bahia (UNEB) Seabra, complementa. “O Filinto foi um lugar onde eu pude me descobrir, me reconhecer e ver o quão importante era ser uma mulher negra e quilombola, que, até então, eu não tinha a imensidão do quão isso era tão importante.” 

  O CECFJB assumiu o compromisso de dar voz a esses estudantes, cujas histórias de vida e trajetórias escolares são diferentes do contexto urbano. “A instituição de Escola do Campo nos possibilitou ter menor número de estudantes em sala de aula, de compreender os seus desafios e mostrar o potencial que esses meninos e meninas têm e que às vezes passa despercebido numa sociedade urbana que não reconhece devidamente as contribuições do campo”, explica Rodrigues. 

  A formalização do CECFJB como Escola do Campo, embora sem um movimento comunitário específico, sempre teve como referência a atuação dos senhores Júlio e Jaime Cupertino. Reconhecidos na região, eles são pilares na luta pela educação de adolescentes e jovens do campo e quilombolas, defendendo a igualdade de direitos e a equidade para essas comunidades. 

Superando obstáculos e celebrando conquistas

  A antiga sede do CECFJB, estava localizada no centro da cidade, na Rua Jacob Guanaes, 260, e abriga atualmente a Escola Municipal Ivani Oliveira. Rodrigues, ex-diretora da sede antiga e atual diretora da nova sede, relembra os desafios enfrentados no local, especialmente o transporte. “Durante épocas de chuvas intensas, os estudantes não conseguiam vir devido às estradas. Além disso, não podiam participar de atividades no contraturno, pois o transporte só circulava em um turno”, relata.

  Rodrigues também observa que “a infraestrutura não era adequada, embora com um espaço territorial suficiente, a forma como as salas de aula e áreas administrativas foram construídas não contribuíram para uma estrutura de escola do campo.”

  Ela continua dizendo que quando assumiu a gestão, a escola não dispunha de quadra, laboratório ou horta.“Conseguimos, ao longo de três anos, otimizar os espaços e construir uma horta”, comemora Rodrigues. A luta da comunidade escolar pela construção de uma quadra foi finalmente atendida em 2024, um marco significativo. 

  “O espaço qualificado do Filinto na sede de Seabra, também é uma conquista, porque foram 67 anos sem uma quadra, sem divisão qualificada de espaços, o fato de outra instituição estar ocupando o espaço não desmerece a conquista,” afirma Rodrigues 

Prêmios e reconhecimentos obtidos

  O CECFJB tem se destacado por seus projetos inovadores e pelo reconhecimento de seus alunos e professores. Em fevereiro de 2025, o professor Reginaldo Araújo e a estudante Poliana Fraga, acompanhados pela diretora Aguida Rodrigues, receberam em São Paulo o prêmio de 1ª colocação Prêmio Cidadania Digital em Ação, promovido pela ONG SaferNet Brasil . O projeto “Games Transformadores: unindo mundos ético-raciais e cidadãos” visa desenvolver jogos que abordam discriminação, racismo e discurso de ódio online, utilizando materiais recicláveis em sua elaboração. 

  Reginaldo Araújo, professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio e em cursos técnicos, destaca a importância do projeto para trabalhar as relações étnico-raciais, em conformidade com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008. “No componente curricular eletivo de Cidadania Digital, o objetivo é refletir sobre o uso seguro, saudável e consciente das ferramentas digitais de informação e comunicação”, explica. 

  Além disso, Araújo conquistou a 2ª colocação como orientador da estudante Deane Mendes no 6° Concurso Cultural Jovem Jornalista, promovido pelo Jornal A Tarde.

  Em 2023, a professora Tatiana Oliveira, licenciada em Letras e Geografia, desenvolveu um projeto com turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina de Inclusão Digital, recebendo menção honrosa em reconhecimento às suas iniciativas. Oliveira também lidera um projeto desde 2023 que visa organizar uma coletânea de relatos sobre saberes ancestrais dos alunos, incluindo ervas medicinais, culinária e artesanato. 

  Em fevereiro de 2026, a professora Tatiana em parceira com a aluna Edicelma Alves e a diretora Aguida Rodrigues, estiveram em São Paulo para receber a 2° colocação do Prêmio Cidadania Digital em Ação, promovido pela ONG SaferNet Brasil. Foi vencedora nacional com projetos que inclui jogos didáticos, como “Semáforo Digital”, “Baralho Digital” e “Jogo da Memória: Sinal de Alerta Digital sobre Violência Sexual nas Redes Sociais” e um quiz “Seabra: Nossa Terra, Nossa História”.

  Aguida Rodrigues expressa seu orgulho pelas conquistas, incluindo premiações da Secretaria Estadual de Educação por três anos consecutivos e o aumento considerável na nota do IDEB. “Trouxemos para Seabra o CPA digital, uma oportunidade de conclusão do Ensino Fundamental e Médio para aqueles que não puderam estudar”, ressalta.

  “Cada conquista deles é um orgulho pra mim, vê-los participar de atividades em outras instituições, não como ouvintes, mas como protagonistas; cursarem o Ensino Superior; mas principalmente o fato de eles sentirem-se capazes de alçar seus próprios voos”, declara Rodrigues. A diretora também celebra a expansão da Educação de Jovens e Adultos para as comunidades rurais. “Ter levado a Educação de Jovens e Adultos para as comunidades de Angico, Vão das Palmeiras e Palmeira dos Mendes também me trazem orgulho porque possibilitou que a Educação esteja mais perto das pessoas.” 

Vozes que transcendem o legado do CECFJB 

  “O Filinto é resistência pelo público estudantil que é das comunidades tradicionais. A cada dia escrevendo mais um capítulo da história dessa escola que marcou e continua marcando a vida dos educandos que estudaram nela”, afirma Oliveira.

  Essa resistência mencionada por Oliveira reflete no legado que deixaram aos estudantes que passaram pelo colégio. Entre eles, Mariele Souza, da turma de 2023, relembra vivências dessa trajetória. “Além de pegar dois anos seguidos o pódio no segundo e terceiro lugar no Tempo de Arte Literária (Tal). Foi o Café das Origens (evento cultural do Filinto que acontece em novembro, mês da Consciência Negra) que mais me marcou; eu me sentia bem representada ali dentro”. Ela complementa: “era bonito ver como a escola acolheu 90% dos alunos de comunidades locais. Achava muito incrível a forma como eles faziam o Café das Origens, tendo a ajuda dos alunos; eles se dedicavam ao máximo para trazer o sentimento de pertencimento para nós, alunos da zona rural”.

  A fé na educação e as oportunidades que são oferecidas, alimenta a visão de futuro da diretora Aguida Rodrigues, que reforça a continuidade do projeto escolar: “Pode-se arrancar uma árvore, mas as suas sementes já estão semeadas e ela brotará em algum lugar. Estamos brotando novamente nessas comunidades. O sonho não acabou e o CECFJB VIVE!”. O professor Reginaldo Araújo finaliza com gratidão: “O que torna o ambiente do CECFJB um ambiente singular é a afetividade, as oportunidades que a escola proporciona.” 

  Nos novos espaços, a comunidade escolar segue sua trajetória de valorização da educação voltada ao campo. Projetando ações que fortalecem a agricultura familiar, promovem a cultura local e ampliam o aprendizado. Além de buscar quebrar os estereótipos voltados ao EJA e às escolas do campo, demonstrando seu compromisso com uma educação transformadora. Com suas raízes que germinam em novas terras, o colégio já começa a produzir frutos, reafirmando que CECFJB vive e floresce nas comunidades.

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra