Mais do que um espaço de vendas, a Feira Agroecológica conecta tradição, sustentabilidade e protagonismo feminino na capital da Chapada Diamantina
Por Geisa Lorena*
É na tradição e no encontro de saberes que a Feira Agroecológica da Chapada Diamantina vem fortalecendo laços comunitários e a economia solidária. É nesse espaço que escoam uma variedade de alimentos sem agrotóxicos, frutos de quem planta, colhe e preserva uma cultura local. A feira proporciona a comercialização de verduras, hortaliças, bolos e produtos feitos de forma artesanal. É nela que mulheres encontram sua voz, sua autonomia e seu instinto empreendedor.
Criada em 2020, a Feira Agroecológica da Chapada Diamantina é uma iniciativa de agricultores e artesãos de vários municípios da região. Em 2025, ela se consolidou como um evento semanal, realizado toda quarta-feira na Praça dos Correios, em Seabra.“A feira foi construída pensando em ser um espaço regional. Então, a ideia era que ela atendesse à demanda dos agricultores de toda a região da Chapada Diamantina”, relata a coordenadora da feira, Ana Carolina Regis. As edições da feira foram interrompidas durante a pandemia da Covid-19 e retomaram suas atividades em 2022.
Sustentada por um coletivo, a feira é uma atividade vinculada à Rede Chapada Agroecológica. Segundo Regis, trata-se de uma organização ainda sem formalização jurídica, “não temos uma formalização em termos de CNPJ, ou seja, não é uma associação. É apenas um coletivo de pessoas voluntárias que conduzem, organizam e articulam para que a feira aconteça”, explicou. Nesse movimento, encontram-se mulheres das comunidades locais, agricultoras e artesãs.
Entre as parcerias, encontram apoio em instituições como a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) campus Seabra; o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), campus Seabra; o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Prefeitura de Seabra, além outros apoiadores que oferecem ajuda com questões de logística, transporte e divulgação. “Sem esse apoio, a gente não teria condições de realizar a feira porque não temos recursos financeiros. A gente pede uma colaboração de 5% das vendas, mas não é um valor fixo. Nem todas contribuem, nem todas vendem, nem todas têm condições”, pontua Regis.
É nesse ambiente de cooperação que se busca a autonomia dessas pessoas, o cuidado com a terra e a valorização de suas produções. “A feira é um espaço importante para a soberania alimentar na Bahia. As pessoas que consomem esses produtos estão garantindo essa soberania. Além de valorizar pequenos produtores e iniciativas locais, estamos também priorizando práticas agroecológicas, com alimentos cultivados sem veneno”, explica Priscila Machado, engenheira agrônoma e agente pastoral da terra do Centro-Norte da Bahia.
Autonomia econômica e protagonismo feminino
Dados do Censo Agropecuário de 2017 apontam que 947 mil mulheres são responsáveis pela gestão de propriedades rurais, e 57% dessas gestoras estão na região Nordeste. Além disso, os dados mostram que cerca de 15 milhões de mulheres vivem no campo, representando 47,5% da população rural.
“Eu costumo dizer que os quintais são femininos. Desde lá, as mulheres já ocupam esse espaço, cuidando da família e da alimentação. E, por meio da agroecologia, elas também cuidam da terra. Porque, se a gente for pensar em agroecologia, pensa principalmente nesse cuidado com a terra”, relata Sandreia Santana, vice-coordenadora da Feira Agroecológica da Chapada Diamantina e mestranda em Ciências Ambientais.
A feirante Michele Lyra, especialista em alimentos saudáveis e inclusivos, reforça que a Feira Agroecológica da Chapada é protagonizada por mulheres, “você pode olhar que, na feira, só tem mulheres. A Feira Agroecológica é 95% de mulheres, e os 5% de homens que participam geralmente vêm acompanhando suas esposas”.
Segundo Machado, as feiras agroecológicas têm promovido a autonomia econômica dos feirantes, em sua maioria mulheres. “Além de estarem na linha de produção em seus próprios quintais, são elas que vão à feira, fidelizam os clientes e estão ali toda semana, oferecendo alimentos de qualidade e garantindo sua renda. Algumas já conquistaram essa dignidade, e isso vem fortalecendo um empoderamento coletivo entre as mulheres que participam”, afirmou.
É o caso de Natália Lima, agricultora familiar com certificação orgânica, que marca presença toda semana na feira na Praça dos Correios, em Seabra. “A gente troca saberes, encontra apoio e fortalece nossa presença como agricultores e agricultoras familiares. A renda que tiro da feira me dá mais independência, me ajuda a manter minha roça e cuidar dos meus. Mas o mais forte é o vínculo que a gente constrói com quem compra, com quem confia em nosso alimento. A feira me devolveu confiança e me ensinou que o que eu sei tem valor”, conta.
A feira não apenas impulsiona a mulher rural, mas também fortalece aquelas que trabalham com artesanato, oferecendo uma rede de apoio e um espaço de visibilidade. “O meu trabalho cresceu, consegui divulgar mais o artesanato que faço. Antes, eu não conhecia tantas pessoas e, depois que comecei a participar da feira, passei a ter contato com mais gente e conquistei novos clientes”, pontuou a artesã Alexsandra Oliveira.
Além de servir como vitrine para essas mulheres, onde elas conseguem vender seus produtos, fidelizar clientes e gerar renda, a feira se consolida como um espaço de fortalecimento de saberes e de troca de conhecimentos. Um lugar de interação social e vivência cultural.
“Tem um intercâmbio, uma troca de diálogos, de informação e conhecimento. Elas vão adquirindo mais saberes, e, a partir da feira, trocam essa experiência, experimentam novos produtos. É uma experiência bem interessante para esse desenvolvimento das mulheres”, avalia Regis.
Valorização, cuidado e soberania alimentar
Não é só na busca pela valorização do trabalho artesanal e dos produtos livres de agrotóxicos que se configura esse movimento, mas também na promoção de um modo de vida sustentável, que valoriza a identidade das comunidades e o que há por trás da vida no campo.
A vice-coordenadora da feira, Sandreia Santana, descreve como esse ambiente representa um reencontro de suas raízes. “Atuar em uma Feira Agroecológica me faz refletir muito sobre o modo de vida das comunidades rurais. Estive um tempo afastada [do campo] e a feira foi esse espaço de aproximação da ‘Sandreia’ que estava na cidade e que voltou para a zona rural. É muito importante essa valorização de quem a gente é”, contou.
“Meu dia começa cedo, às 4h da manhã, com o orvalho ainda nos pés, está sempre bem frio, porque meu sítio fica ao pé da serra, num ponto alto”, compartilhou Lima ao falar sobre sua rotina. No sítio cada etapa antes de levar seus produtos para a feira é feita com cuidado e com práticas orgânicas. “Desde a identificação da planta que precisa de ajuda, a coleta do adubo, a mistura de adubos orgânicos, preparo do solo, até a colheita de sementes e produtos que vou levar para a feira, são feitas com as minhas mãos e a de meu marido, que me ajuda. Planto com muito zelo, sem nada de veneno, sem pressa, com escuta e olho atento ao que cada planta está precisando”, acrescentou.
Em 2022, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN), mais de 33 milhões de brasileiros estavam em estado de insegurança grave e mais de 125 milhões conviviam com algum grau de insegurança alimentar. É diante desse cenário que iniciativas como a Feira Agroecológica da Chapada Diamantina se mostram essenciais.
É pelo respeito à terra e com um olhar para o futuro que práticas como as de Natália se firmam nesse movimento de resistência. Santana reforça o papel da feira como uma alternativa para promover a soberania e a segurança alimentar. “Eu vejo a feira como referência, inclusive na luta pela sobrevivência, porque, se a gente pensa em agroecologia, a gente pensa nela como alternativa para a segurança alimentar e para a luta contra a crise climática. A agroecologia vai pensar no cuidado com a terra, no cuidado com o ser humano”, explicou.
A agroecologia segue um caminho de promover um equilíbrio entre as atividades humanas e a biodiversidade. As feiras visam fortalecer essas agriculturas com circuitos curtos e a geração de renda. Para Machado, não se trata apenas de alimentos sem venenos, mas de manter um equilíbrio ecológico. “As feiras têm um viés de escoamento da produção, mas por trás delas, existe toda essa riqueza biocultural das pessoas e também a forma de produzir seus alimentos”, disse ela.
Desafios e apoio: logística, recursos e continuidade
Um estudo de Regis, intitulado “Feira Agroecológica da Chapada Diamantina: desafios e perspectivas de uma construção coletiva”, apontou que, durante as quatro primeiras edições da Feira Agroecológica da Chapada Diamantina, foram registrados 42 feirantes de diversos municípios, como Piatã, Lençóis, Utinga, Bonito, Palmeiras entre outros da região. Segundo Regis, o maior desafio para a permanência desses feirantes foi em relação ao transporte e à distância dos municípios.
“A Chapada é muito grande e não tem transporte com facilidade. Então, mesmo as agricultoras do município de Seabra não têm essa tranquilidade, essa facilidade para conseguir chegar até o local e no dia da feira. Isso se tornava sempre um desafio. Chegamos ao entendimento de que a feira deveria ser realmente de Seabra, porque a gente não conseguia garantir o transporte dessas pessoas. As prefeituras não apoiavam, e eles tinham custo elevado de deslocamento, alguns não conseguiam transporte”, relatou a coordenadora.
Apesar de já ter uma presença fixa toda semana no centro de Seabra, a feira ainda enfrenta o desafio de consolidar um público consumidor, que, segundo Regis, não é por falta de divulgação, mas porque as pessoas ainda têm resistência em se aproximar da feira. “Não é que as pessoas não saibam. Elas sabem que a feira acontece, sabem quem procurar, mas muitas vezes não se aproximam”, relata.
A coordenadora ainda reflete sobre as discussões que existe sobre alimentação saudável, mas que se distanciam da prática. “Falam muito em consumo de alimentos sem agrotóxico, que esses venenos são perigosos, mas quando tem uma feira que tem legitimidade, onde vende produtos sem fertilizantes, sem produtos químicos, sem agrotóxico, elas não se aproximam”.
Segundo a feirante Lyra, a população do município de Seabra ainda não tem uma cultura de visitar e participar de feiras, sejam elas agroecológicas, de cultura e arte. “Seabra está começando agora com esse fortalecimento e esperamos que a população abrace esse movimento, que é muito importante. E isso ajuda muito as pessoas, as rendeiras, as crocheteiras e as agricultoras”, pontua.
A artesã Oliveira também opina que uma das barreiras enfrentadas é a de fazer com que as pessoas valorizem e conheçam os produtos dos feirantes. “Esperamos que as pessoas venham valorizar mais, reconhecer que o artesanato é um trabalho manual. Não é feito por máquina, são feitos por mãos, ponto a ponto. E é um desafio a gente mostrar isso para as pessoas, mas a gente está vencendo aos poucos”, disse ela.
“A participação das Mulheres Mil foi uma inovação! Conseguimos atrair algumas dessas mulheres que não tinham essa perspectiva, que não conheciam a feira, ou conheciam, mas também não participavam. E elas também entenderam a feira como um espaço de possibilidade de geração de renda”, conta a coordenadora da feira.
A feira, que já tem base na economia solidária com esse movimento, não apenas amplia as perspectivas dessas mulheres, mas também se fortalece ao atraí-las para esse espaço coletivo. O programa busca a formação profissional de mulheres, desenvolvendo a autoestima, o empoderamento e a geração de renda.
“A feira agroecológica já tem como bandeira esses princípios de economia solidária e oferece esse espaço físico para que elas consigam colocar em prática esses princípios da economia solidária. Ali, elas estão criando redes de apoio e se fortalecendo”, disse Camila Barbosa, supervisora local do programa.
Barbosa ainda conta que essa participação foi um ponto-chave na formação dessas mulheres, que tiveram oportunidade de expor os produtos que estavam produzindo e comercializá-los. “Muitas mulheres já tinham essa produção, seja de artesanato ou de produtos da agricultura familiar. Para quem ainda não tinha tido essa prática, foi uma forma de fortalecer essa autoestima para continuar nesse processo. Esse espaço proporcionou a troca de saberes entre elas”, completou.
Nesse encontro de formação e vivências, a feira se reafirma como um ambiente de reconhecimento e valorização do trabalho dessas mulheres que passam a se enxergar como protagonistas nesse processo.
Mudanças e políticas públicas
Apesar dos impactos positivos na vida dessas mulheres e nas comunidades, os desafios que a Feira Agroecológica da Chapada Diamantina enfrenta evidenciam a necessidade de maior atenção do poder público. Para a agente pastoral da terra, Priscila Machado, ainda falta investimento em infraestrutura para que as feiras agroecológicas da Bahia possam se expandir.
“As feiras agroecológicas estão enfraquecidas porque não têm espaço próprio para funcionar. Ela precisa ter um local próprio de comercialização, pois se ela se juntar com os outros feirantes e os outros alimentos, em feiras convencionais, acaba desvalorizando essa iniciativa agroecológica”, explicou Machado.
Regis explica que a feira, em Seabra, ainda precisa de apoio financeiro e recursos para poder articular melhor as questões de logística para que as pessoas consigam ir até a feira vender seus produtos. Para ela, o apoio para qualificação dessas feirantes é um ponto essencial para expandir o potencial desse movimento.
“A gente ainda precisa de apoio para a formação sobre o que é a agroecologia, sobre comercialização, a apresentação de produtos e precificação. Tem uma série de demandas que exigem recursos financeiros que nós não temos. A feira, desde o início, é um espaço também educacional, de manifestação da cultura local, mas que a gente não consegue trazer esses grupos culturais que na maioria das vezes estão na zona rural”, contou a coordenadora.
O prefeito de Seabra, Neto da Pousada, conta que há planos de expandir a agroecologia no município. Ele afirma que pretende criar um evento regional que una a feira, a cultura, formação e mobilização. “A gente quer fazer um evento com a feira, mas com estrutura para uma semana de palestras, de conscientização, para mostrar a importância desse movimento, e, no final da semana, fazer um evento cultural. Nós vemos outros municípios fazendo isso. A ideia é trazer um evento desse não só municipal, mas regional e estadual. Um encontro de várias culturas, para estarmos trocando ideias e conhecimentos. Eu acho que vai fortalecer muito a feira”, concluiu.
Para a vice-coordenadora da feira, Sandreia Santana, esse é um espaço que traz pautas importantes, onde é essencial discutir questões de sustentabilidade, “gostaria que as pessoas tivessem esse entendimento sobre a importância da feira, enquanto esse espaço de cuidado, de saúde e de interação”, disse.
Regis acredita que a Feira Agroecológica da Chapada ainda tem muito a alcançar, mas que é necessário um engajamento coletivo e conscientização. “A feira tem todo esse potencial para alcançar essa transição agroecológica, de fortalecer as mulheres, o consumo consciente e a preservação ambiental. Ainda temos muito o que fazer, mas a gente precisa de toda a população. É importante sair da palavra e passar para a ação, que passemos a ter atitudes realmente sustentáveis e não ficando somente no discurso”, afirmou.
*Aluna do curso de Jornalismo da UNEB Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.