Com os conflitos no campo em alta, mais de 1.600 militantes foram criminalizados entre 2019 e 2024. Enquanto isso, a grande mídia reforça estigmas e silencia violações de direitos humanos ligados à terra e ao território
Por Ana Novaes*
Entre 2019 e 2024, o Brasil registrou 1.682 casos de criminalização de militantes rurais, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). O número inclui processos judiciais, prisões arbitrárias, ameaças e perseguições, sobretudo contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No mesmo período, o movimento apareceu em mais de 2.300 reportagens dos principais jornais brasileiro como, a Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão , sendo que 78% utilizaram termos pejorativos como “invasão”, “baderna” ou “ameaça”, segundo estudo do coletivo Intervozes.
Essas palavras, embora comuns no vocabulário midiático, não são neutras: elas reforçam estereótipos e associam a luta por reforma agrária à ilegalidade, mesmo quando amparada pela Constituição Federal, que garante a função social da terra, art. 5º, XXIII. Ao enfatizar o conflito e silenciar a perspectiva dos movimentos, a imprensa contribui para um ambiente de hostilidade e repressão, muitas vezes legitimando ações violentas de forças de segurança e do próprio Estado.
Fundado em 1984, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é hoje uma das maiores organizações sociais da América Latina. Atuando em defesa da reforma agrária, da agroecologia e do direito à terra para trabalhadores rurais. Presente em 24 estados, o MST já assentou mais de 350 mil famílias e mantém mais de 2 mil escolas em áreas de reforma agrária, segundo dados do próprio movimento.
Além do combate à concentração fundiária, uma das mais graves do mundo, o MST tem papel decisivo na produção de alimentos saudáveis. Em 2023, cooperativas ligadas ao movimento produziram mais de 100 mil toneladas de alimentos agroecológicos, com parte significativa destinada à merenda escolar e doações solidárias durante a pandemia da Covid-19.
A reforma agrária parou e os conflitos aumentaram
A situação se agrava com a paralisação da reforma agrária. Segundo dados do INCRA, o número de famílias assentadas caiu mais de 50% entre 2015 e 2023. Em 2022, foram apenas 1.245 famílias assentadas em todo o país, um dos índices mais baixos da série histórica. Enquanto isso, aumentaram os conflitos por terra, só em 2023, a CPT registrou 1.724 casos, mobilizando mais de 900 mil pessoas.
Sem acesso à terra, muitas famílias recorrem às ocupações. Mas ao invés de reconhecer o direito legítimo à terra improdutiva, a resposta dominante é a criminalização. Em 2023, o levantamento da CPT registrou 2.203 conflitos no campo, o maior número desde 1985; 78,2% deles foram disputas por terra, totalizando 1.724 ocorrências e afetando cerca de 950.847 pessoas em áreas que somam 59,4 milhões de hectares, mais do que três vezes o tamanho da Paraíba.
Além disso, em 2024 houve um salto de, 762% nas contaminações por agrotóxico, a maioria 228 no Maranhão.
A mineração como motor da expropriação
Entre os vetores que mais pressionam os territórios camponeses e indígenas está a mineração. Segundo o MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração), o avanço de mineradoras sobre áreas rurais, muitas vezes sem consulta prévia às comunidades, acentua violações de direitos humanos e ambientais.
Em entrevista com Manuella Vidal, militante do MAM, que atua em comunidades no interior da Bahia, descreve a situação como “um desmonte orquestrado da soberania popular”. “Os avanços da mineração nos territórios rurais, indígenas, quilombolas ou de reforma agrária mostram que não há uma política efetiva para proteger esses povos. A terra é vista como lucro, não como vida. Sem vistoria, sem assistência, o Estado permite que o capital avance e exproprie comunidades inteiras.”
Vidal também destaca o papel da mídia tradicional nesse processo, “a grande imprensa retrata os movimentos sociais como baderneiros, como se fossem inimigos do progresso. Mas ninguém mostra como a mineração polui rios, devasta florestas e destrói modos de vida. A mídia escolhe o que mostrar, e isso tem um peso enorme na opinião pública.”
Quando resistir vira crime e comunicar é resistência
Para os movimentos sociais, lutar pela terra tem sido também lutar por voz na comunicação. Com pouca abertura nos grandes meios, MST, MAB e MAM investem em jornalismo popular, redes sociais e mídia independente. “A gente precisa contar nossa própria história. Porque quando a gente não fala, falam por nós e sempre distorcem”, diz a militante do MAM.
A comunicação, nesse contexto, se torna um campo de disputa tão relevante quanto o próprio território. “É uma agência política. É preciso dizer o que está acontecendo nos territórios, mostrar que não somos criminosos, mas defensores da vida, do meio ambiente e da justiça social.” destaca Vidal.
Conflito de narrativas: o direito à terra e à verdade
O Brasil tem uma das maiores concentrações de terra do mundo: somente 1% dos proprietários controla quase 50% das terras agricultáveis, segundo o Censo Agropecuário do IBGE (2017). Frente a esse cenário, o papel da imprensa deveria ser o de promover o debate público sobre a democratização do campo, mas não é o que se vê.
A cobertura dominante reforça estigmas e marginaliza os atores sociais que questionam o modelo concentrador de terras no Brasil. Um levantamento do Intervozes mostra que, entre 2019 e 2024, 78% das mais de 2.300 reportagens sobre o MST nos principais jornais do país utilizaram termos pejorativos como “invasão”, “baderna” ou “ameaça”. Esse enquadramento, centrado na narrativa do “proprietário ameaçado”, costuma ignorar dados sobre a desigualdade fundiária, como o fato de que apenas 1% das propriedades rurais concentram quase 50% da área agricultável, segundo o Censo Agropecuário do IBGE.
Ao invisibilizar a função social da terra e a legitimidade constitucional dos movimentos sociais, a mídia tradicional acaba reforçando discursos que alimentam a repressão. Mais do que a imagem pública de um movimento, o que está em disputa é a própria possibilidade de uma existência digna no campo, nas florestas e nas águas. A criminalização da luta por terra, materializada em 1.682 casos registrados pela CPT entre 2019 e 2024,representa, na prática, a negação do direito ao território, ao alimento e a um meio ambiente equilibrado.
“Os movimentos têm lutado para ter espaço na mídia, para serem ouvidos. A internet tem ajudado, mas ainda enfrentamos uma barreira imensa. Precisamos romper essa bolha, porque enquanto a sociedade não souber o que realmente acontece no campo, as violações vão continuar sendo naturalizadas.” diz a militante do MAM.
A terra, no Brasil, segue sendo palco de conflitos, repressões e silêncios. E enquanto a mídia continuar a ecoar o discurso dos poderosos e criminalizar os que lutam por justiça, estará não somente distorcendo a realidade, estará colaborando ativamente com a violação dos direitos humanos no campo.
É preciso romper o ciclo de estigmatização. Contar outras histórias. E ouvir quem, apesar de tudo, segue resistindo com os pés no chão e a palavra na luta.
*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.