Projeto circula por municípios baianos com apresentações gratuitas que unem teatro, música nordestina e educação ecológica

Por Eloísa do Carmo*

  O sertão se torna espaço para a arte, teatro e aprendizado com o projeto “Sertão Ecológico”, um espetáculo musical infantil que propõe unir cultura popular nordestina e educação ambiental. A estreia será nesta segunda-feira, 24 de novembro, com sessões às 14h e às 16h, na Escola Municipal de 1º Grau de Caeté-Açu, Palmeiras (BA). A direção é de Eduardo Esquilante, roteiro em colaboração com Cawe Coy.

  A iniciativa pretende circular por escolas públicas e espaços culturais de dez municípios do Território da Chapada Diamantina (BA), Andaraí, Boninal, Iraquara, Irecê, Lençóis, Morro do Chapéu, Mucugê, Palmeiras, Seabra, Souto Soares; oferecendo apresentações gratuitas para crianças em horário de aula e, eventualmente, para toda a comunidade.

  “Levar o Sertão Ecológico às escolas da Chapada é semear consciência desde cedo. As crianças daqui crescem em meio a uma natureza riquíssima, mas muitas vezes sem acesso a projetos culturais e educativos que falem da sua própria realidade. O espetáculo mostra que o sertão é vida, é força e também precisa ser cuidado. Através da música, do humor e da arte, a gente desperta valores como empatia, pertencimento e responsabilidade ambiental” enfatiza a coordenadora do projeto e integrante do elenco, Larissa Carvalho de Souza. 

  Para Souza, atuar como personagem e também coordenar o projeto é um desafio interessante. “Quando estou como Carcará, adentro completamente no universo lúdico das crianças é o momento de inspirar, brincar e cantar. Já na coordenação, preciso cuidar para que tudo aconteça, logística, equipe, material e claro, o propósito maior do projeto. Equilibrar as duas funções exige presença e amor. Eu me permito viver as duas com o mesmo coração: o da artista que sonha e o da gestora que faz acontecer”, afirma Souza.

  Com roteiro e composições assinados por Cawe Coy Rodrigues Marega, o espetáculo traz um enredo lúdico e educativo sobre a preservação do meio ambiente e a valorização da biodiversidade, abordando temas ecológicos de forma leve, poética e divertida. A direção cênica é de Eduardo Esquilante, profissional com mais de 30 anos de experiência no teatro musical infantil, conhecido por dirigir o clássico Os Saltimbancos em diversas regiões do Brasil.

  Segundo Esquilante, a principal diferença entre Sertão Ecológico e Os Saltimbancos está na temática central que cada espetáculo propõe. Enquanto Os Saltimbancos, adaptado e lançado no Brasil na década de 1970, surge em um contexto de ditadura militar e utiliza a metáfora dos animais para discutir questões sociais, o Sertão Ecológico desloca o foco para o campo ambiental. Nessa nova proposta, o alerta para a preservação da natureza, a reciclagem do lixo e o cuidado com o meio ambiente ganham protagonismo, atualizando o discurso social de Os Saltimbancos para uma pauta contemporânea de conscientização ecológica e sustentabilidade.

  Esquilante revela seu entusiasmo em realizar uma apresentação em escola pública, para ele é uma experiência única e que requer atenção. ‘É preciso trabalhar bastante a improvisação, mesmo em cima do que já foi ensaiado. Por mais que o espetáculo esteja pronto, a improvisação é essencial, porque, de repente, uma criança grita, faz uma pergunta ou tenta participar do texto — e o ator precisa estar preparado para responder a isso. Acho que essa capacidade de improvisar é o grande diferencial’, explica Esquilante.

  Isso também influencia na forma de dirigir. No teatro, dirigir um grupo que vai se apresentar para um público tão grande e imprevisível é diferente. É preciso considerar que podem acontecer imprevistos e momentos de improviso. Por isso, a gente trabalha bastante com exercícios de improvisação, para que o ator esteja sempre atento e pronto para reagir.

  Para dar fundamento à conscientização ambiental que o espetáculo busca despertar, foram escolhidos animais diversos como personagens, cada um conectado a um dos quatro elementos básicos da vida: ar, terra, água e fogo. E para dinamizar ainda mais o ensinamento ecológico, observa-se que cada animal tem uma importância diferente para o equilíbrio ambiental.

  O Carcará, um pássaro símbolo do sertão, representa o elemento ar e, ao se alimentar de restos, exerce uma função nobre de limpeza que inspira a reciclagem. A Piaba representa o elemento água, um ser que quando presente e vivo simboliza que o rio está saudável, pois colabora na dispersão de sementes e fertilização dos rios do sertão. O Bicho Homem, representando o elemento fogo, com maestreza extrai do sertão sua subsistência e, quando mantém a chama da consciência acesa, também colabora para proteger a natureza como algo sagrado e retirar dela só o que se precisa para que nunca falte a nenhum ser vivo.

Elenco do espetáculo

Elenco do espetáculo “Sertão Ecológico”.

  Fazem parte do elenco: Tatiane Carvalho de Souza (Vaca), Larissa Carvalho de Souza (Carcará), Yann Cabôco (Piaba) e Josué Mateus (Bicho Homem). A coordenação geral é de Larissa Carvalho de Souza e a produção de palco, de Tatiane Carvalho de Souza.

  De acordo com Carvalho, o personagem vaca representará o animal mais explorado pelo ser humano dentro da trama. Ela é passiva e carinhosa, características que a tornam mais vulnerável para tal exploração. “Pessoalmente tenho grande empatia pela vaca, tendo assim me tornado militante em movimentos que buscam diminuir o consumo de produtos de origem animal”, explica Carvalho.

  Para Carvalho, o processo de produção do espetáculo tem sido bastante divertido e criativo. “Tendo em vista um cenário de natureza e animais, me sinto naturalizada com esse tema. Poder levar essa mensagem para diferentes municípios do interior, onde há pouca demanda artística, me traz uma expectativa bastante honrosa”, relata.

  Para Yann Cabôco, as diversas culturas presentes na Chapada Diamantina precisam ser transmitidas às crianças, pois são elas que fortalecem a identidade territorial. “Nesta temporada, temos o privilégio de compartilhar com as escolas espaços de saberes formais, toda a riqueza cultural que faz parte do nosso cotidiano: religiosidades, festas e manifestações tradicionais. As crianças crescem com esse sentimento de pertencimento, que pode contribuir para várias dimensões de suas vidas”, afirma Cabôco.

  Em uma época dominada pelas telas e pelo excesso de informações, Cabôco destaca que a identidade territorial se torna uma das principais ferramentas de resistência. “Temos a oportunidade de nascer em um lugar tão incrível e especial, com tamanha diversidade cultural! Nossa arte está espalhada pelo mundo e abre muitas portas, por isso, sinto que é fundamental conhecer nossa história e nossas tradições”, salienta Cabôco.

  Além das apresentações, o projeto prevê o lançamento de um videoclipe e ações de divulgação digital, com o objetivo de alcançar até 10 mil pessoas nas redes sociais. No total, serão 20 apresentações em 10 espaços diferentes, atingindo aproximadamente 4 mil espectadores diretos, entre crianças, professores e famílias.

Cultura, educação e inclusão

  O “Sertão Ecológico” se alinha aos princípios do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), que visa ampliar o acesso à cultura, estimular a produção regional e valorizar tradições populares brasileiras. O projeto valoriza ritmos como o forró, o xote e o baião, integrando a musicalidade nordestina à narrativa teatral.

  Além de fortalecer a cultura local, o espetáculo aposta na acessibilidade e inclusão, garantindo que todas as crianças tenham acesso à experiência artística de forma equitativa.

  “Fico muito feliz em fazer parte dessa equipe absolutamente espetacular! A começar pelo elenco: Larissa e Tatiane são uma jóia raríssima da música nordestina. Yann chegou com sua sanfona inconfundível e Josué com sua habilidade na dança. Eduardo traz uma bagagem incrível no teatro musical infantil, e eu entro com minha experiência na gestão cultural, assinando o roteiro e as canções. Estamos prontos para decolar com Sertão Ecológico. Esse time vai longe!”, afirmou Cawe Marega.

*Aluna curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra