Em Piatã, máquinas, análise de solo e novas formas de beneficiamento transformam o trabalho de famílias produtoras. Ao mesmo tempo, a permanência dos jovens no campo continua sendo um desafio.

Por Lucas Assunção e Gustavo Oliveira*

Mãos de produtores durante o trabalho com o café na comunidade de Santa Bárbara, em Piatã. Foto: Tainara Silva

  A cerca de 20 minutos da sede de Piatã, na Chapada Diamantina, a comunidade de Santa Bárbara reúne paisagens de serras, nascentes, pinturas rupestres e uma tradição que há décadas movimenta a economia local: o cultivo do café.

  A cafeicultura faz parte da história de Piatã há gerações, mas foi principalmente a partir das últimas décadas que o município passou a ganhar projeção pela produção de cafés especiais. Em 1997, produtores locais criaram a Associação dos Cafeicultores do Município de Piatã (Ascamp) e, em 2003, surgiu a Cooperativa Agrícola dos Cafeicultores do Município de Piatã (Coocamp), voltada à comercialização da produção. A organização dos produtores e a adoção de novas técnicas ajudaram a transformar a relação da região com o café.

  Os números ajudam a dimensionar essa trajetória. Em 2006, Piatã produzia cerca de 15 mil sacas de café, sendo 2,5 mil de cafés especiais. No ano seguinte, a Chapada Diamantina era apontada pela Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária da Bahia (SEAGRI), como responsável por cerca de 500 mil sacas de café por ano, enquanto Piatã se destacava pela produção de café de qualidade. Naquele período, os cafés do município também ganharam reconhecimento em concursos nacionais.

  Hoje, o povoado de Santa Bárbara está inserido nesse território conhecido pela produção de cafés de altitude. Entre pequenas propriedades e famílias que vivem da agricultura, o café atravessa gerações. A tradição permanece, mas a maneira de produzir mudou.

  Na família Assunção, o cultivo acompanha pelo menos três gerações. Ieda Maria de Assunção, de 29 anos, cresceu entre as atividades da roça e aprendeu desde cedo que a produção exige trabalho durante todo o ano.

  O pai de Ieda começou a trabalhar com café por volta de 1980. Antes dele, outros moradores da comunidade já cultivavam o grão. Ao longo dos anos, novas ferramentas foram incorporadas à rotina da família.

  “Tudo sempre vai mudando. A gente sempre aprende alguma coisa nova para facilitar e melhorar a produção”, conta Assunção.

  Hoje, parte do trabalho que antes dependia exclusivamente da força humana é realizada com o auxílio de máquinas. A família utiliza equipamentos para atividades como a limpeza da lavoura e também passou a recorrer à análise de solo para orientar o manejo.

  Para Assunção, buscar novos conhecimentos e tecnologias é uma maneira de melhorar o trabalho sem abandonar aquilo que foi aprendido dentro da própria família.

  A internet também passou a fazer parte da comercialização. Negociações que antes dependiam do contato presencial podem ser feitas pelo celular, inclusive por meio do WhatsApp.

  A transformação também chegou ao beneficiamento, conjunto de etapas que prepara o café colhido para a comercialização. Durante gerações, parte desse trabalho era feita manualmente, com o uso de pilões. Hoje, equipamentos passaram a realizar etapas do processo com mais rapidez.

Frutos de café durante uma das etapas da produção. Foto: Itiele Novais

  O despolpamento é um exemplo. Nesse processo, a máquina retira a polpa que envolve o grão do café depois da colheita, separando o grão da parte externa do fruto. O equipamento foi introduzido por meio da associação comunitária e passou a fazer parte da rotina dos produtores. Segundo a família, o processo contribui para melhorar a qualidade do café e reduzir o tempo necessário para a secagem.

  Segundo a família, o café despolpado também pode ser comercializado por um valor maior que o café natural. É uma mudança que mostra como a inovação chegou a uma etapa que durante muito tempo foi realizada de forma artesanal.

Uma lavoura que precisou mudar

Cafeeiro carregado de frutos durante o período de produção. Foto: Itiele Novais

  As mudanças não ficaram restritas ao beneficiamento. Na família Novais, o cultivo também foi adaptado para receber máquinas e novas técnicas de manejo.
Idiene Novais acompanha esse processo dentro da propriedade. Segundo ela, a introdução de tratores fez com que o espaçamento entre as fileiras de café precisasse ser repensado, pois as fileiras eram estreitas e as máquinas poderiam danificar a plantação. A adubação e o controle de plantas espontâneas também passaram por mudanças.

  A análise do solo e a irrigação entraram nesse processo de adaptação. Com essas ferramentas, o produtor consegue conhecer melhor as necessidades da lavoura e tomar decisões sobre o manejo.

  Não se trata apenas de substituir uma ferramenta antiga por uma máquina nova. A mudança exige reorganizar o próprio modo de produzir.
Na Chapada Diamantina, as características naturais também fazem parte dessa equação. A altitude elevada de municípios produtores, associada às condições de temperatura, contribui para as características do café produzido na região.
Segundo John Leno de Souza Pinto, secretário municipal de Agricultura, Turismo e Meio Ambiente de Boninal e técnico agrícola, a Chapada possui condições favoráveis para a produção de cafés de qualidade. Municípios como Piatã, Barra da Estiva e Ibicoara estão entre os produtores da região.

  Souza explica que os dias mais quentes e as noites mais frias, comuns nas áreas de maior altitude, fazem parte das condições que favorecem o cultivo do café arábica.
Mas produzir café na região também significa lidar com dificuldades. A falta de mão de obra para a colheita manual e os períodos prolongados de estiagem estão entre os desafios enfrentados pelos produtores.

Do café tradicional ao café de qualidade

  A transformação do campo também acompanha uma mudança no próprio mercado. Souza observa que a produção da Chapada passou por um processo de diversificação, com maior atenção aos cafés especiais e gourmet. Esses mercados exigem maior controle das etapas de produção, desde a lavoura até a seleção, beneficiamento e torra. Para chegar a esses produtos, o cuidado não termina na colheita.

Café torrado após as etapas de produção e beneficiamento. Foto: Itiele Novais

  Cooperativas e produtores passaram a buscar equipamentos capazes de melhorar etapas como classificação, seleção e torra. Máquinas para separar os grãos por tamanho e equipamentos que permitem maior controle da torra são exemplos dessa transformação.

  A assistência técnica também aparece como parte desse processo. Conhecimentos sobre nutrição das plantas, controle de pragas e doenças, manejo e pós-colheita podem orientar decisões dentro da propriedade.

  Para Souza, esse conhecimento pode contribuir não apenas para melhorar a produtividade, mas também para aumentar a qualidade e o valor do café produzido.

  A modernização, porém, não elimina os problemas enfrentados no campo. Em períodos de seca, por exemplo, as lavouras que dependem da chuva ficam mais vulneráveis. A busca por tecnologias e novas formas de manejo surge também como uma tentativa de enfrentar essas mudanças.

O conhecimento que passa de uma geração para outra

  Antes das máquinas e dos equipamentos, existe uma tecnologia que continua sendo transmitida de geração em geração: o conhecimento aprendido dentro da própria família.

  Tainara Silva cresceu acompanhando os pais na roça. Durante a colheita do café, uma das atividades mais trabalhosas, ela também participava da rotina. Quando as responsabilidades escolares aumentaram, passou a permanecer mais tempo em casa, ajudando nas tarefas domésticas e nos cuidados com a irmã.

  Mesmo quando estava na escola, Tainara continuava ajudando quando podia. Uma das tarefas era retirar o café dos terreiros de secagem, áreas onde os grãos permanecem expostos ao sol e ao vento antes de serem armazenados.
A experiência de Tainara mostra que a aprendizagem no campo não acontece apenas por meio de cursos ou assistência técnica. Ela começa na observação e na convivência.

  Cada integrante da família ensina de uma maneira, e o conhecimento vai sendo acumulado ao longo dos anos.
Hoje, Silva reconhece que muita coisa mudou. Máquinas passaram a realizar atividades que antes eram feitas manualmente, e o beneficiamento também ganhou novos equipamentos.

  Mas existe uma pergunta para a qual ela ainda não tem uma resposta definitiva: continuar ou não na atividade rural? Ela considera que talvez possa permanecer ligada ao café de outra forma, ajudando a mostrar o processo, o esforço e o trabalho das pessoas que vivem da produção. O café continua sendo uma fonte de renda importante para muitas famílias, mas isso não significa que todos os jovens que crescem nesse ambiente queiram permanecer na roça.

  Em Santa Bárbara, segundo Silva, são poucos os jovens que demonstram interesse em continuar diretamente envolvidos com a produção rural. Muitos buscam outros caminhos, principalmente por meio dos estudos e de oportunidades fora da comunidade. A questão da sucessão rural, portanto, permanece aberta.

Entre a tradição e o futuro

Cafeeiro carregado de frutos ainda verdes. Foto: Itiele Novais

  Para Souza, a saída de jovens do campo está relacionada às dificuldades enfrentadas historicamente pela agricultura. Ao mesmo tempo, ele avalia que o acesso à tecnologia, à formação e à assistência técnica pode criar novas possibilidades para quem decide permanecer.

  Para Souza, a presença dos jovens também pode trazer outros conhecimentos para dentro da propriedade. Estudos, novas técnicas e familiaridade com ferramentas digitais podem se somar ao conhecimento acumulado pelas gerações anteriores.

  Na família Assunção, Ieda vê essa continuidade como uma forma de preservar não apenas uma atividade econômica, mas uma história familiar. Para ela, permanecer na produção significa carregar adiante o vínculo construído pela família com a agricultura.

  A experiência das famílias de Santa Bárbara revela que modernizar o café não significa necessariamente romper com o passado. O trator pode ocupar o lugar de parte do trabalho manual; a análise de solo pode orientar decisões que antes eram tomadas pela experiência; e o despolpador passou a realizar etapas que, no passado, eram feitas no pilão.

  Mas a tecnologia, sozinha, não responde à principal questão para o futuro da atividade: quem estará na lavoura daqui a uma geração?

  Entre o conhecimento aprendido com os pais e as possibilidades abertas pelas novas tecnologias, o café da Chapada Diamantina segue se transformando. A tradição permanece, agora acompanhada por máquinas, análise de solo, novos mercados e uma geração que ainda decide qual será o seu lugar nessa história.

 

*Alunos do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra