Em contextos de desigualdade e exclusão, mulheres se organizam coletivamente para defender seus corpos, territórios e projetos de vida, promovendo transformação social a partir da base.

Por Taciere Santana*

  A autonomia das mulheres frente à desigualdade de gênero, econômica, social e política segue sendo um desafio para a consolidação da democracia. Na perspectiva das oportunidades e direitos, mulheres seguem sendo descredibilizadas com a prerrogativa de estereótipos, baixa remuneração em relação aos homens, além da baixa representação política. Entretanto, esse mesmo grupo constitui mais da metade da população brasileira, cerca de 51,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). 

  Insatisfação e rebeldia diante desse cenário forjam a trajetória do movimento feminista no Brasil, marcada por lutas históricas, articulações coletivas e desafios persistentes. Desde o século XIX, quando questionavam os papéis de gênero, até as marchas contemporâneas, como a “Marcha das Margaridas” ou os protestos contra a violência de gênero, a força da coletividade feminina se consolidou como eixo fundamental na transformação social.

  Em diversos espaços, sejam eles físicos ou virtuais, onde o abandono estatal e as desigualdades de gênero se fazem presentes, são as mulheres que se organizam em rede para construir soluções coletivas, fortalecer identidades, preservar conhecimentos ancestrais e gerar autonomia. Desse modo, constituem uma rede comunicativa, com ênfase no afeto e sororidade dos direitos e partilha de experiências. Longe dos grandes centros e das estruturas formais de poder, essas articulações femininas promovem mais do que sobrevivência: repartem saberes e criam espaços de autogestão capazes de transformar realidades.

  Seja por meio de cooperativas, grupos de apoio, coletivos culturais ou redes de cuidado, as mulheres seguem reivindicando espaços de protagonismo diante da urgência por mudanças sociais profundas, mostrando que o empoderamento é, sobretudo, um ato coletivo. A diversidade organizativa desse grupo expõem que a formação de rede de apoio é essencial para a qualidade de vida e saúde psicossocial, de acordo com Iramaia Petrolina, assistente social especialista em políticas públicas de gênero e raça, “a rede de apoio é de fundamental importância para que as mulheres ampliem o grau de escolaridade principalmente após uma gravidez na adolescência, e também que acessem cursos de aperfeiçoamento, ingresse no mundo de trabalho, emprego e geração de renda, permitindo a autonomia econômica e financeira”.

Desafios das mulheres na luta por educação

  O cenário visto nestas duas décadas do século XXI demonstra que a luta feminista continua longe de ser concluída. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 64% dos, 774 milhões de adultos analfabetos no mundo são mulheres. Partindo do pressuposto de que a educação liberta, conscientiza e gera transformação social, como defende o educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, o acesso à mesma se caracteriza como imprescindível para a quebra de estigmas e valorização das vivências femininas.

  No Brasil, somente no ano de 1827 foi aprovada a primeira lei autorizando mulheres a frequentarem escolas elementares. Ainda assim, as meninas podiam cursar apenas as disciplinas consideradas “próprias para o sexo”, sendo impedidas de acessar o ensino das ciências, geometria e línguas estrangeiras, revelando uma exclusão de gênero institucionalizada. Atualmente, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), divulgados em 2025, as mulheres são maioria nas instituições de ensino superior, representando cerca de 59% dos estudantes. Esse avanço reflete décadas de lutas feministas por acesso ao conhecimento e à autonomia intelectual.

  Consequente a isso, ações de ensino voltado ao trabalho pró-equidade são essenciais enquanto facilitadoras da autonomia feminina. Nessa linha de abordagem, o Instituto Federal da Bahia (IFBA) realiza o Programa Mulheres Mil, uma ação de qualificação profissional voltada para mulheres de baixa renda, com os cursos de Cuidador de Idosos e Microempreendedor Individual. No campus do instituto em Seabra, a oferta do curso de microempreendedorismo proporcionou a mais de 70 mulheres, da sede da cidade e da comunidade quilombola do Agreste, o acesso aos princípios de cooperativismo e economia solidária, de modo a proporcionar artifícios básicos para a geração de renda a partir de um modelo sustentável e coletivo. De acordo com Camila Barbosa, supervisora das turmas, “o curso vem com a ideia de fortalecer a coletividade, o cooperativismo, de modo a permitir que as mulheres continuem e aperfeiçoem seus negócios, e até começar novos”.

Formatura do curso Mulheres Mil. Foto: comunicação do IFBA

  A estudante Márcia Jorge, mulher negra e mãe de uma adolescente, reflete sobre a importância do curso como um espaço de transformação e troca de forças entre as mulheres, segundo ela, “a trajetória foi surpreendente, porque aqui a gente vê a realidade de muita gente, e poder acompanhar a superação das colegas foi muito especial”. A apreensão de Márcia é de diversas outras mulheres sobre a importância da educação continuada demarca o potencial desses incentivos em sua relevância social. Pensar na construção de redes autônomas femininas está estritamente associada à promoção do empoderamento, de modo a constituir espaço em que mulheres e meninas se autoafirmem enquanto protagonistas de suas histórias.

Guardiãs da terra: mulheres na frente, defesa dos territórios

  Seja em espaços de disputa intelectual ou em territórios físicos, a coletividade feminina tem sido um dos pilares para a transformação social, especialmente em contextos de vulnerabilidade ou luta por direitos. 

Encontro Mulheres em Movimento, realizado no mês de março em Piatã. Foto: Lucas Assunção

  Movimentos feministas e populares vêm adotando cada vez mais a noção de “corpo-território-terra” como um eixo político, que revela o quanto a violência contra o corpo das mulheres está diretamente conectada à exploração dos territórios em que vivem. Essa perspectiva amplia o entendimento social de que a vivência feminina é extensão do território físico, sendo elas as guardiãs de memórias, ancestralidade e agentes de resistência.

  Personalidades como Marina Silva, ex-seringueira e atual Ministra do Meio Ambiente, e Sônia Guajajara, liderança indígena e primeira mulher indígena a chefiar um ministério, são evidências de uma articulação partilhada, construída a muitas mãos por mulheres que resistem nos campos, nas florestas, nas periferias urbanas e nas universidades. Tais atuações, muitas vezes invisibilizadas pela grande mídia, são fundamentais para compreensão da completude de gênero, meio ambiente e justiça social.

  O Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) vem há cerca de 13 anos trabalhando de forma nacionalizada na organização de comunidades impactadas e em conflitos pelo atual modelo de mineração. O movimento aponta que as mulheres são as primeiras questionadoras dos empreendimentos, devido à observação de mudanças sutis dentro da rotina diária.

  Em suas ações, o coletivo de mulheres do movimento se articula para a promoção da confiança das mulheres frente à tomada de decisões, por meio de trabalhos de base, com metodologias intercambistas e rodas de conversa. A militante e integrante do coletivo de mulheres do MAM, Simone Jesus, aponta para a importância dos encontros entre mulheres de diversos territórios como uma oportunidade de prestar apoio e fortalecer a luta em uma perspectiva coletiva. “Nós entendemos que a auto-organização das mulheres é uma ferramenta de resistência central, porque são sujeitas diretamente afetadas”, afirma Simone.

  A coletividade feminina, portanto, não é apenas um recurso de sobrevivência. É um projeto político de reafirmação de identidade e reexistência: um jeito de estar no mundo que enfrenta conflitos por extrativismo, racismo ambiental, machismo institucional e a colonialidade do poder com articulação e coragem.

*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra