Formação pioneira no interior da Bahia, o curso de Jornalismo da UNEB em Seabra une teoria, prática e compromisso social com a democratização do ensino e a comunicação transformadora, consolidando-se como referência regional na valorização das vozes da Chapada Diamantina e na formação de profissionais comprometidos com as causas sociais e ambientais.

Por Anna Paula Oliveira*

   Nascido da luta pela democratização do ensino superior e pelo direito à comunicação, o curso de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), no campus de Seabra, vem se consolidando como um espaço de formação crítica, prática e profundamente vinculada às demandas sociais e ambientais da Chapada Diamantina.

  Para a diretora do DCHT-Campus XXIII-Seabra, Maria de Fátima Sudré de Andrade Bastos. “A comunicação é uma atividade humana essencial nas relações sociais e a cada dia seus aportes culturais são aperfeiçoados, tornando-se uma prática fundamental para a convivência no contexto da sociedade contemporânea.”

   Bastos ressalta que a formação em comunicação ganha ainda mais significado no território da Chapada. “Um território que pulsa uma cultura marcada pela tradição dos povos originários, quilombolas e uma beleza natural que encanta e imprime na memória de quem a conhece uma experiência particular com a natureza.”

  A diretora explica que essa riqueza cultural e ambiental impõe novos desafios à prática comunicacional, especialmente diante das transformações sociais e tecnológicas que atravessam o interior baiano. Por isso, afirma que “a importância do curso de comunicação se constitui pelo seu propósito e objetivos que estabelece com as pautas das minorias sociais, das questões ambientais, políticas e econômicas para promover, a partir da comunicação, uma sociedade onde as pessoas possam viver melhor.”

Raízes do projeto

A professora Gislene Moreira com a primeira turma de Jornalismo em 2014. Foto: acervo pessoal de Gislene

   A ideia do curso começou a ser desenhada em 2012, a partir de uma cooperação interdepartamental da UNEB, unindo o interesse do campus de Seabra, até então voltado às Letras, ao desejo de criar uma formação que dialogasse com as especificidades da região.

   Segundo a professora e comunicadora popular, Gislene Moreira, “o curso de jornalismo não nasce para formar mão de obra para os grandes veículos. Ele nasce para transformar a comunicação em toda a Bahia, com foco na democratização do ensino e na profissionalização da comunicação em regiões vulneráveis”.

Um jornalismo com identidade regional

   O curso de Seabra foi concebido com uma vocação clara: atender às necessidades territoriais da Chapada. A coordenadora do curso de jornalismo e professora Juliana Almeida explica que “o curso tem como vocação o jornalismo comunitário, regional e social. Estamos distantes dos grandes centros, mas existe aqui uma necessidade enorme de comunicadores qualificados. É uma região marcada por conflitos ambientais, comunidades tradicionais e quilombolas. Então, o jornalista formado em Seabra precisa estar preparado para atuar não apenas em grandes redações, mas também em associações, movimentos sociais, feiras agroecológicas e até mesmo no audiovisual, dada a riqueza da Chapada”.

Alunos do Curso de Jornalismo da UNEB Foto: Arquivo pessoal de Professor Raphael Carvalho

Laboratórios e extensão: a universidade que sai dos muros

  A prática jornalística ganhou um espaço inovador com a criação da Sertão LAB, a agência experimental do curso. A professora Dayanne Pereira, coordenadora do projeto, explica. “A agência experimental de Jornalismo Sertão LAB surgiu da necessidade de divulgar as ações de ensino, pesquisa e extensão do campus, mas também de oferecer um espaço dinâmico de experimentação, produção e inovação. A ideia é que a comunidade, além de ser pautada, também construa textos em colaboração com os estudantes, propagando suas reivindicações sociais, culturais e territoriais”. 

A professora e coordenadora da Sertão Lab, Dayanne Pereira com os alunos que atuam na agência Foto: Arquivo pessoal de Marta Matos
A professora e coordenadora da Sertão Lab, Dayanne Pereira com os alunos que atuam na agência Foto: Bores Júnior

   Os projetos de extensão consolidam ainda mais esse vínculo com a comunidade. A coordenadora Juliana Almeida destaca três ações recentes: o plano de comunicação para a comunidade de Brejo de João Alves, o apoio à Feira Agroecológica da Chapada Diamantina e o podcast Vozes Diamantinas, que além de circular na região, é veiculado na Rádio da Universidade Federal de Sergipe, ampliando a voz da Chapada para outros públicos.

A coordenadora do curso de Jornalismo e professora, Juliana Almeida e o aluno Bores Júnior com as concluintes do Projeto Marketing e Gestão nas comunidades. Foto: Arquivo pessoal de Eloísa Carmo
Feira Agroecológica. Foto: Gabriel Dourado
Feira Agroecológica. Foto: Assessoria

  Nesse mesmo espírito, o professor Edvan Lessa, pesquisador do projeto “Narrativas sobre os seres mais-que-humanos da Chapada Diamantina”, ressalta a importância de ampliar o olhar jornalístico para além da dimensão humana. “O projeto propõe a produção de reportagens e um debate que aproximam estudantes, pesquisadores e comunidades tradicionais da Chapada Diamantina para refletir sobre os direitos da natureza. Ao aproximar o jornalismo dos direitos mais-que-humanos, buscamos aprender com animais, plantas, rios e montanhas, reconhecendo-os como parte ativa do nosso futuro comum. Esse diálogo entre ciência, comunidades tradicionais e estudantes é essencial para repensarmos nossa convivência com o mundo vivo e ampliarmos a noção de justiça e cuidado para além da humanidade”.

Professor Edvan Lessa com os alunos do curso de Jornalismo. Foto: Lucas Assunção
Professora Gislene Moreira e professora Rafael Carvalho com alunos. Foto: acervo do curso de Jornalismo

Vozes que constroem o curso

   Para os estudantes, o curso representa oportunidades e transformação. A aluna Júnia Silva, que deixou Belo Horizonte para estudar em Seabra, afirma que “os professores são excelentes, as disciplinas atualizadas, e a convivência entre colegas é de muito apoio. Mesmo depois de uma década sem estudar, encontro ajuda e estímulo. Quero me lançar no mercado de trabalho com coragem e preparo, porque sei que a profissão de jornalista exige credibilidade, técnica e responsabilidade social”.

  Egressa da UNEB Seabra, Érica Araújo, do povoado Fazenda, Novo Horizonte, hoje colaboradora do OCA e do Coletivo ELA, traz um olhar sobre a trajetória pessoal e coletiva que o curso possibilitou. “Como egressa do Curso de Comunicação da Uneb, posso dizer que foi uma experiência transformadora e enriquecedora para mim. Durante a graduação, tive a oportunidade de compreender melhor o mundo e a minha própria identidade, além de ter sido a oportunidade de ampliar meus contatos e desenvolver melhor minha visão crítica acerca de diferentes aspectos da sociedade.

  Já Bores Júnior, também estudante, completa. “O curso de Jornalismo vêm crescendo, e acredito que nós estudantes estamos fazendo isso acontecer. Mesmo com as dificuldades, as recompensas estão sendo alcançadas, pode demorar um pouco, mas pensar em Educação é pensar nos próximos que virão”.

Resultados e desafios

   Apesar de limitações estruturais, ainda comuns aos cursos do interior, o Jornalismo da UNEB Seabra vem acumulando conquistas. Produções de alunos já receberam prêmios, laboratórios de rádio e TV foram estruturados, e iniciativas como a TV UNEB Seabra e a Escola Livre de Audiovisual (ELA) ampliaram a atuação do curso durante a pandemia.

   “O curso ainda está em construção, cheio de desafios, mas tem nutrido transformações significativas, tanto nos estudantes quanto na relação com a sociedade”, resume a professora Gislene Moreira.

   Premiações também fazem parte da rotina dos estudantes do curso o que revela a qualidade e empenho na formação dos futuros profissionais. As estudantes Eloísa do Carmo e Anna Paula Oliveira, do curso de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus Seabra, foram vencedoras da etapa Bahia do 12º Prêmio Sebrae de Jornalismo, realizada em Salvador, durante o 2º Encontro Baiano de Comunicadores no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador.

É a segunda vez que o curso de Jornalismo da Uneb Seabra leva a premiação, em 2024 as estudantes Ana Novaes e Taciere Santana foram premiadas, também sob orientação da professora Juliana Almeida.

  Elas concorreram com a série em podcast “O licuri é delas”, composta por dois episódios que retratam a vida e a resistência das quebradeiras de coco licuri da comunidade Brejo João Alves, na Chapada Diamantina. O trabalho contou com orientação da professora e coordenadora do curso, Juliana Almeida, e edição do estudante Bores Júnior.

A professora e orientadora Juliana Almeida (ao centro), acompanhada dos estudantes Bores Júnior e Eloísa Carmo exibindo os certificados e troféu do Prêmio Sebrae.

O futuro: multiplataforma e comunitário

   A grade curricular passa por reformulação, incorporando a curricularização da extensão e reforçando práticas integradas de redação, rádio, TV e mídias digitais. Para a professora Juliana Almeida, isso significa preparar profissionais para a realidade contemporânea. “O futuro do jornalismo já é multiplataforma, e é essa formação que buscamos oferecer: crítica, prática, ética e com os pés fincados na Chapada Diamantina”.   

  Em setembro de 2025 foi realizada a I Semana Regional de Comunicação (Serecom) da UNEB Seabra repleto de atividades que celebraram a troca de aprendizado, beleza natural da Chapada Diamantina e arte, além do fortalecimento do Colegiado do curso de Jornalismo de Seabra que, em parceria com o Núcleo de Pesquisa e Extensão (NUPE), foi responsável por este evento.

I Semana Regional de Comunicação (Serecom) da UNEB Seabra. Foto Dayanne Pereira

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra