Inovação, tecnologia e práticas sustentáveis vem reinventando a cotonicultura baiana e transformando vidas.

Por Roberty Gabriel Oliveira*

Publicada em 06/10/2025

Plantação de Algodão na Fazenda Warpol Busato. Foto: Roberty Gabriel

  No Oeste baiano, a cotonicultura mesmo em meio a desafios, como pragas, doenças, alterações climáticas e um manejo complexo que requer muito investimento, vem mudando vidas e ganhando cada vez mais destaque no cenário nacional e internacional. De acordo com o último boletim da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) a produção de algodão na safra 2024/2025 é estimada em 4,1 milhão de toneladas, sendo a Bahia o segundo maior produtor, e o Brasil o maior exportador. Ainda segundo provisões da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), a produção de algodão no ciclo 2024/25  pode chegar a 1,92 milhões de toneladas.

Produção de Algodão se concentra em suma maioria no oeste da Bahia. Foto: Reprodução/ Levantamento sistemático da produção agrícola (LSPA)

Lidar com o campo exige dedicação

   Lidar com o campo exige preparo e conhecimento sobre máquinas, uso do solo e manejo de pragas. A Associação Baiana de produtores de Algodão (ABAPA) vem criando diversos programas e cursos que levam conhecimento e preparo com a cotonicultura, um deles e o Programa fitossanitário, para a defesa da lavoura, apoio aos pequenos agricultores, programa destinado à irrigação suplementar na região Sudoeste e cursos para lidar com mecanização, silos agrícolas, beneficiamento do algodão, compostagem e produção de alimentos. Douglas Fernandes, coordenador do Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa, ressalta que para trabalhar no campo é necessário capacitação e planejamento. “É de extrema importância que a gente não tenha uma percepção limitada ou equivocada de todo o manejo que envolve a produção de commodities agrícolas no Brasil. Então, para que isso possa acontecer de forma bem estruturada e responsável, a capacitação e a educação precisam ser um dos grandes pilares. Por isso a Abapa investe nos centros de treinamento, seja através dessas iniciativas de competência técnica, ou através do Programa Educacional Conhecendo Águas”, pontua o coordenador. 

   A criação desses programas e cursos surge em contexto importante no qual a produção de algodão vem fortalecendo seus pilares de rastreabilidade, qualidade, e sustentabilidade, o que posiciona a cotonicultura da Bahia em estado de visibilidade.

Problemas que comprometem a produção

   Considerando um mundo com mudanças climáticas perceptíveis e suas múltiplas discussões em torno do tema, não se pode deixar de incluir o algodão nesse debate. Estiagem severa e chuva em excesso num curto período de tempo, dois fatores bem constantes das alterações do clima, podem comprometer a produção do algodão. Outro ponto importante é que uma parte do cultivo do algodão é feita através do sistema de sequeiro, esse processo ocorre por meio da captação de água das chuvas destinada ao cultivo agrícola. Ou seja, sem o regime de chuvas, a colheita será prejudicada.

Algodão recém colhido e envelopado na Fazenda Warpol. Foto: Roberty Gabriel

   O algodão, assim como os outros produtos agrícolas, é atingido por pragas e doenças, o que pode causar prejuízos exorbitantes. Segundo um estudo colaborativo da empresa agrícola Syngenta, a consultoria Agroconsult e a Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), na cotonicultura se perdem 160 mil toneladas de algodão por parasitas a cada 10 safras, até  2031 pode chegar a um prejuízo estimado em R$ 44,1 bilhões. Uma das pragas mais comuns no algodão é o bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), esse inseto pode diminuir em 70% a produtividade do algodão, sendo este um responsável por abrir a possibilidade de outras doenças na lavoura. O bicudo-do-algodoeiro age nas estruturas reprodutivas do algodão, como os botões florais, flores e maçãs da planta. Além da praga citada existem outras inúmeras doenças que atingem a qualidade da pluma como as pragas sugadoras, que são o Pulgão (Aphis gossypii) Mosca Branca (Bemisia tabaci) Percevejo Castanho (Scaptocoris castanea) é a cochonilha do algodoeiro (Phenacoccus solenopsis). 

   Queimadas em lavouras de algodão pode comprometer a cotonicultura em diferentes níveis, seja os rolos das fibras coletadas, as máquinas e especialmente os trabalhadores que lidam com isso no seu cotidiano, isso se deve ao fato do algodão ser uma fibra totalmente inflamável, contribuindo para que o fogo se alastre rapidamente. Incêndios na cotonicultura podem ocorrer tanto em épocas de seca quanto no período de chuvas por conta das descargas elétricas. Lázaro Felipe, Supervisor da Saúde e Segurança do Trabalho, conta um pouco como funciona o preparo para lidar com estas adversidades na perspectiva da fazenda Warpol(Grupo Busato). “Sobre a parte de incêndios na lavoura também trabalhamos com algumas carros pipas próximos para o combate de incêndios, se precisar, fazendo também o treinamento conforme a ENERGY 23, de combate e prevenção de incêndios, com os trabalhadores, para que se venha acontecer e tiver aquele princípio, eles estão ali, cientes e capacitados para combater e não ter um dano maior, tanto seja dano de máquinas ou até mesmo a sua vida”, descreve o supervisor.

Lázaro Felipe durante visita técnica de estudantes. Foto: Roberty Gabriel

   Do jeans que nós vestimos até o cotonete para limpeza dos ouvidos, o algodão passa por muitas mãos e requer várias etapas para obter uma fibra de qualidade, mas nem sempre a produção é um sucesso. 

   É necessário alta tecnologia, investimento, mão de obra e, principalmente, paixão e dedicação. Por isso a produção de algodão do oeste baiano vem se destacando por saber driblar e produzir algo de qualidade mesmo com todos esses dilemas. 

Possibilidades e impactos positivos

Funcionário trabalhando na Unidade Busato Cotton. Foto: Roberty Gabriel

   A cotonicultura vem semeando grandes possibilidades e trazendo impactos positivos na vida de diversas pessoas, contribuindo para o desenvolvimento da região Oeste. Segundo a Abapa, mais de 41 mil pessoas estão empregadas na cotonicultura. Isso não seria possível sem os diversos programas e movimentos que vem incluído a população do oeste na cultura do algodão, seja nos pilares de educação, indústria, lazer e sustentabilidade. 

   Por se tratar de uma fibra natural, o algodão além de renovável é biodegradável, tendo a possibilidade de reuso em determinadas confecções. Quando se trata de moda, o algodão é uma opção bem mais sustentável do que as fibras sintéticas derivadas do petróleo, confortável e leve durante o uso. A Sou de Algodão, movimento idealizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) com intuito de valorizar o algodão na moda brasileira, vem tecendo e tendo um impacto positivo na moda tanto ao nível estadual, quanto ao nacional. Unindo sustentabilidade, oportunidades para estudantes de moda e estilistas, discutindo questões de gênero, raça e uma moda genuinamente brasileira. 

   No setor educacional existe incentivo e investimento por parte da Abapa. O projeto pedagógico “Semeando a transformação” tem por objetivo disseminar a importância do setor agrícola na região, mais especificamente a produção de algodão nas escolas públicas e privadas. O projeto leva aos estudantes a oportunidade de conhecer sobre a produção agrícola, tecnologia e práticas socioambientais. Segundo dados da Abapa, o projeto desde a sua criação conseguiu atingir atender 550 escolas de 13 municípios, 160 mil estudantes e 3,8 mil profissionais da educação.

Transformando vidas

   Robson Brito, analista de inspeção da ICOFORT agroindustrial, empresa de processamento de caroço de algodão, pólo Luís Eduardo Magalhães, destaca como sua vida foi transformada através da cotonicultura e descreve sua função. “O espaço é excelente para trabalhar e a melhor parte de tudo é que a empresa dá oportunidade. Se você quiser criar uma oportunidade, a empresa vai te dar esse voto de confiança. Eu sou prova viva disso porque eu sou de Salvador e migrei para Luiz Eduardo Magalhães em outubro de 2011. Eu fui visionário, eu entendi que aqui era um lugar onde eu poderia crescer, mesmo com o currículo bacana que eu tinha. E eu tive que entrar aqui como auxiliar e crescendo aos poucos, estudando, crescendo, crescendo, para hoje ser analista de inspeção”, conta Brito.

Setor da fábrica Icofort, Unidade localizada em Luís Eduardo Magalhães (BA). Foto: Roberty Gabriel

   O analista ainda destaca a importância do cuidado com o trabalhador. “A gente precisa cuidar da vida dele, da saúde física, saúde mental, comportamento, entender a cultura de cada um e, no final de tudo, fazer com que eles fiquem mais tempo aqui dentro da empresa. E que saiam com alguma impressão também”, destaca Robson.

   Alessandra Zanotto, presidente da Abapa, declara o leque de possibilidades que o agro, mais especificamente a cotonicultura propõe para a sociedade. “Muitas oportunidades para quem também não necessariamente quer trabalhar de forma técnica, trabalhar de forma econômica, mas seja com gestão, seja com contabilidade, com comunicação, com marketing. Então hoje o Agro traz esse mar de possibilidades e eu acredito que consiga conectar muitas pessoas que por algum momento se viram parte do campo” menciona Alessandra. 

   No cerrado baiano a resiliência é motivo de inspiração, mesmo diante de possíveis adversidades há um todo preparo para lidar com esses dilemas. A cotonicultura do estado vem semeando um futuro próspero e colhendo bons frutos de um trabalho que envolve vários processos, investimentos e, principalmente, pensamentos diversos com  um único propósito: transformar vidas.

*Aluno do Curso de Jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Juliana Almeida.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra