Manifestação religiosa e cultural realizada há 26 anos mobiliza a comunidade e reúne fé, arte e devoção na Sexta-Feira Santa.

Por Lucas Assunção.

Fotos: Maria Eugênia Soares

  A Sexta-Feira Santa, celebrada em 3 de abril, foi marcada por fé, emoção e tradição em Piatã com a realização de mais uma edição da Encenação da Paixão de Cristo, manifestação religiosa e cultural que, há 26 anos, mobiliza a comunidade e reúne fiéis em um dos momentos mais simbólicos da Semana Santa no município.

  A programação do dia começou ainda nas primeiras horas da manhã, com a tradicional Via-Sacra até a Serra de Santana, realizada às 6h. A caminhada teve início na Igreja Matriz da Paróquia Senhor Bom Jesus de Piatã e seguiu até a Capelinha do Senhor do Bonfim, reunindo fiéis em um momento de oração, penitência e reflexão. Às 15h, os fiéis participaram da Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, com o tradicional beijo da cruz, momento central da vivência litúrgica da data. Já à noite, em frente à Igreja Matriz, a comunidade acompanhou a encenação, seguida pela tradicional Procissão do Senhor Morto, marcada por silêncio, oração e forte comoção popular.

A encenação revive os últimos momentos da vida de Jesus Cristo e se consolidou, ao longo das décadas, como uma expressão de fé, memória e pertencimento coletivo. Segundo Ernane Anjos, um dos organizadores, a tradição nasceu a partir da juventude da comunidade e cresceu com o apoio popular. “A Paixão de Cristo surgiu por iniciativa do Grupo de Jovens Nova Esperança, há 26 anos, com a contribuição de toda a comunidade”, explicou.

Atualmente, cerca de 70 pessoas participam da apresentação entre elenco e produção, o que demonstra o envolvimento coletivo na realização do espetáculo. Ernane destaca, no entanto, que manter a tradição viva exige esforço e compromisso de muitas mãos. “Um dos maiores desafios é encontrar pessoas dispostas a atuar e manter viva essa tradição, além do tempo, dos ensaios, dos figurinos, do cenário e de toda a produção”, afirmou.

  Para Anjos, seguir encenando a Paixão de Cristo é também uma forma de garantir continuidade às novas gerações e manter acesa a dimensão evangelizadora do evento. “Continuar encenando a Paixão de Cristo é manter viva uma tradição que atravessa gerações e incentivar os mais jovens a levarem esse espetáculo adiante”, destacou.

  Para o pároco de Piatã, padre Jucimar Pereira, a vivência da Sexta-Feira Santa está profundamente ligada ao mistério da entrega de Cristo e ganha ainda mais sentido quando celebrada de forma concreta na comunidade. Segundo Pereira, a encenação ajuda os fiéis a compreenderem a Paixão como uma experiência humana e espiritual que continua a questionar a vida dos cristãos.

  “A encenação da Paixão de Cristo nos ajuda a perceber a humanidade de Jesus, porque nos faz olhar para esse movimento da paixão não apenas como um texto, mas como uma vida, como algo que realmente acontece”, afirmou Pereira.

  O pároco também destacou a importância de manter viva essa tradição, especialmente como forma de transmitir valores às novas gerações e fortalecer a identidade da comunidade. “É importante manter essa tradição viva e passá-la para os nossos jovens e nossas crianças, porque estamos falando de valores, princípios e daquilo que fundamenta o nosso ser Igreja e o nosso ser sociedade”, completou o pároco.

  Para quem participa diretamente da encenação, a experiência vai além da atuação. É também um exercício de fé, entrega e reflexão. É o caso de Leonardo Santana, que já viveu diferentes personagens ao longo dos anos, entre eles Jesus, Herodes e Sumo Sacerdote, e vê na apresentação um espaço de aprendizado espiritual e humano.

  “Participar da encenação representa, para mim, um fortalecimento da fé e um aprendizado que alcança tanto a vida material quanto a vida espiritual”, disse Santana.

  Segundo Santana, a força da peça está justamente no fato de que ela ultrapassa o aspecto cênico e assume um papel de evangelização dentro da comunidade. “A apresentação não teria sentido se fosse apenas uma apresentação. O nosso intuito é evangelizar e tocar o coração de quem assiste”, afirmou.

  Do lado do público, a encenação também é vivida como um momento de fé profunda e de reafirmação da identidade religiosa e cultural de Piatã.

  Morador da cidade e integrante da comunidade paroquial, Davi Lôbo destaca a importância da tradição para o município e para a vivência da espiritualidade dos fiéis. “Enquanto morador, vejo a encenação como uma tradição importante da nossa Piatã, que precisa ser preservada por esta e pelas futuras gerações”, afirmou.

  Para Lôbo, um dos aspectos mais marcantes da programação é a forma como a comunidade manifesta sua fé de maneira coletiva, especialmente durante a apresentação e a procissão. “O que mais me emociona é ver a fé do povo, honrando de forma tão fervorosa e humilde o sacrifício de Jesus”, disse.

  A permanência da Encenação da Paixão de Cristo por mais de duas décadas evidencia o compromisso da comunidade com a Semana Santa, e também a força de uma tradição que atravessa o tempo, mobiliza diferentes gerações e reafirma a fé como elemento vivo da cultura local.

  Em Piatã, a Sexta-Feira Santa segue sendo mais do que uma data no calendário litúrgico. É um dia em que a cidade para para recordar, sentir e testemunhar, por meio da arte, da oração e da tradição, o mistério da paixão, morte e amor de Cristo.

Fotos: Maria Eugênia Soares

*Aluno do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra