Licuri produzido na região da Chapada Diamantina apresenta teores mais elevados de ácido láurico (composto com ação cicatrizante), chegando a 60% ou até 69%. Essa descoberta pode ampliar o impacto econômico deste patrimônio biocultural.

Por Ana Paula Oliveira*

  No sertão da Chapada Diamantina, uma palmeira de aparência modesta carrega em seus cachos o sustento de comunidades inteiras, a força de mulheres historicamente invisibilizadas e a memória de uma cultura ancestral. O licuri (Syagrus coronata), nativo da Caatinga, é muito mais do que alimento: é casa, é artesanato, é remédio, é símbolo. Mas, sobretudo, é resistência.

  Durante séculos, o licuri ajudou famílias a atravessar longos períodos de seca, oferecendo sombra, palha, óleo e fruto. Hoje, esse mesmo licuri inspira um movimento de transformação social liderado por mulheres que o coletam, quebram, beneficiam e transformam em fonte de renda, autonomia e permanência no território.

Derivados do Licuri de Brejo de Abaíra_Foto: Arquivo pessoal de Eloísa Carmo

A árvore da vida no semiárido

  Resistente ao calor extremo e à escassez de água, o licuri se manteve como aliado vital das populações do semiárido nordestino. Presente em diversos territórios da Bahia, sua importância ecológica é inquestionável: abriga espécies, protege o solo, alimenta a fauna e contribui para a biodiversidade da Caatinga.

  “Seria muito difícil imaginar, numa região com um ciclo de seca tão longo, a sobrevivência de povos sem a presença dessa palmeira”, afirma o antropólogo Cláudio Dourado. “Ela foi a economia periférica que salvou muitas famílias, especialmente quando as mulheres colhiam o coco para alimentar seus filhos ou vender na feira.”

  Cada parte do licuri é aproveitada. A palha é usada em cestaria e na cobertura de casas; o fruto, na produção de óleos, cosméticos e alimentos. Essa versatilidade o tornou uma espécie-chave para o desenvolvimento sustentável do semiárido. Segundo a pesquisadora Márcia Vanusa da Silva, professora do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), trabalhar com o licuri mobiliza um conjunto amplo de impactos sociais, ambientais e econômicos. “Essa atividade dialoga diretamente com objetivos como combate à pobreza, igualdade de gênero, trabalho digno e preservação da vida terrestre”, explica.

Ciência, economia circular e saber tradicional

  Ao lado das mulheres quebradeiras, pesquisadores e cientistas vêm trabalhando para fortalecer a cadeia produtiva do licuri com base em ciência, tecnologia e inovação. Um dos focos é transformar o conhecimento tradicional em soluções sustentáveis, dentro do conceito de economia circular, que busca reduzir desperdícios e reaproveitar recursos, mantendo os materiais em uso pelo maior tempo possível.

  Segundo Márcia Vanusa da Silva, o licuri é uma espécie em que nada se perde. “Estudamos a polpa, a amêndoa, o óleo e até os resíduos. Tudo pode ser aproveitado para fins alimentares, farmacêuticos, cosméticos, energéticos ou artesanais”, explica.

  A pesquisadora destaca que o uso do óleo de licuri como cicatrizante e anti-inflamatório é um saber tradicional difundido principalmente entre mulheres de comunidades tradicionais e indígenas. “O nosso papel como pesquisadores é compreender e validar cientificamente esse conhecimento”, afirma.

  Análises químicas realizadas pela equipe da UFPE identificaram que o óleo do licuri possui alta concentração de ácido láurico, composto amplamente utilizado pela indústria farmacêutica por sua ação cicatrizante. Em algumas amostras, esse composto representa cerca de metade da composição do óleo.

  Esse conhecimento tradicional vem sendo progressivamente validado pela ciência. Um exemplo é a pesquisa conduzida por Katia Alves Ribeiro, com a participação de Silva e colaboradores, intitulada “Potencial gastroprotetor e de cicatrização gástrica do óleo fixo extraído das amêndoas de Syagrus coronata”, publicada em 2026 na revista Pharmacological Research – Natural Products. Desenvolvido ao longo de aproximadamente um ano (2025–2026), o estudo investigou o potencial gastroprotetor do óleo e confirmou a presença de compostos com ação anti-inflamatória e cicatrizante.

  Um dos focos atuais da pesquisa que vem sendo desenvolvida por Silva é investigar se fatores ambientais influenciam essa composição, especialmente a altitude da Chapada Diamantina. Amostras provenientes de municípios como Palmeiras, Lençóis e Morro do Chapéu apresentaram teores ainda mais elevados de ácido láurico, chegando a 60% ou até 69%. “Estamos investigando se a altitude modula positivamente a composição química do óleo”, explica.

  Caso essa relação seja confirmada, o óleo do licuri pode apresentar ainda maior potencial terapêutico, com impactos diretos na saúde pública. Uma das possibilidades estudadas é a substituição do óleo de girassol, atualmente utilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para auxiliar processos de cicatrização.

  Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% do óleo de girassol que consome, o que corresponde a aproximadamente 170 mil a 220 mil toneladas por ano, segundo dados recentes do comércio exterior brasileiro (Comex Stat), referentes ao período de 2023 a 2025. Essa dependência externa expõe o país à variação de preços no mercado internacional, especialmente em contextos como a guerra na Ucrânia, um dos principais fornecedores globais.

  “O Brasil importa grande parte do óleo de girassol. Utilizar um óleo nativo do semiárido significaria reduzir custos e fortalecer comunidades locais”, afirma a pesquisadora.

Mapa da distribuição da palmeira no Nordeste. Foto: Distribuição geográfica do licuri no Nordeste do Brasil.

Mulheres quebradeiras: trabalho invisível, cultura viva

Rede de Guardiãs do Licuri em atividade coletiva. Foto: Eloísa Carmo.

  A cadeia produtiva do licuri é marcada por uma presença majoritariamente feminina. São mulheres que acordam antes do sol para recolher os frutos, quebrá-los manualmente, extrair o óleo e transformá-los em artesanato, alimentos e cosméticos. Em muitos casos, são chefes de família que enfrentam desigualdade de gênero, precarização do trabalho e ausência de políticas públicas consistentes.

  “Essas mulheres são guardiãs de saberes ancestrais”, afirma Renata Silva, tesoureira da ONG Casa de Maria, que atua na Chapada Diamantina com foco em educação, geração de renda e valorização dos saberes tradicionais. “O projeto Licuri de Maria” promove a criação de renda para mulheres de Campo de São João, fortalece práticas sustentáveis e promove autonomia.”

  A ONG também articula a Rede de Guardiãs do Licuri, formada por mulheres que compartilham conhecimentos sobre coleta e beneficiamento do fruto, conectando tradição, desenvolvimento territorial e identidade cultural do sertão baiano.

  Na Chapada Diamantina, o coco licuri é muito mais do que um fruto do semiárido: é raiz, memória e fonte de vida. Entre o estalo da quebra e o cheiro do óleo extraído, carrega histórias que atravessam gerações, especialmente pelas mãos de mulheres como Vera Alves, Hildete Yara Tapuya e Vilma Novais, moradoras de comunidades tradicionais dos municípios de Seabra e Palmeiras.

  “Desde os meus sete anos comecei a lidar com o licuri, servindo de alimentação para mim e minha família, e até de cama para dormir”, conta Dona Vera Alves, quebradeira de coco da comunidade Brejo, em Seabra. “Depois dos dez anos, comecei a quebrar o coco para alimentação e também para vender.”

  Para Hildete Yara Tapuya, guardiã do sagrado feminino da comunidade indígena Riacho das Palmeiras, o licuri atravessa gerações. “Desde minha avó, minha bisavó e minha mãe, toda essa geração foi criada com o coco. Fazíamos paçoca, cocada, extraímos o óleo para a comida, para a pele e o cabelo. Das palhas, fazíamos vassouras que eram vendidas ou trocadas por outros alimentos.”

  Vilma Novais, da comunidade quilombola do Corcovado, em Palmeiras, também carrega essa memória. “Minha mãe pedia para eu quebrar e tirar o leite para tomar com café. O coco foi o nosso sustento. Depois começamos a extrair o óleo e comercializar, fazendo bolsas, sacolas, esteiras e chapéus.”

Produtos de base do licuri Foto: Arquivo pessoal de Eloísa Carmo.

Patrimônio ameaçado, mas protegido por lei

  Reconhecendo a relevância dessa palmeira, a Lei Estadual nº 13.908/2018, da Bahia, declarou o licuri como patrimônio biocultural, tornando-o imune ao corte e assegurando sua preservação. A legislação representa um avanço na defesa dos ecossistemas e dos saberes populares, mas sua aplicação ainda enfrenta desafios.

  “Os conflitos pela terra, as cercas, o avanço da pecuária e a ausência do Estado ameaçaram os licurizais. A lei foi uma resposta a essas injustiças”, lembra o antropólogo Cláudio Dourado. “O grande desafio agora é garantir que ela seja respeitada na prática.”

Impacto econômico, ambiental e cultural

  O professor Aurélio José Antunes de Carvalho, do IF Baiano – Campus Santa Inês, destaca que os impactos do licuri vão além da renda monetária. “Existe também a renda não monetária, aquilo que o agricultor deixa de gastar. O mesocarpo do licuri, que é a parte intermediária do fruto, equivalente à polpa, entre a casca e a amêndoa, pode substituir ração animal, pois contém micronutrientes e valor energético”, explica.

  O endocarpo, parte dura do coco, também está sendo estudado para a produção de briquetes, uma forma de lenha ecológica. “A ideia é transformar resíduos do licuri em energia limpa”, afirma o professor, que também coordena pesquisas sobre a variabilidade genética da palmeira em parceria com universidades brasileiras.

Políticas públicas

  Além da atuação de redes comunitárias e de organizações como a Casa de Maria, o fortalecimento de políticas públicas voltadas para a área pode contribuir para iniciativas como o apoio à pesquisa, o reflorestamento da espécie e a organização de cooperativas. Para Márcia Vanusa, é fundamental ampliar essas ações. ‘A quebra do licuri é quase exclusivamente realizada por mulheres. Apoiar essa atividade é valorizar o papel feminino na sustentabilidade do semiárido’, destaca.

  Programas como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) Mulher e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) são apontados como estratégicos para promover autonomia econômica e segurança alimentar. No entanto, especialistas defendem o fortalecimento de políticas de economia solidária, com escuta ativa das comunidades e respeito às especificidades territoriais.

Ecofeminismo no sertão e a literatura como denúncia

  A realidade das mulheres do licuri encontra eco na literatura contemporânea. No romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, a presença do licuri e do coco babaçu simboliza sustento, mas também exclusão, cercas e silêncios que atravessam gerações.

  “Enquanto tiver mulher e licuri, o sertão não morre”, diz Dona Francisca, 72 anos, ensinando a neta a extrair óleo à sombra de um licurizeiro. Suas mãos carregam séculos de sabedoria e a esperança de que a resistência feminina seja reconhecida como direito.

  Nesse cenário, o ecofeminismo é teoria e prática cotidiana. Ele se manifesta no corpo e na terra, no gesto de quebrar o coco e cultivar o sustento. Ao proteger o licuri e outros bens comuns, as mulheres do sertão preservam ecossistemas e culturas e, ao mesmo tempo, propõem outra lógica de desenvolvimento baseada no cuidado, na autonomia e na reciprocidade com a terra.

*Aluna do curso de Jornalismo da UNEB Seabra, sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra