Há 31 anos a Brigada Voluntária de Lençóis combate incêndios e salva vidas.

Por Bores Júnior*

   Na linha de frente, os brigadistas atuam em silêncio, realizando um trabalho contínuo e voluntário. São pessoas que, em meio ao fogo, arriscam a própria vida para combater os incêndios florestais. Não há hora para serem acionados: quando as chamas aparecem, é preciso apagá-las. O empenho desses cidadãos é fundamental para conter o avanço das queimadas na Chapada Diamantina, região central da Bahia.

   Segundo o monitoramento de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no primeiro semestre de 2025, a Bahia sofreu com 786 focos de incêndios, representando uma diminuição de 2,84% em comparação ao mesmo período do ano passado. Em relação às unidades federativas do Nordeste, o estado baiano superou os seus vizinhos em números de queimadas.

Gráfico com informações do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais – INPE

   Os incêndios florestais são comuns na estiagem, mas podem surgir em qualquer época do ano, se não existir uma proteção adequada nas áreas vulneráveis. Para isso, o Governo Federal, os Estados e os Municípios criam Áreas de Proteção Ambiental (APAs), Reservas Extrativistas (RESEX) e Unidades de Conservação de Proteção Integral (UCs). As iniciativas visam a proteção das áreas naturais, porém as APAs permitem a ocupação humana e o uso dos recursos naturais. As RESEX são destinadas para as comunidades tradicionais que vivem do extrativismo, enquanto as UCs proíbem a habitação, permitindo apenas o uso indireto da natureza, como o turismo.

   A Bahia possui unidades de conservação espalhadas pelo seu território, entre elas estão o Parque Nacional do Pau Brasil, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, entre outros. Segundo o levantamento do Sistema Vellozia do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), o Parna da Chapada Diamantina (Parna é abreviação de Parque Nacional) registrou neste ano 805 hectares de caatinga destruídos pelos incêndios, isso equivale aproximadamente a 5.747 campos de futebol.

Relatório do Sistema Vellozia – 06 de junho de 2025

   As queimadas  têm um impacto direto na conservação da biodiversidade, por isso voluntários se unem para controlar as chamas. Chamados de brigadistas, essas pessoas têm um objetivo em comum: a proteção do Parna. Na Chapada Diamantina, a situação não é diferente, diversas brigadas voluntárias são formadas com o intuito de prevenir. A palavra determinação é o que fortalece os colaboradores na preservação do lugar onde vivem.

Perigo dos Incêndios Florestais

   Os efeitos do fogo afetam, de maneiras diferentes, cada forma de vida. No entanto, todas compartilham as consequências desse problema ambiental. Animais são mortos ou perdem seus habitats, plantas são destruídas, e os seres humanos enfrentam riscos à saúde. Joanderson Prado, biólogo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), explica que entre os principais perigos das queimadas em unidades de conservação estão “a perda da biodiversidade, as UCs geralmente são áreas que abrigam organismos com certa fragilidade, a diminuição ou a perda total trará grande impacto nos ecossistemas”.

Confira a lista de espécies protegidas pelo Parque: 

  • Gavião-pomba – Leucopternis lacernulatus;
  • Guigó-da-caatinga – Callicebus barbarabrownae;
  • Gato-do-mato – Leopardus tigrinus;
  • Tamanduá-bandeira – Myrmecophaga tridactyla;
  • Onça-pintada – Panthera onca;
  • Borboletinha-baiano – Phylloscartes beckeri;
  • Tatu-canastra – Priodontes maximus;
  • Onça-parda – Puma concolor greeni;
  • Tiriba-grande – Pyrrhura cruentata;
  • João-baiano – Synallaxis cinerea;
  • Águia-cinzenta – Harpyhaliaetus coronatus.

Informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBIO

   Para recuperar áreas degradadas, existem algumas condições “como o tipo de ambiente e a intensidade da queimada, assim a recuperação total pode demorar de algumas décadas a séculos. A fauna, flora e funga (designa o grupo de fungos de um conjunto ecológico ou lugar) do local podem deixar de existir totalmente, tanto diretamente pelo fogo, quanto em decorrência da diminuição de indivíduos no local”, disse Prado.

   As consequências dos incêndios florestais são analisadas diretamente por profissionais que se dedicam ao estudo do clima. Catia Braga, meteorologista, pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), explica que “os incêndios florestais liberam gases de efeito estufa e aerossóis, intensificando as mudanças climáticas e alterando padrões de chuva. Esses eventos também impactam a fauna e os recursos hídricos locais”.

   Em áreas próximas a incêndios, as temperaturas aumentam devido à liberação de dióxido de carbono (CO₂). Esse elemento químico tem um impacto direto no aquecimento global, seus efeitos estão ligados ao derretimento de geleiras e ao aumento do nível do mar, causando a extinção de animais. 

Prevenção e Cuidado Voluntário

   “Cuidar hoje, para o futuro, Chapada Diamantina”, esta é a visão da Brigada Voluntária de Combate aos Incêndios Florestais de Lençóis (BVL). Criada em 1994, é a primeira iniciativa da categoria no Brasil com o trabalho de prevenção de queimadas, sendo um dos principais grupos que contribui para a proteção do Parque.

   A iniciativa é mantida por meio de doações e concorrências em editais, além do apoio significativo de outras brigadas voluntárias, e também de bombeiros, defesa civil e equipes do ICMBio e Ibama, essas parcerias contribuem para uma comunicação ampla e um atendimento rápido e eficiente. 

Arquivo do Instagram da Brigada Voluntária - 31 de março de 2025

Arquivo do Instagram da Brigada Voluntária – 31 de março de 2025 

   A Brigada busca salvar a fauna e a flora, mas também trabalha em conjunto com a Companhia de Bombeiros Militar de Lençóis (SGBM), que realiza o resgate de pessoas e outras emergências. Olivia Taylor, colaboradora da BVL, explica “assim que temos notícias de incêndios, avisamos os bombeiros e analisamos se precisa de ação. Juntamos um grupo de pessoas para sair, se tiver perto, sai um grupo da Brigada para realizar o primeiro controle”.  

   Segundo o Relatório de Visitação a Unidades de Conservação Federal do ICMBio, o Parna da Chapada Diamantina, em 2024, recebeu a visitação de 29.670 pessoas, representando um aumento de 704 turistas em relação ao ano anterior que chegaram à região. Nesse sentido, algumas ações da Brigada estão voltadas ao turismo, como a limpeza e a manutenção de trilhas nos principais pontos turísticos.

   Nas trilhas e em cachoeiras, os perigos são comuns, como quedas e a presença de animais peçonhentos, sendo necessário um cuidado também por parte dos visitantes. Os resgates são solicitados principalmente por pessoas que não conhecem a região. Taylor explica que ​“em caso de resgate se for perto e de fácil acesso saímos com um grupo e equipamentos, se for algo mais sério avisamos os bombeiros, porém saímos com grupo na frente para fazer o primeiro atendimento”. 

 

Confira as Recomendações da ICMBIO

Tabela feita por Bores Júnior com Informações Sobre Visitação – Parna da Chapada Diamantina

   Acompanhe também o Guia de Conduta Consciente em Ambientes Naturais do ICMBIO.

   Em 28 de março de 2025, a região do Parque Municipal do Pai Inácio, localizada no município de Palmeiras, sofreu um incêndio florestal que causou a destruição de uma parte da vegetação. Não há dados oficiais sobre quantos hectares foram devastados em decorrência das queimadas.  Porém, os esforços das equipes do Corpo de Bombeiro, composta por 25 militares e brigadas voluntárias, permitiram que o incêndio fosse controlado, antes de devastar áreas próximas. 

Arquivo do Instagram da Brigada – Incêndio próximo ao Morro do Pai Inácio – 26 de abril de 2025

Área devastada próxima ao Pai Inácio, vista de cima do morro – Foto: Bores Júnior – 13 de abril de 2025

   A BVL foi uma das equipes que atuaram durante o incêndio, em um gesto de solidariedade e compromisso com as causas ambientais. Não é somente a vegetação que queima, são vidas que se perdem. O fogo devasta e compromete o equilíbrio dos ecossistemas. Em meio as mudanças climáticas são necessárias ações coletivas voltadas à preservação da natureza. Por isso, a Brigada precisa de recurso para as atividades continuarem, faça a sua parte, doe! A sua ajuda será muito importante. Chave PIX da BVL 04.480.108/0001-80.

*Aluno do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora editora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra