Com mais de quatro décadas de atuação, o STR é referência em agroecologia, inclusão feminina e permanência da juventude no campo.
Por Ana Novaes*
Em uma cidade rodeada por montanhas e marcada por tradições, o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Seabra (STR), fundado há mais de quatro décadas, se consolida como uma das principais vozes na defesa dos direitos e da dignidade da população rural da comunidade. A instituição ultrapassa barreiras da burocracia e aposta, hoje, na comunicação popular como ferramenta de resistência e mobilização.
A comunicação, vem sendo uma ferramenta estratégica para manter o sindicato próximo da sua base e dar visibilidade às lutas do campo. Por meio de redes sociais, vídeos e campanhas informativas, o STR amplia o acesso à informação, combate a desinformação e mobiliza novos públicos, especialmente os jovens.
Garantir que cada agricultor e agricultora tenha acesso a seus direitos passa também pelo acesso à informação de forma simples, “se o agricultor não tiver informação, ele não consegue acessar seus direitos. Por isso, a gente vem tentando fortalecer os canais de comunicação, levando orientação de forma clara, para que cada trabalhador saiba o que precisa fazer.” afirma Valter José Angelo, conhecido como Tim do Sindicato, uma das lideranças do STR.
“O sindicato é onde o trabalhador é escutado. Não é só para resolver papelada, é um espaço de acolhimento, formação e resistência.”. De acordo com levantamento interno, com sede no centro da cidade de Seabra (BA), o sindicato conta hoje com cerca de 2 mil sócios ativos e outros 4 mil semiativos. No passado, esse número foi bem maior. As mudanças nas políticas públicas, o envelhecimento da população rural e a falta de informação atualizada têm sido desafios constantes.
Além das dificuldades produtivas, as condições de moradia e acesso à água potável também são temas recorrentes nas pautas do sindicato. Tim defende a implementação de políticas como o programa Minha Casa, Minha Vida Rural e a ampliação dos programas de cisternas e barreiros de produção.
“Muita gente no campo mora em casas com telhados ruins, paredes frágeis e sem segurança nenhuma. Um programa habitacional voltado para o meio rural seria de extrema importância. Além disso, precisamos de água para produção e consumo. Projetos de cisterna e barreiros de produção são fundamentais”, afirma Tim.
Um dos pilares históricos do STR de Seabra é a assistência à aposentadoria por idade para trabalhadores rurais. O acesso ao benefício exige comprovação de atividade agrícola por, no mínimo, 15 anos, o que não é simples em uma região onde o trabalho é, muitas vezes, informal, e as políticas públicas têm dificuldade de alcançar as comunidades.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2022, mais de 68% da população economicamente ativa no campo atua na informalidade. Isso significa que milhões de brasileiros e brasileiras dependem de instituições como os sindicatos rurais para organizar seus documentos, receber orientação jurídica e evitar fraudes.
O sindicato também distribui sementes, organiza torneios de futebol e capoeira, apoia a agroecologia e atua em parceria com escolas, universidades, prefeitura e associações locais. Apoio, orientação e mobilização de milhares de agricultores familiares, jovens do campo e mulheres rurais.
Aposentadoria e acesso à previdência rural: a porta de entrada
Um dos serviços mais procurados é o suporte à aposentadoria rural por idade. A legislação exige comprovações das atividades agrícolas, algo que muitas vezes se torna difícil para os trabalhadores rurais sem o devido apoio. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 2023 foram cedidos cerca de 439 mil benefícios de aposentadoria rural por idade no país, um aumento de aproximadamente 9% em relação ao ano anterior. Esse crescimento reforça a importância de orientações e suporte para garantir que os trabalhadores do campo possam acessar seus direitos previdenciários.
Na zona rural, a desinformação sobre os direitos previdenciários ainda é uma barreira. Segundo dados do IBGE (2022), apenas 31% dos trabalhadores do campo com mais de 60 anos têm acesso à aposentadoria ou benefício formal. O sindicato atua para mudar esse cenário, especialmente entre mulheres e idosos.
Mulheres do campo: mais do que força de trabalho
Segundo o Censo Agropecuário de 2017, cerca de 76% dos estabelecimentos rurais no Brasil são familiares, e a Bahia é um dos estados com maior número de mulheres à frente de propriedades rurais. Essa realidade se reflete na base do STR de Seabra, onde o protagonismo feminino é cada vez mais visível.
Entre as muitas histórias de resistência feminina no campo, destacamos a trajetória de uma agricultora que nos últimos anos vivendo na cidade, reencontrou suas raízes na agricultura familiar e nas feiras da região.
“Sou da zona rural, de uma comunidade que o pessoal chama de Deserto. Passei 16 anos morando em Seabra e, nesse tempo, acabei me afastando da vida rural, perdi um pouco dessa identidade. Mas tudo começou a mudar quando comecei a trabalhar na feira livre de Seabra. Minha mãe já era feirante, e isso me trouxe de volta esse contato com a agricultura”, conta Sandreia Santana.
A atuação de Sandreia na feira agroecológica marcou um ponto de virada em sua trajetória. Embora hoje ela não esteja diretamente na produção agrícola, atua na valorização da produção local, principalmente dos produtos cultivados de forma agroecológica: “Hoje meu papel é mais de apoio e valorização da produção dos agricultores, principalmente os que trabalham com a agroecologia”, afirma Santana.
As mulheres têm assumido um papel cada vez mais central dentro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Seabra. Além de buscarem direitos previdenciários, elas vêm ocupando espaços de liderança, organização de feiras e participação em formações políticas e agroecológicas. A luta por reconhecimento vai além da produção: passa também pela defesa do direito à terra, à moradia digna e à autonomia econômica.
Por meio de campanhas e encontros voltados especialmente para elas, o STR tem fortalecido a presença feminina nas decisões internas e nas pautas institucionais. Muitas agricultoras que antes apenas acompanhavam seus maridos nas atividades do sindicato hoje se tornaram protagonistas de suas próprias lutas, servindo de referência para outras mulheres nas comunidades rurais da Chapada Diamantina.
Além da aposentadoria, as mulheres também têm ganhado espaço nas decisões e formações.
Juventude rural: permanência com dignidade e propósito
Se o passado foi marcado pela luta por aposentadoria, o futuro do STR passa pela juventude. Um dos exemplos é Marcelo Anjos, de 22 anos, jovem agricultor da comunidade de Zabelê, no município de Iraquara.
Marcelo é filho de agricultores e, além de trabalhar com mandioca, milho e feijão, está concluindo a Licenciatura em Educação do Campo pela UFRB. “Minha vida é dividida entre o estudo e o trabalho na roça. Mesmo com a pedagogia da alternância, às vezes perco a época da chuva ou a colheita devido à universidade. Mas sei que estou lutando por um futuro melhor”.
Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Marcelo reconhece o papel fundamental das organizações sociais, como o STR. “Só depois que entrei na universidade é que entendi a importância do sindicato e das associações. O sindicato de Iraquara, por exemplo, ajudou muitos jovens, inclusive eu, no processo de inscrição para o vestibular e com cursos preparatórios”.
Ele também faz uma análise crítica sobre o desinteresse de muitos jovens pela participação política e social: “Vejo espaço para os jovens, mas muitos não se sentem pertencentes. Essa visão individualista que o capitalismo traz acaba dificultando a organização das comunidades”.
Destacando ainda a falta de políticas públicas voltadas à juventude rural: “Faltam assistência técnica, agroindústria para beneficiar nossa produção e apoio para o escoamento dos produtos. O sindicato faz o que pode, mas precisamos de mais políticas do Estado”.
O Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Seabra consolidou-se como uma instituição essencial para a defesa dos direitos e da dignidade no campo. A atuação da entidade vai além da assistência previdenciária: passa pela formação política, pelo incentivo à agroecologia, pela inclusão de mulheres e jovens, e pelo fortalecimento da agricultura familiar na Chapada Diamantina.
Em um cenário de mudanças climáticas, crises econômicas e enfraquecimento de políticas públicas, o STR segue sendo um porto seguro para milhares de trabalhadores e trabalhadoras rurais.
O futuro da organização depende de capacidade de dialogar com as novas gerações, inovar nas formas de mobilização e continuar fazendo da comunicação uma ponte entre o campo e os direitos sociais.
Educação e parcerias
A articulação com escolas do campo e instituições como o IFBA e a UNEB é parte estratégica da atuação do sindicato. Essas parcerias contribuem para a formação política, técnica e cultural de novos agricultores e agricultoras.
Iniciativas como essas combatem a evasão rural, promovem a sucessão familiar e garantem que os jovens vejam sentido e futuro na agricultura.
Mais do que uma estrutura administrativa, o STR de Seabra é um ponto de apoio afetivo, cultural e político para milhares de trabalhadores. A sua atuação extrapola a resolução de pendências burocráticas e se firma como instrumento de mobilização, resistência e afirmação de direitos.
*Aluna do curso de Jornalismo da UNEB Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.