Por Ana Paula Oliveira*

Pesquisas acadêmicas, políticas públicas e experiências de comunidades indígenas Tapuya, Payayas e quilombolas revelam como o diálogo entre ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a saúde coletiva, a biodiversidade e a inovação social na Bahia.

Plantas medicinais nas mãos de uma mulher, em alusão ao valor do saber tradicional enquanto forma legítima de conhecimento. Foto reprodução: Freepik

  Nas últimas décadas, a Chapada Diamantina consolidou-se como um dos territórios mais pesquisados do Brasil no campo das plantas medicinais. Levantamentos etnobotânicos e etnofarmacológicos realizados por universidades públicas, disponíveis em bases como o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), refletem um interesse cada vez mais presente nas pesquisas sobre o uso tradicional de espécies nativas, suas propriedades terapêuticas e seus impactos na saúde humana.

  Essas pesquisas analisam desde a composição fitoquímica de plantas utilizadas em chás, banhos e xaropes até a relação entre biodiversidade, território e práticas de cuidado. Estudos realizados na Bahia demonstram que espécies amplamente usadas por comunidades tradicionais apresentam atividades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e analgésicas, reforçando a importância científica de práticas historicamente desvalorizadas. Ao mesmo tempo, os trabalhos alertam para a necessidade de uso responsável, padronização de dosagens e preservação ambiental, sob risco de perda de espécies ainda pouco estudadas.

  A existência desse corpo científico evidencia que o tema das plantas medicinais na Chapada Diamantina não se restringe ao campo cultural: trata-se de um objeto legítimo de investigação científica, com implicações diretas para a saúde pública, a sustentabilidade e o desenvolvimento regional.

Da pesquisa às políticas públicas: o avanço institucional da fitoterapia no Brasil

  O reconhecimento científico tem se refletido em políticas públicas nacionais. O Ministério da Saúde destinou mais de trinta milhões de reais para ações com plantas medicinais e fitoterápicos em mais de mil municípios brasileiros. O recurso foi transferido, na modalidade fundo a fundo, no dia 23 de setembro de 2025, em parcela única, aos municípios contemplados em 2024, com o objetivo de ampliar o acesso a terapias seguras e integradas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Essas iniciativas incentivam o cultivo, a manipulação responsável, a capacitação de profissionais e a pesquisa aplicada, fortalecendo a atenção básica e valorizando práticas locais.

  Além disso, acordos firmados entre o Ministério da Saúde, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) criaram condições para que agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas e outros grupos tradicionais forneçam plantas medicinais para uso no sistema público de saúde. A criação do Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (CNPMF) reforça esse movimento ao monitorar e avaliar a implementação da política nacional, alinhando-a a compromissos internacionais de biodiversidade, clima e saúde.

  Essas ações indicam uma mudança de paradigma: a saúde pública passa a reconhecer que o cuidado não se produz apenas em laboratórios e hospitais, mas também nos territórios, nos quintais e nas florestas.

Evidências que dialogam com a vida: saberes quilombolas na Chapada Diamantina

“Plantas medicinais utilizadas em práticas tradicionais de cuidado na comunidade.” Fotos: Ana Paula Oliveira

  É nesse contexto que as experiências de comunidades quilombolas da Chapada Diamantina ganham centralidade empírica. Carmelice Rosa da Silva, mulher quilombola da comunidade do Agreste, relata que o uso de plantas medicinais sempre foi uma prática cotidiana em sua comunidade, transmitida pelas mulheres mais velhas. Arruda, alecrim, mastruz, sabugueiro, poejo e hortelã compõem um repertório de cuidados para dores, febres, verminoses e cólicas menstruais, especialmente em períodos em que o acesso a serviços médicos era limitado.

  Luciene Souza, também quilombola da comunidade da Vazante descreve um aprendizado construído pela experiência direta no cuidado da família. A observação dos efeitos dos chás e xaropes levou ao reconhecimento comunitário de seus preparados, feitos a partir de plantas cultivadas no próprio quintal, como hortelã, poejo, guaco e acerola. Esses relatos não substituem a ciência, mas dialogam com ela ao oferecer evidências empíricas que motivam pesquisas e políticas públicas.

  Souza ainda ressalta que “antes, como o acesso ao médico era difícil, era os chás que ajudavam no processo de cura”, lembra.

Cosmovisão indígena Tapuya: território, natureza e cuidado

  Entre os povos indígenas Tapuya de Riacho das Palmeiras, a relação entre saúde e natureza assume uma dimensão integrada. Hildete Yara, indígena Tapuya, explica que, em sua tradição, ser humano e natureza são indissociáveis. As plantas medicinais não são apenas recursos terapêuticos, mas parte de um sistema de vida que envolve cuidado, respeito e equilíbrio ambiental.

  Vanusa Tapuya também descendente indígena do mesmo território, descreve um ritual de nascimento que sintetiza toda cosmovisão do seu povo “no meu povo, uma criança já nasce com um legado. Um valor que perpassa por gerações. É um banho com ervas cheirosas para que o corpo seja purificado. As ervas são suas aliadas” relata.

  Outros relatos Tapuya descrevem o uso de ervas em rituais de nascimento, resguardo e fortalecimento do corpo, práticas que articulam dimensões físicas, espirituais e coletivas. A diversidade vegetal da Chapada Diamantina é reconhecida como um patrimônio vivo, cuja preservação é condição para a continuidade desses saberes e para futuras descobertas científicas.

O que diz a ciência: a farmacologia das plantas usadas por indígenas e quilombolas

  O biólogo Manases dos Santos, descreve em termos técnicos aquilo que as mulheres da Chapada sempre souberam pela experiência. “As plantas medicinais possuem propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas, analgésicas e imunomoduladoras. Seus compostos alcaloides, flavonoides, entre outros interagem com o sistema imunológico e aumentam a eficiência do organismo”, afirma Santos.

Biodiversidade como política de saúde: a urgência da preservação

  A biodiversidade da Chapada Diamantina é um dos biomas mais ricos em espécies medicinais do país. O indígena Oto Payayá lembra que “a Chapada é poderosa em ervas medicinais. Nós é que usamos pouco. Depois da chuva, nas lagoas altas, aparece a erva do índio. Você seca, faz chá, limpa o corpo”. Mas ele faz um alerta implícito, conta que “se o território é destruído, a cura desaparece”, alerta.

  O biólogo Santos reforça que “a perda da biodiversidade leva à extinção de espécies e à perda do conhecimento tradicional. Podemos perder compostos terapêuticos valiosos antes mesmo de estudá-los”.

O papel da antropologia: ciência, poder e justiça nos saberes tradicionais

  Do ponto de vista antropológico, Cláudio Dourado analisa que os saberes tradicionais sobre plantas medicinais sobreviveram apesar de um longo processo histórico de desqualificação promovido pela modernização e pelo Estado nacional. Segundo Dourado, a ciência ocidental hegemônica construiu fronteiras entre conhecimento “legítimo” e “tradicional”, ocultando práticas que sempre estiveram alinhadas à relação entre ser humano e natureza.

  Para o antropólogo, a ciência contemporânea tem um papel decisivo ao reconhecer esses saberes, validar práticas por meio de protocolos éticos e experimentação responsável e contribuir para a formulação de políticas públicas. Dourado ressalta que muitos medicamentos utilizados hoje na medicina ocidental tiveram origem em conhecimentos tradicionais e que outros poderão surgir desse diálogo, desde que haja justiça ambiental, respeito às comunidades e repartição ética dos benefícios.

Um paralelo possível: experiências no Ceará e a viabilidade do modelo

  A viabilidade dessa integração é evidenciada por iniciativas em outros estados, como o projeto desenvolvido no Ceará pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz. A proposta mapeia especialistas indígenas em medicinas tradicionais, cria plataformas colaborativas e reconhece curadores como agentes fundamentais do cuidado em saúde. A experiência cearense demonstra que é possível articular ciência, políticas públicas e saberes tradicionais de forma estruturada, ética e eficaz.

Entre ciência e tradição: um caminho para a saúde e a sustentabilidade

  Os dados científicos produzidos na Bahia, aliados às políticas públicas em curso e às experiências de comunidades quilombolas e indígenas Tapuyas e Payayas, indicam que o futuro da saúde passa pela integração entre diferentes formas de conhecimento. As plantas medicinais da Chapada Diamantina representam não apenas um legado cultural, mas um campo estratégico de pesquisa, inovação e cuidado acessível.

  Ao colocar a ciência no centro, sem silenciar as vozes dos territórios, este cenário aponta para um modelo de saúde mais justo, sustentável e enraizado na realidade local, um modelo capaz de responder aos desafios contemporâneos sem romper com os saberes que sempre cuidaram da vida.

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra