Na Chapada Diamantina, uma palmeira resiste ao tempo, à seca e às cercas: o licuri. Muito além de alimento, ele é símbolo de memória, cultura e identidade.
Por Ana Paula Oliveira*
No sertão da Chapada Diamantina, uma palmeira de aparência modesta carrega em seus cachos o sustento de comunidades inteiras, a força de mulheres invisibilizadas e a memória de uma cultura ancestral. O licuri (Syagrus coronata), nativo da Caatinga, é muito mais do que alimento: é casa, é artesanato, é remédio, é símbolo. Mas, sobretudo, é resistência.
Durante séculos, o licuri ajudou famílias a sobreviver aos períodos de seca, oferecendo sombra, palha, óleo e fruto. Hoje, esse mesmo licuri inspira um movimento de transformação social liderado por mulheres, que o coletam, quebram, beneficiam e o transformam em fonte de renda e de autonomia.
A árvore da vida no semiárido
Resistente ao calor e à escassez de água, o licuri se manteve como um aliado vital das populações do semiárido nordestino. Presente em diversos territórios da Bahia, sua importância ecológica é inquestionável: ele abriga espécies, protege o solo, alimenta a fauna e contribui para a biodiversidade da Caatinga.
“Seria muito difícil imaginar, numa região com um ciclo de seca tão longo, a sobrevivência de povos sem a presença dessa palmeira”, afirma o antropólogo Cláudio Dourado. “Ela foi a economia periférica que salvou muitas famílias, especialmente quando as mulheres colhiam o coco para alimentar seus filhos ou vender na feira”, completa.
Cada parte do licuri é aproveitada. A palha é usada em cestaria e cobertura de casas; o fruto, em óleos, cosméticos e alimentos. Essa versatilidade o tornou uma “espécie-chave”, como aponta a pesquisadora Márcia Vanusa da Silva, professora da UFPE e coordenadora do Núcleo de Bioprospecção e Conservação da Caatinga (NBIOCAAT): “trabalhar com o licuri é essencial para o desenvolvimento sustentável do semiárido, especialmente em áreas com baixo IDH. Essa atividade mobiliza diversas ODS — como o combate à pobreza, igualdade de gênero, vida terrestre e trabalho digno”, explica a professora.
Mulheres quebradeiras: trabalho invisível, cultura viva
A cadeia produtiva do licuri é marcada por uma presença majoritariamente feminina. São mulheres que acordam antes do sol para recolher os frutos, quebrá-los manualmente, extrair o óleo e transformá-los em artesanato, alimentos e cosméticos. Em muitos casos, são chefes de família e vivem do que produzem com o licuri enfrentando desigualdade de gênero, precarização do trabalho e exclusão de políticas públicas.
“Essas mulheres são guardiãs de saberes ancestrais”, diz Renata Silva, tesoureira da ONG Casa de Maria, entidade que atua na Chapada Diamantina com foco em educação, geração de renda e valorização de saberes tradicionais. “O projeto Licuri de Maria gera renda para as mulheres de Campo de São João, fortalecendo práticas sustentáveis e promovendo autonomia”, relata.
A ONG também é articuladora da Rede de Guardiãs do Licuri, formada por mulheres que compartilham conhecimentos sobre coleta e beneficiamento do fruto. Essa rede conecta tradição, desenvolvimento territorial e fortalecimento da identidade cultural do sertão baiano.
Na Chapada Diamantina, o coco licuri é muito mais do que um fruto do semiárido: ele é raiz, memória e fonte de vida. Entre o estalo da quebra e o cheiro do óleo extraído, carrega histórias que atravessam gerações, especialmente pelas mãos de mulheres como Vera Alves, Hildete Tapuya e Vilma Novais, moradoras de comunidades tradicionais dos municípios de Seabra e Palmeiras.
“Desde os meus sete anos de idade que eu comecei a lidar com o licuri, servido de alimentação para mim e minha família, e serviu até de cama para eu dormir”, conta Dona Vera Alves, quebradeira de coco e moradora da comunidade Brejo, em Seabra. “Depois dos meus 10 anos, comecei a quebrar o coco licuri, que servia tanto para alimentação quanto para comercialização.”
Para Hildete Yara Tapuya, guardiã do sagrado feminino da comunidade indígena Riacho das Palmeiras, “desde a minha avó, minha bisa e minha mãe, toda essa geração foi criada com o coco licuri”. Ela explica que “eram feitas paçocas, cocadas, extraía-se o óleo, que usavam nas comidas. Tirava-se o leite, usava-se na pele, no cabelo, e das palhas eram feitas as vassouras, que eram negociadas, vendidas ou trocadas por outros alimentos”.
Hoje usamos esse óleo na área da cosmética. Eu uso em sabonetes, cremes, diretamente na pele e em massagens. As palhas, até os anos 2000, ainda cobriam nossas casas”, completa.Vilma Novais, da comunidade quilombola do Corcovado, em Palmeiras, também vive essa tradição.
“Minha mãe pedia para eu quebrar e tirar o leite para tomar com café. O coco foi o nosso sustento”. Com o tempo, transformaram o saber em geração de renda: “A gente quebrava para extrair o óleo e começamos a comercializar para fazer bolsas, sacolas, esteiras, chapéus”.
Patrimônio ameaçado, mas protegido por lei
Reconhecendo a relevância dessa palmeira, a Lei Estadual nº 13.908/2018, da Bahia, declarou o licuri como patrimônio biocultural, tornando-o imune ao corte e assegurando sua preservação. A legislação é um avanço na defesa dos ecossistemas e saberes populares, mas sua aplicação ainda encontra obstáculos.
“Os conflitos pela terra, as cercas, o avanço da pecuária e a ausência do Estado ameaçaram os licurizais. A lei foi uma resposta a essas injustiças”, lembra Cláudio Dourado. “Mas o grande desafio agora é garantir que ela seja respeitada e aplicada na prática”, completa.
Ciência, território e autoestima
Ao lado das mulheres, pesquisadores e cientistas vêm trabalhando para fortalecer a cadeia produtiva do licuri com tecnologia e inovação. Um dos principais desafios, segundo Cláudio Dourado, é a perecibilidade do fruto que exige soluções para aumentar sua durabilidade e aproveitamento.
Uma das alternativas vem da Associação de Urusui-Mairi, que instalou uma câmara fria solar para conservar os cachos por mais tempo, permitindo a produção durante todo o ano. Iniciativas como essa são fundamentais para garantir segurança alimentar, renda contínua e autoestima para comunidades que historicamente enfrentaram exclusão.
Impacto econômico, ambiental e cultural: inovação a partir do licuri





O professor Aurélio José Antunes de Carvalho, do IF Baiano – Campus Santa Inês, destaca que os impactos do licuri vão muito além da renda monetária tradicional: “quando eu falo de renda, eu gosto de falar tanto da renda em termos de economia quanto da renda não monetária, aquela que o agricultor deixa de gastar. A licuria pode substituir a ração animal, pois o mesocarpo, que o povo chama de pele do licuri, contém micronutrientes e tem valor energético. Hoje temos máquinas que retiram esse têlo (mesocarpo) para alimentar os animais.”
Carvalho explica ainda que o endocarpo, parte dura do coco, está sendo estudado para a produção de briquetes, uma forma de lenha ecológica: “Estamos desenvolvendo pesquisas com apoio da FATESB. A ideia é transformar resíduos do licuri em energia limpa.”
A pesquisa avança também para o campo genético: “Aprovamos um projeto com a UFES para estudar a variabilidade genética do licuri, algo ainda inédito. Isso é parte de um esforço para descolonizar o pensamento científico, valorizando o que temos de mais autêntico e ancestral”, finaliza.
Políticas públicas ainda tímidas
Apesar da força das redes comunitárias e da atuação de ONGs como a Casa de Maria, a presença do Estado ainda é insuficiente. Segundo a pesquisadora Márcia Vanusa, “há urgência na criação de políticas públicas que apoiem a pesquisa, o reflorestamento da espécie e a organização de cooperativas”. Ela destaca que o reconhecimento do trabalho feminino é central, “a quebra do licuri é quase exclusivamente realizada por mulheres. Apoiar essa atividade é valorizar o papel da mulher na sustentabilidade do semiárido.”
Nesse contexto, programas federais como o Pronaf Mulher, que oferece crédito rural com condições diferenciadas para agricultoras familiares, e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), que compra diretamente da agricultura familiar para compor merendas escolares e abastecer equipamentos públicos de alimentação, são ferramentas estratégicas para promover a autonomia econômica e a segurança alimentar nas comunidades.
Além disso, políticas de economia solidária que incentivam a autogestão e a organização coletiva, como associações e cooperativas precisam ser fortalecidas e territorializadas, considerando as especificidades de cada região e realizando escuta ativa das comunidades tradicionais. Sem isso, o potencial transformador dessas iniciativas segue limitado e desconectado da realidade vivida no semiárido
Ecofeminismo no sertão e a literatura como denúncia
A realidade das mulheres do licuri encontra ecos na literatura contemporânea. No premiado romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (2019), a presença do licuri e do coco babaçu é recorrente, símbolos de sustento, mas também de exclusão. No livro, as protagonistas trabalham com o coco e enfrentam as mesmas cercas, os mesmos silêncios e a mesma resistência que atravessam a vida das guardiãs do licuri na Chapada Diamantina.
“Enquanto tiver mulher e licuri, o sertão não morre”, diz Dona Francisca, 72 anos, ensinando a neta a extrair óleo à sombra de um licurizeiro. Suas mãos, marcadas pelo tempo, carregam séculos de sabedoria e a esperança de que a resistência feminina seja, enfim, reconhecida como um direito.
O ecofeminismo, nesse cenário, não é apenas uma teoria, é prática viva e cotidiana. Ele se manifesta no corpo e na terra, no gesto de quebrar o coco e de cultivar o sustento com as próprias mãos. Ao denunciar a exploração simultânea da natureza e das mulheres, o ecofeminismo revela como os saberes femininos, historicamente marginalizados, são fundamentais para a preservação dos ecossistemas e das culturas locais.
As mulheres do sertão, ao protegerem o licuri e outros bens comuns, não apenas garantem a continuidade de modos de vida tradicionais, mas também propõem outra lógica de desenvolvimento baseada no cuidado, na autonomia e na reciprocidade com a terra.
*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.