O conhecimento popular sobre ervas, passado principalmente por mulheres, ganha força com novas pesquisas e iniciativas de saúde integral, revelando a potência da biodiversidade e da sabedoria ancestral da Chapada.
Por Lucas Assunção, Ana Novais e Taciere Santana
Na Chapada Diamantina, onde a paisagem mistura serras, ventos frios e quintais cultivados com esmero, existe um tipo de ciência que não nasceu nos laboratórios: nasceu das mãos de mulheres que aprenderam com a terra. Em muitas comunidades rurais do Brasil, o uso de plantas medicinais sempre foi parte da sobrevivência e, hoje, ganha novos sentidos diante das pesquisas e das políticas de saúde integral.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% da população mundial utiliza plantas medicinais como parte dos cuidados básicos. No Brasil, o Ministério da Saúde já reconhece mais de 70 espécies na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus). Em um levantamento sobre práticas integrativas divulgado pela Fiocruz em 2023, fica evidente que o uso popular de plantas medicinais permanece estável e significativo, sobretudo em regiões rurais e periféricas.
Mas esse saber é bem mais antigo que qualquer relatório. Ele atravessa gerações, como a história de Maria Brígida Salgado, moradora da comunidade da Malhada, em Piatã, instrutora rural e referência em práticas agroecológicas. O uso das plantas nunca foi apenas devoção, mas sobrevivência. “Tudo vem da terra, da água e do ar. A natureza sempre ofereceu os primeiros remédios”, explica Salgado.
Salgado participou de projetos de documentação de saberes tradicionais com universidades, contribuindo com relatos sobre ervas, manejo e cultivo. Para ela, a saúde é um processo integrado. “A cura não é só chá. É alimentação, emoção, pensamento. É tudo conectado”, defende.
A bióloga e professora, Maria Luísa Matos de Santana, reforça que o diálogo entre saber popular e pesquisa científica não só existe, como estruturou boa parte da farmacologia moderna. Os princípios ativos extraídos hoje em laboratório têm origem nas mesmas plantas usadas há séculos nas casas do interior. “O saber popular é ponto de partida. A ciência observa, experimenta, comprova e transforma em medicamento. Muitas descobertas nasceram do que as mulheres do campo já faziam”, ressalta Santana.
Na disciplina Estúdio Plantas, Santana aproximava os estudantes da prática: preparavam chás, estudavam princípios ativos, efeitos terapêuticos e riscos de uso inadequado. “Fiz muito xarope de cebola, mel e agrião para minhas filhas. Hoje ensino minhas filhas a fazerem para os meus netos”, explica, citando alguns ingredientes da receita.
Quem também se dedica ao estudo das plantas na região é o médico e pesquisador, Áureo Augusto Caribé, conhecido como Dr. Áureo Augusto, com atuação no Vale do Capão. Ele trabalha há décadas com naturopatia, medicina integrativa e saberes ancestrais, unindo fitoterapia, alimentação natural e práticas tradicionais. É autor de livros e integra grupos de pesquisa independentes em saúde natural.
Para Caribé, o tema está em expansão e admira a diversidade de espécies usadas na Chapada. “As plantas medicinais são tão antigas quanto a humanidade. É uma imensidão de plantas! Mil-folhas, erva-doce, anis-estrelado, entre outras”.
Com relação à dose, Caribé chama a atenção para o risco da dosagem. “Planta é remédio. Dose errada vira problema. Essa ideia de ‘quanto mais, melhor’ pode ser perigosa”, conclui.
Dados da Fiocruz apontam que cerca de 25% dos medicamentos modernos utilizam substâncias derivadas de plantas. Pesquisas recentes, segundo o Ministério da Saúde em relatório de 2023, indicam aumento de 39% no número de municípios que ofertam fitoterapia no SUS entre 2018 e 2022. Só em 2022, foram registrados mais de 17,4 mil atendimentos relacionados à fitoterapia na rede pública.
Para o Dr. Áureo Augusto Caribé, o futuro depende da combinação entre ciência e memória. “Muita gente idosa se foi e levou tudo com ela. Estamos perdendo um patrimônio imenso”, lembra.
Criada em 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC) estabelece diretrizes para ofertar terapias como fitoterapia, massoterapia, acupuntura, reiki, aromaterapia e outras abordagens no Sistema Único de Saúde (SUS). A política integra promoção da saúde, prevenção e cuidado integral, reconhecendo saberes ancestrais e práticas baseadas em evidências.
A PNPIC orienta a formação de profissionais, o incentivo à pesquisa e a ampliação dos serviços, que, segundo o Ministério da Saúde, já alcançam cerca de 40% dos municípios brasileiros. Com isso, práticas antes vistas como alternativas passam a ocupar lugar oficial nas políticas públicas de saúde.
Entre quintais, laboratórios e consultórios, o que une essas histórias é a compreensão de que a saúde não cabe em uma única lógica. O uso das plantas para aliviar uma gripe, tratar inflamações, acalmar o corpo, combina experiência, observação, afeto, espiritualidade e ciência.
A integração entre conhecimento tradicional e pesquisa contemporânea fortalece tanto a preservação dos saberes quanto sua legitimidade nas políticas públicas. E, no final, o saber ancestral não disputa espaço com a ciência: dialoga com ela.
É nesse diálogo, cuidadoso, paciente e vivo, que nasce uma compreensão mais ampla sobre o que significa cuidar. Porque, quando uma erva cresce no quintal, ela traz consigo tudo o que veio antes: as mãos que a plantaram, as histórias que a ensinaram e as vidas que ela ajudou a curar.
*Alunos do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.