Curso de Pedagogia prepara profissionais para atuar com inovação, inclusão e compromisso social em um cenário educacional em constante transformação.

Matéria por Amanda Cruz*
Entrevistas por Eloisa Carmo*

Formatura 2024.1. Foto: acervo do curso.

  A Pedagogia vai além da transmissão do conhecimento. O curso forma profissionais que compreendem a educação como um campo de transformação, capazes de unir teoria, sensibilidade e compromisso social em um tempo em que ensinar também é reinventar o mundo.

  O período da pandemia e o cenário educacional que se desenhou depois dela marcaram um divisor de águas para a Pedagogia. A suspensão das aulas presenciais forçou escolas, professores e alunos a repensarem completamente a forma de ensinar e aprender.

  Para a coordenadora do curso de Pedagogia, Aline Nery, esse processo expôs tanto os desafios quanto a força da profissão docente. “A questão da pandemia, do pós-pandemia, traz altos e baixos. Primeiro, um ponto forte que eu acho é que a Pedagogia ganhou uma maior valorização, porque mostrou a participação desse professor junto da comunidade escolar. Revelou a necessidade de novas metodologias, com esse ensino remoto, depois o ensino híbrido, e mostrou também essa capacidade do professor trabalhar com coisas adversas, adaptar outros espaços que não eram sala de aula para se tornar espaços flexíveis, interativos e também espaços de aprendizagem”, destaca.

  Durante o isolamento social, o papel do educador se ampliou – e o professor precisou reinventar seu modo de ensinar. “O professor fazia uma ponte com essas crianças que estavam em casa, com essa possibilidade de um ensino que acontecia de várias formas no Brasil, que não foram somente aulas síncronas, mas também aulas pelo WhatsApp, entre outras estratégias”, relembra Aline Nery.

  Apesar das conquistas, a coordenadora reconhece que o impacto também foi duro. “A pandemia acabou desgastando muito a nossa profissão. Muitas pessoas desistiram de ser professores, devido a esse aumento de trabalho, ao fluxo intenso e aos desdobramentos. Então, há um equilíbrio entre questões positivas e negativas nesse processo do pós-pandemia”, reflete.

  Mesmo com as dificuldades, Aline observa que houve um avanço importante na forma como a sociedade enxerga o trabalho docente. “Houve um olhar mais ampliado para esse trabalho do professor, principalmente quando ele retorna e vai pensar nessa recomposição de aprendizagens, em retomar o que foi, de certa forma, suspenso durante a pandemia. Esse compromisso firmado por esses professores se tornou algo bastante importante para a condução da nossa profissão nesses novos caminhos que a contemporaneidade vem destacando”, conclui.

  Essas transformações também se refletem em dados. Segundo o Censo da Educação Básica 2024, divulgado pelo INEP, a taxa de escolarização entre adolescentes de 15 a 17 anos chegou a 95,9%, colocando a Bahia em primeiro lugar no país. Ainda assim, 23,9% das matrículas na educação básica são de tempo integral, número que mostra avanços, mas também a necessidade de mais investimentos.

  Além disso, o mesmo levantamento indica que cerca de 30% das crianças de 8 anos ainda não estavam plenamente alfabetizadas em 2023, evidenciando o impacto da pandemia no processo de aprendizagem e reforçando o papel essencial do pedagogo na recomposição das habilidades perdidas.

A força da Pedagogia e o compromisso com a educação

  Para a coordenadora do curso, Aline Nery, o principal objetivo da formação é preparar educadores críticos, criativos e comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. “A Pedagogia vai muito além da sala de aula. O curso forma profissionais que compreendem a educação como um ato político e transformador, capazes de promover mudanças significativas em diversos espaços sociais”, destaca Nery.

  Com uma estrutura curricular interdisciplinar, o curso oferece bases teóricas sólidas aliadas à prática pedagógica, contemplando áreas como alfabetização, gestão escolar, educação inclusiva, tecnologias educacionais e metodologias inovadoras. “Buscamos proporcionar uma formação que dialogue com os desafios do século XXI. O pedagogo de hoje precisa ser um profissional que pensa criticamente e age com responsabilidade social”, afirma a coordenadora.

  Durante a graduação, os estudantes vivenciam experiências em projetos de extensão, estágios supervisionados e atividades práticas que aproximam a teoria da realidade das escolas e das comunidades. “Queremos que nossos alunos saiam daqui preparados para atuar com empatia e inovação, seja na docência, na gestão ou em outros contextos educacionais”, completa Nery.

Projetos de extensão e a cultura lúdica na Chapada Diamantina

  Um exemplo significativo é o projeto de extensão “Brincar na brinquedoteca ou fora dela: um encontro dos discentes com as crianças das escolas da rede pública da Chapada Diamantina”, desenvolvido pela Brinquedoteca Brincart, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus XXIII, Seabra.

  O projeto busca dinamizar a cultura lúdica no cotidiano das crianças, contrapondo-se a práticas que limitam o brincar. Seu objetivo é resgatar o direito de brincar e estimular o desenvolvimento integral, fortalecendo o diálogo entre docentes do curso de Pedagogia, outros cursos de Educação e secretarias municipais da Chapada Diamantina.

  As atividades são elaboradas nas disciplinas de Prática Pedagógica I e II, e após a preparação, os docentes entram em contato com as secretarias municipais para a realização das ações nas turmas de Educação Infantil. A proposta une teoria, prática e compromisso social na formação dos futuros pedagogos.

Vozes que constroem a educação: discentes e egressas da Pedagogia

  A estudante Daiane Cruz, que ingressou recentemente no curso, compartilha a experiência de estar no início dessa caminhada. “Entrar no curso de Pedagogia tem sido uma descoberta. Mesmo sendo novata, já percebo o quanto a formação abre portas e amplia nossa visão sobre o papel do educador. Cada disciplina nos faz entender a importância de olhar o aluno como um ser integral, com suas histórias e particularidades”, relata.

  Laila Suellen de Souza Teles, discente do 6º semestre, também descreve como tem vivenciado o processo formativo. “Sempre gostei de crianças, por sua leveza e alegria que traz ao mundo. No começo queria medicina, mas resolvi fazer o vestibular da UNEB para Pedagogia, que era a área que mais me aproximava das crianças. Estou no 6º semestre, e a cada etapa aprendo aspectos que geram um novo pensamento mais crítico diante da visão do mundo. O que mais me marca são as experiências na prática, que me fazem enxergar a beleza de algo que eu nem imaginava.”

  Entre as histórias que se entrelaçam dentro do curso, um exemplo inspirador vem das irmãs Darilene Francisca da Cruz, Daniela Francisca da Cruz e Daiane Cruz, que, em momentos diferentes, escolheram seguir o mesmo caminho: a Pedagogia. Unidas pelo desejo de ensinar e transformar, elas representam como a educação pode atravessar gerações e fortalecer laços familiares.

  Darilene, egressa do curso, relembra sua trajetória. “No momento em que realizei o Vestibular da UNEB, tinha que optar por dois cursos: Letras ou Pedagogia. Optei pela Pedagogia acreditando que depois de formar seria mais fácil de conseguir um trabalho. Mesmo engravidando no 5º semestre, nunca pensei em desistir. Hoje sou professora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e faço Pós em Alfabetização e Letramento. A realidade da sala de aula é desafiadora, mas o professor pesquisador precisa estar ativo o tempo todo.”

  Daniela, também formada pela UNEB, compartilha um caminho semelhante ao da irmã e lembra que a motivação familiar teve grande influência em sua escolha. “Meu ingresso na Pedagogia surgiu através da motivação da minha irmã Deuzenir, e depois fui me encontrando com o passar do tempo. Eu queria cursar Direito, mas me encontrei no caminho. A universidade me fez ser quem sou hoje. Durante o curso, fiz estágio em uma escola rural e vivi um misto de emoções e nostalgia. Faltando um semestre para concluir, já estava empregada lecionando para alunos da EJA e atuo até hoje. Perseverar foi o segredo: o que era para durar 4 anos, durou 6, mas venci. Hoje faço pós-graduação e sigo estudando.”

  Daiane, a mais velha das três, foi a última a ingressar na Pedagogia — inspirada pela dedicação e amor das irmãs mais novas à docência. Hoje, ela segue o mesmo caminho, reafirmando o compromisso da família com a educação. “Escolhi Pedagogia porque sempre admirei o amor e a dedicação das minhas irmãs com a profissão. A convivência com elas despertou em mim esse desejo de também transformar realidades por meio do ensino”, conta.

  Três irmãs, três trajetórias e um mesmo propósito: fazer da Pedagogia uma ponte para o conhecimento e para o futuro.

O olhar do educador: reflexões do professor e pedagogo Basilon Carvalho

  O professor Basilon Carvalho destaca que o papel do pedagogo vai muito além da sala de aula. “Na prática, o pedagogo é um gestor do ambiente educacional. Sua importância vai muito além da transmissão de conteúdos, pois ele articula as condições para o desenvolvimento integral dos alunos, atua na formação de valores, nas habilidades socioemocionais e na mediação de conflitos. O pedagogo é a peça-chave para garantir que a escola forme cidadãos críticos e éticos, e não apenas alunos que acumulam informações.”

  Entre as competências e valores indispensáveis, ele cita flexibilidade, alfabetização digital, empatia e ética. Para ele, a pandemia acelerou transformações na educação que vieram para ficar. “A cultura digital e o ensino híbrido se consolidaram. O desafio agora é aplicar as ferramentas tecnológicas de forma crítica e criativa, sem perder o vínculo humano que é insubstituível no ato de educar”, afirma Carvalho.

  Basilon também enfatiza que o pedagogo vem ganhando espaço em novas áreas: gestão escolar, educação corporativa, pedagogia hospitalar, produção de materiais didáticos e educação não formal. “A educação ainda carece de reconhecimento, mas percebo avanços, especialmente após a pandemia, quando as famílias puderam ver de perto a complexidade do trabalho docente. É preciso valorização salarial e visibilidade das múltiplas atuações do pedagogo.”

  O curso de Pedagogia da UNEB se destaca por formar profissionais sensíveis à diversidade e à inclusão. “A UNEB tem uma tradição forte em articular teoria e realidade social baiana. O currículo discute relações étnico-raciais, de gênero e educação do campo. A inclusão não é um apêndice, mas um princípio basilar de toda prática educativa”, ressalta Carvalho.

  Ele conclui com uma mensagem inspiradora. “A transformação não é um ato romântico, mas um trabalho árduo e fundamentado. Sejam curiosos, questionem, leiam muito e ouçam mais. A educação se constrói com os pés no chão da realidade, mas com o coração voltado para a construção do conhecimento. É assim que surgem os grandes profissionais da educação”, lembra Carvalho.

Educar é transformar

 A coordenadora Aline Nery reforça que o compromisso do curso é com uma educação transformadora, crítica e inclusiva, que une afeto, responsabilidade e compromisso social. “Ser pedagogo é acreditar no poder da educação para transformar realidades. É entender que cada aluno é único e que ensinar é, acima de tudo, um ato de amor e responsabilidade”, afirma.

 Para ela, educar é também um gesto de esperança – um processo que acolhe, escuta e desperta possibilidades. “Quando um pedagogo entra em sala de aula, ele não leva apenas conteúdo, mas também a chance de mudar vidas. É isso que faz da Pedagogia uma profissão essencial para o futuro”, conclui Nery.

**Alunas do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra