Em um setor historicamente masculino, mulheres da Bahia conquistam espaço na produção, pesquisa e gestão do algodão, com apoio da ABAPA e iniciativas de
inclusão.

Taciere Santana e Ana Novaes*

Publicada em 30/09/2025

Isabela Busato sendo entrevistada por estudantes em visita técnica. Foto/ reprodução: Taciere Santana

   O algodão entrou na vida de Patricia Morinaga como uma herança de família e se transformou em paixão. Neta de imigrantes japoneses que trouxeram consigo a força da agricultura, ela lembra do impacto da primeira vez em que viu uma lavoura no Mato Grosso, ainda adolescente.
   “É uma cultura apaixonante, desde acompanhar a germinação das primeiras sementes e ver suas flores abertas e nos maravilhar com aqueles campos brancos. Acompanhar os fardos serem embarcados para alto mar. Até ver uma simples calça jeans ser vendida em uma loja. É uma sensação de realização que não consigo medir”, conta.
   Mais do que economia, o algodão representa para Patricia um caminho de transformação social e de abertura de espaços para as mulheres. Criada em um ambiente familiar no qual as avós, de personalidade forte, e a mãe, acolhedora, sempre estimularam a confiança e a autonomia, ela acredita que o maior desafio ainda é normalizar a presença feminina na agricultura.
   “Nós não precisamos ser as melhores, não precisamos ser excepcionais ou provar nada para ninguém”.

O contexto da cotonicultura baiana

Fazenda Warpol (Foto/Reprodução: Taciere Santana)

   No meio dos campos de algodão que se estendem pelo Oeste da Bahia, não são apenas máquinas modernas que chamam a atenção. Cada vez mais, rostos femininos ocupam espaços que, até pouco tempo, eram vistos como exclusivamente masculinos. Produtoras, pesquisadoras, trabalhadoras rurais e gestoras vêm transformando a cotonicultura baiana em um espaço de diversidade e inovação.

   A Bahia é o segundo maior produtor do Brasil, com previsão de colher 1,7 milhão de toneladas na safra 2024/25. Boa parte dessa força vem da articulação da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), que reúne produtores, promove pesquisas, capacita trabalhadores e incentiva práticas sustentáveis. O Censo Agropecuário do IBGE, publicado em 2017, apontou que 947 mil mulheres estão à frente da gestão de propriedades rurais no país, com a maior concentração (57%) localizada na região Nordeste.

Virada feminina no algodão

   Com o compromisso de promover à capacitação e o protagonismo feminino no campo, as ações da Associação dos Produtores de Algodão se estendem para além da comercialização. Silmara Ferraresi, Diretora de Relações Institucionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), explica que os programas da associação vão além das iniciativas macro, como o projeto “Sou de Algodão”, e se traduzem em ações locais que impactam diretamente as mulheres. “A ABAPA oferece treinamento de mulheres, inclusive para operar colheitadeiras, que funcionam como verdadeiras aeronaves agrícolas”, destaca.

   A presença feminina, que antes se restringia apenas em cargos de apoio, hoje diversifica áreas técnicas e de liderança. A mudança é palpável: ao longo dos 25 anos de história a ABAPA já teve duas mulheres à frente da presidência. A primeira, Isabel da Cunha, foi pioneira, e ao assumir dois biênios no comando da associação, abriu caminho para percorrer o oeste; a segunda e atual dirigente, Alessandra Zanotto, carrega a inovação e o compromisso de inspirar tantas outras.

   “A sociedade ainda é majoritariamente masculina, mas o setor precisa de mais conexão entre pessoas. E isso é algo que vejo como uma força muito presente nas mulheres, essa capacidade de gerar, de cuidar, de se conectar. O algodão precisa disso”, ressalta a atual presidente, Alessandra Zanotto.

   Esse equilíbrio vem ganhando espaço também em programas voltados ao protagonismo feminino no campo. Gustavo Prado, Diretor Executivo da ABAPA, destaca: “a ABAPA, propriamente, trabalha muito na governança. Sempre busca manter um equilíbrio entre participantes feminino e masculino. A nossa diretoria, hoje, ela estava com 50%, 50%. Não sei se mudou, mas se mudou é muito pouco. Temos muitas mulheres na nossa diretoria.”, destaca.

   Mas não é apenas de números que vive a cotonicultura. Há uma narrativa de resistência e de gênero que se escreve em paralelo. Em salas de beneficiamento, como a operadora Stephane Oliveira descreve, são mulheres que calibram máquinas, analisam fibras e asseguram a qualidade de cada fardo exportado para China, Vietnã ou Bangladesh. “Antigamente não tinha muitas mulheres, mas hoje em dia tem bastante. Eles estão valorizando mais as mulheres, e isso é importante”, relata.

Mulheres trabalhando em Laboratório (Foto/Reprodução: Taciere Santana)

Desafios da segurança das mulheres no campo

   Outro desafio que atinge as mulheres que trabalham diretamente nas lavouras, em qualquer cultura agrícola, é a garantia da segurança nos espaços de trabalho. Em uma área com grande presença masculina, tanto nos cargos de gestão e subalternizados, muitas mulheres enfrentam riscos como assédio,  violência e ausência de estruturas adequadas para atender às suas necessidades, além da descriminação que ainda é uma realidade para as mulheres no mundo do trabalho.

   Essa vulnerabilidade se amplia quando as trabalhadoras precisam permanecer em alojamentos oferecidos pelas empresas, muitas vezes sem condições adequadas de privacidade ou mecanismos eficazes de proteção.

   A produção de algodão na Bahia, setor com longas jornadas de trabalho e esforço físico intenso, requer geralmente a estadia dos trabalhadores, homens e mulheres, instalados em alojamentos nas áreas de cultivo. Essa realidade, embora necessária para a dinâmica produtiva, impõe grandes desafios para todos os envolvidos. De um lado, os produtores enfrentam a responsabilidade de garantir condições dignas de moradia e convivência; de outro, funcionárias e funcionários lidam com a falta de privacidade, infraestrutura precária e riscos que vão desde problemas de saúde até situações de violência.

   Na fazenda Warpol, do grupo Busato, Isabela Busato, chefe do setor administrativo, reflete sobre a presença feminina no ramo, de acordo com ela, a empresa tem trabalhado para aumentar o número de mulheres em cargos de liderança. No entanto, quando se trata dos trabalhos ligados diretamente à lavoura, e manutenção, a mesma observa dificuldades, “nas fazendas, a gente já tem um entrave um pouco maior, sendo a parte de alojamento.  Esse talvez seja o grande motivo da gente não ter mais mulheres nas fazendas, porque eu sou responsável por elas. Pela segurança delas, em todos os sentidos”, aponta Isabela Busato.

   Como modo de solucionar esse entrave é preciso investimento em medidas que priorizem a integridade da trabalhadora. Segundo o  Supervisor de Saúde e Segurança, da Fazenda Warpol, Lazaro Felipe Vieira, é essencial compreender que essa mudança exige um movimento conjunto entre produtores, sindicatos e órgãos fiscalizadores. Além disso, é preciso pensar na construção de canais de escuta sensíveis, acompanhamento especializado e campanhas de conscientização. Tornar o espaço de trabalho seguro para as mulheres não é apenas uma tarefa de reparação, mas algo que amplia oportunidades futuras para o setor agrícola,  que estejam condizentes com as demandas sociais de trabalhadores e trabalhadoras. 

   O algodão no Oeste Baiano é muito mais do que uma cultura agrícola, é também um motor de transformação econômica e ambiental. Ele conecta gerações, abre oportunidades e revela talentos antes não vistos, especialmente de mulheres que conquistam espaço em um setor historicamente masculino. Entre máquinas, plumas brancas e centros de treinamento, surgem histórias de superação, inovação e liderança.

   Ao mesmo tempo, em que fortalece a economia local e internacional, a cotonicultura baiana caminha lado a lado com a sustentabilidade e a responsabilidade, provando que produtividade e cuidado com o meio ambiente podem coexistir. E, mais do que tudo, o setor mostra que o futuro da agricultura não se escreve apenas com números ou hectares cultivados, mas com pessoas capazes de transformar cada fibra em oportunidade, cada semente em história e cada campo em espaço de crescimento e inclusão.

Alunas do curso de jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Juliana Almeida*

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra