O projeto oferece, das 14h às 17h, oficinas de capoeira, teatro, artes, esporte, leitura e música.
Por Marta Matos*
Segundo a pesquisa “O Que Dizem Crianças e Adolescentes em Situação de Rua”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2016, crianças que vivem em situação de rua e estão fora da escola apresentam um risco 16 vezes maior de sofrerem exploração sexual em comparação com aquelas que permanecem vinculadas ao ambiente escolar. E, em Seabra, segundo a Irmã Silvana Martins de Oliveira, após o término do primeiro período escolar, sem escola em tempo integral, as freiras da cidade notaram alguns casos de exploração sexual entre meninas.
A partir daí, surge a Associação Reparadora Vida e Esperança (ARVE), criada em 2003 pelas Irmãs Reparadoras do Santíssimo Sagrado Coração de Jesus, conhecidas como Irmãs da Reparação, na Paróquia de São Sebastião, em Seabra. As religiosas convidaram as meninas a participar de atividades como bordado e tricô, além de auxiliá-las com as tarefas escolares. Iniciando assim, as oficinas, que posteriormente foram abertas a mais crianças.
Educação, afeto e ações concretas
O trabalho é desenvolvido todas as tardes, de segunda a sexta, atuando no cuidado com 70 crianças, de 7 a 12 anos. A partir dos treze anos, algumas delas são selecionadas para ajudar os oficineiros, chamados monitores.
O projeto oferece, das 14h às 17h, oficinas de capoeira, teatro, artes, esporte, leitura e música. Além de acompanhamento psicológico para ajudar as crianças a expressar e lidar com as emoções. Mas o objetivo principal das oficinas é a convivência, saber conviver um com o outro e respeitar as diferenças.
Claudi Mendes de Oliveira, de 43 anos, é um dos oficineiros, do qual faz parte há quase 25 anos. Em sua trajetória, ele participou de todas as edições do projeto e destaca a importância do trabalho realizado. “Para mim, é uma satisfação muito grande trabalhar ali, porque também me fez crescer como profissional”, relata. Ele já aplicou diversas oficinas, incluindo música, artesanato e leitura, mas sua especialidade é a música.
O trabalho das freiras tem sido uma força constante na cidade. “Elas têm a associação e têm uma quantidade boa de crianças e adolescentes que elas educam, ensinam e que se tornam pessoas melhores na sociedade”, afirma o frei da Paróquia, Jardel Teles.
A comunicação do projeto parte do princípio de que a voz do povo precisa ser ouvida, não apenas representada. Essa é a convicção da Irmã Silvana Martins de Oliveira, supervisora geral da ARVE. Segundo ela, a missão da associação se inspira no lema: na caridade, há redenção. “É através do amor que a gente repara, como Jesus reparou as feridas da humanidade. Nós, que seguimos esse caminho, buscamos também ser reparadores”, explica.
A associação busca oferecer também movimentos de apoio aos familiares, com ações e parcerias. Como, por exemplo, a distribuição de cestas básicas. Essa distribuição foi feita em
2024, por meio de uma parceria com o programa de Aquisição de Alimentos (PAA), da Secretaria de Assistência Social e da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).
Os familiares sentem a ação positiva do projeto. Uma mãe, por exemplo, contou que passou a enxergar novas possibilidades após frequentar o espaço,“depois que comecei a frequentar, eu aprendi tanta coisa”, disse. Em outra situação, a mesma mulher fez um pedido comovente: “Olha, a senhora me ajuda? Eu não quero mais me prostituir para dar comida para os meus filhos, então a senhora me ajuda?”. Relatos como esse, segundo a irmã Silvana, são marcas que ficam para sempre.
Sustentabilidade e transformação comunitária
Uma das principais fontes de renda do projeto vem, curiosamente, do Fórum da cidade. Isso porque parte do dinheiro arrecadado com multas judiciais deve, por lei, ser destinado a iniciativas sociais. Com o apoio voluntário de advogados e servidores públicos, os responsáveis pelo projeto elaboram propostas e conseguem acessar essa verba para manter as atividades. Além disso, o projeto conta com doações espontâneas de colaboradores da comunidade, que contribuem com dinheiro, alimentos e outros recursos essenciais.
Já nas oficinas oferecidas, a equipe é formada por dois grupos: voluntários que se dedicam por amor à causa e profissionais cedidos pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e pela prefeitura municipal.
Para cumprir esse propósito, a ARVE aposta em uma comunicação simples e afetiva, baseada na escuta ativa e na presença constante. São utilizadas ferramentas acessíveis, como conversas informais, festas comunitárias, murais informativos e até grupos de WhatsApp, que ajudam a integrar pais, voluntários, oficineiros e as próprias crianças.
As festas desenvolvidas na associação são uma alternativa que as freiras encontraram também para integrar família e criança, criando vínculos e fortalecendo os já existentes. O projeto mostra que a educação integral e comunitária pode ser uma boa resposta ao contexto de vulnerabilidade.
“Veja que, antigamente, quem educava os filhos dos burgueses eram os religiosos, e as Irmãs da associação vão contra este caminho. Elas vão para os pobres, para aqueles a quem Cristo apontou. […] Elas ajudam muitas pessoas, aquelas que são mais necessitadas. Não só na educação, mas na alimentação”, completa Teles. Essa iniciativa não só oferece oportunidades de crescimento pessoal para as crianças e adolescentes, mas fortalece os laços comunitários e a luta pela dignidade.
*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.