Entre texturas da terra vermelha, sons, saberes e histórias, o sol que reflete nos rostos das pessoas e a curiosidade da infância dão vida ao legado do cinema local. 

Por Poliana Fraga*

Diálogo entre os espectadores, autores e organizadores deste evento. Foto: Lucas Assunção

  Na noite de 8 de maio, a UNEB Seabra trouxe o Cine-Debate Interlúdio, que valorizou as manifestações culturais e a produção cinematográfica da Chapada Diamantina. Idealizado pelo aluno Gabriel Dourado sob a orientação do professor Rafael Carvalho, ambos do curso de jornalismo, o encontro promoveu uma roda de conversa a partir da exibição dos curtas-metragens Ibejis, de Kellayne Nery, e Com quantas estrelas se cria um sol aberto, de Sol Kuaray.

Kallyane Nery, diretora do curta-metragem Ibejis. E cartaz do filme Ibejis. Foto: Gabriel Bispo.

Origem do Interlúdio, do TCC ao evento cultural

Cartazes em destaques do curta e média metragem que foram expostos no Cine-debate. E exposição de elementos que representam essas tradições.

Fotos: Lucas Assunção e Taciere Santana

  O projeto nasceu de conversas entre Gabriel Dourado, estudante do último período de Jornalismo, e seu orientador, o professor Rafael Carvalho. Dourado já tinha o desejo de produzir um Trabalho de Conclusão de Curso focado no audiovisual da Chapada Diamantina e em manifestações culturais da região. Inicialmente, a ideia era que o Cine Debate fosse o produto principal do seu TCC, mas Dourado descobriu que se encaixaria melhor como projeto principal para o curso de Relações Públicas do que para Jornalismo. 

  Durante o processo de orientação foi sugerido manter o Cine Debate enquanto uma ferramenta de coleta de dados e pesquisa de campo. Assim, o Interlúdio tornou-se uma parte do TCC, e não o produto final.

  “Eu observava não somente esses dois filmes, como vários filmes que eram realizados na Chapada Diamantina como produtos audiovisuais muito bons, mas que não eram tão falados e não eram tão valorizados pela galera da nossa região. E aí, quando eu me vi nessa oportunidade de finalizar o curso falando sobre, eu pensei: por que não aproveitar para pegar também algo que eu gosto tanto, que é a parte do audiovisual?”, conta Gabriel Dourado, que também é autor do livro “Escritor de cartas sem remetente”.

  O evento atraiu, majoritariamente, estudantes de Jornalismo. Além da exibição, o espaço serviu para Gabriel entrevistar o público e os idealizadores dos documentários. Os relatos colhidos no dia serão utilizados como fontes na sua matéria multimídia. “De certo modo, o evento serviu como uma maneira de eu conseguir essas entrevistas, porque uma hora ou outra eu iria entrevistar essa galera. Então foi bom unir o útil ao agradável”, afirma Dourado. 

  Segundo Dourado, a iniciativa vai além do cumprimento acadêmico. “O cine vem muito com esse intuito de fazer com que as pessoas valorizem essas tradições culturais, essas manifestações, e não somente as manifestações, como também os produtos audiovisuais da nossa região. Muitas pessoas que estiveram ali naquele dia nunca tinham assistido aos documentários e, para muitos, foi uma surpresa.”

Para o professor Rafael Carvalho a importância deste evento é clara. “Eventos como este mostram a potência e a relevância do cinema e do audiovisual como forma de preservar memórias e tradições locais, além de chamar atenção para uma produção de cinema que vem crescendo na Chapada”, afirma Carvalho.

Obras em Destaques

Ibejis (curta-metragem)

   O documentário “Ibejis” nasceu das memórias de infância de Kallyane Nery, diretora do curta. Quando criança, ela frequentava as filas para receber o tradicional “Caruru de Cosme” (festa de São Cosme e Damião) e sentia uma enorme curiosidade de entender o significado daquela tradição, o porquê de as pessoas distribuírem a comida e o motivo de sua própria família não o fazer. 

   O projeto foi submetido e aprovado em um edital cultural (Lei Paulo Gustavo). Após a aprovação, o processo completo de produção durou entre 8 e 10 meses. Para Nery, a Chapada Diamantina é uma região imensa e repleta de histórias ricas escondidas em comunidades rurais, quilombolas e indígenas. Ela enxerga o audiovisual como uma ferramenta política e cultural crucial para preservar a memória local. 

  “O objetivo é fazer com que as pessoas tenham ainda mais conhecimento e saibam mais sobre a nossa história, o legado e as coisas que a gente carrega da Chapada Diamantina. Acho que o audiovisual entra no sentido de fazer com que as nossas tradições alcancem outros lugares”, diz Nery. 

Cena dos bastidores do curta mostrando crianças reunidas ao redor de um prato tradicional de caruru.

Com quantas estrelas se cria um céu aberto (média-metragem)

  A necessidade de guardar as memórias dos mais velhos, para que não se perdesse os saberes que são patrimônio imaterial de nosso povo, fez com que surgisse o média-metragem “Com quantas estrelas se cria um céu aberto (Terno de Reis de Tonho de Lau)” da diretora Sol Kuaray. A produção é ligada a Associação Casa de Tupã, que atua desde 2013 no município de Iraquara (BA).

  No momento em que teve a oportunidade de escrever esse projeto em um edital público e ter o financiamento, Sol Kuaray pensou então como seria um filme sobre ele, sendo pensado de uma forma sensível que pudesse valorizar o mestre Tonho de Lau e as tradições. “Que tivesse beleza, mas que também trouxesse um roteiro interessante para captar as pessoas, para que não achassem que é somente mais um documentário comum, mas algo que mantivesse o espectador realmente interessado.” diz Kuaray. 

  A realização do filme faz parte de uma série de ações dedicadas à valorização, propagação, difusão e a criação cultural na região sobre a relação entre o audiovisual e a identidade regional, Kuaray diz que preservar essas tradições da Chapada no audiovisual é um mecanismo muito importante. “Porque a gente consegue realmente ter ali registrado a voz da pessoa, o sentimento, o rosto, a fisionomia, o que é muito rico […]  As imagens aéreas, das imagens das cores da terra vermelha. Da marca do sol no rosto das pessoas. Esse tipo de textura e de ambientação natural que vai refletir um pouco mais ainda do que que está se passando agora na chapada”, afirma Kuaray.

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra