O silêncio da mídia sobre os profetas da chuva e o apagamento dos saberes ancestrais.

Por Amanda Cruz*

Enquanto a mídia exibe mapas de satélite, gráficos de radar e previsões com linguagem técnica, um dos saberes mais antigos e resilientes do semiárido brasileiro segue à margem: o dos profetas da chuva. Na comunidade de Viração, em Baixa Grande (BA), lavradores ainda leem o céu com os olhos treinados pela natureza e pela herança cultural que resiste ao tempo.

Agricultores, especialistas e ouvintes no I Encontro dos Profetas da Chuva, realizado em Baixa Grande, no dia 27 de abril de 2025, na Escola Municipal José Muritiba. Foto: Amanda Cruz

A estudante de Jornalismo Taciere Santana, do Campus XXIII da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), esteve presente no I Encontro dos Profetas da Chuva, realizado em 27 de abril de 2025, como uma das estudantes levadas pela professora doutora Juliana Almeida para acompanhar e produzir conteúdos jornalísticos sobre o evento. A cobertura resultou em uma série de podcasts que deram visibilidade às vozes e saberes tradicionais presentes no encontro. Para Santana, o silêncio da imprensa sobre os profetas da chuva revela um processo contínuo de apagamento cultural. “Quando a mídia silencia ou instrumentaliza essas vozes, contribui para o apagamento de culturas originárias e priva a sociedade de outras formas de pensar o tempo, o clima, a terra e a vida”.

Podcast Profetas da Chuva

Episódio 01Água de Promessa

Episódio 02A fé que chove

Episódio 03 Clima de resistência

Episódio 04Esperançar do Sertão 

Episódio 05Vozes que preveem o céu

Episódio 06Saberes Populares em Tempos de Mudnaça

Ela argumenta que, muitas vezes, quando os meios de comunicação abordam esses temas, o fazem não por reconhecer a sua relevância, mas com fins institucionais:
“A grande mídia e veículos de comunicação locais permaneceram em silêncio. E, quando dão atenção a temas como esse, muitas vezes o fazem não por reconhecer sua relevância, mas para construir uma imagem institucional de pluralidade, instrumentalizando causas populares como estratégias de marketing de diversidade.”

A crítica da estudante é reforçada pelas reflexões da própria professora doutora Juliana Almeida, docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que acompanhou de perto o processo de cobertura jornalística. 

“Eventos como esse, dos Profetas da Chuva, mostram que nós temos muito a aprender com os saberes ancestrais. E a iniciativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em reunir essas pessoas, que têm uma conexão tão importante com a terra e com o céu – e isso pauta a vida delas – faz com que a gente cresça muito, em termos de conhecer o nosso território, a nossa ancestralidade e, em especial, saber como essas tradições ainda são muito, muito vivas, sendo passadas de geração em geração.
Infelizmente, isso não é pauta da grande mídia, porque são saberes muito enraizados nas zonas rurais, e a grande mídia não tem tanta atenção a isso. Mas nós, enquanto universidade, temos essa obrigação de dar visibilidade a esses saberes. Tivemos essa grata satisfação de poder participar desse encontro e produzir esses podcasts, que circularam bastante entre as comunidades.
O papel da universidade é esse, né? Fazer esse trabalho de extensão, estar próximo das comunidades e poder dar uma devolutiva nesse aspecto da comunicação – e, em especial, como foi esse nosso trabalho com o podcast – por ser uma mídia de fácil compartilhamento, uma mídia barata. Então, foi uma grande satisfação.”

Invisibilidade e oportunismo: um duplo problema na cobertura midiática

O silêncio midiático sobre os saberes tradicionais configura mais do que omissão, é uma violação simbólica de direitos humanos fundamentais. E quando a cobertura acontece de forma superficial e utilitária, reforça o esvaziamento desses saberes como prática viva, política e científica.

Reduzir o conhecimento ancestral a simples “curiosidades” para consumo rápido deslegitima sua importância social. Essa abordagem oportunista ignora que esses saberes são base de sustentação para milhares de famílias agricultoras no semiárido, não apenas na comunidade de Viração, mas em diversas regiões do Brasil.

Direito à cultura: violado pelo esquecimento

A Constituição Federal, no artigo 215, garante o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso à diversidade das expressões populares. O mesmo é reforçado pelo Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (ONU, 1966), que reconhece o direito de todos à participação cultural. Mas quando os meios de comunicação excluem ou reduzem esses saberes, contribuem para o apagamento de identidades.

“A brisa que vem do nada, a galinha se sacudindo na terra úmida, o formato das nuvens… tudo isso anuncia a chegada da chuva”, conta Maria da Glória, presidenta da associação de moradores da comunidade de Viração. “Esses sinais foram ensinados pelos nossos avós e precisam ser passados adiante”.

Sem espaço para a circulação pública desses conhecimentos, comunidades inteiras perdem o direito de preservar, praticar e transmitir sua cultura.

Comunicação seletiva e exclusão informacional

Está previsto no Artigo 5º, inciso XIV da Constituição e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS 16), que o direito à comunicação também é um direito humano. No entanto, esse direito é negado quando a mídia adota critérios de noticiabilidade que excluem sistematicamente vozes populares ou as utilizam apenas para mostrar uma suposta pluralidade editorial.

“Sempre observamos que as previsões populares dialogam com os dados da meteorologia. A diferença é que os agricultores vivem o ambiente, têm um olhar treinado pela experiência”, afirma Valdineia Gusmão, doutoranda em Modelagem em Ciências da Terra.
“Integrar esses saberes à ciência moderna é essencial diante da crise climática”, complementa a pesquisadora.

Saber também é participação política

Jairo Souza Rios, liderança local e ex-diretor sindical, lembra que o saber tradicional também tem rigor e método:

“Tenho registros de pluviometria desde 1997, com anotações feitas por moradores da comunidade. Antes disso, guardamos os dados desde 1962. Isso também é ciência.”

Negar a legitimidade dessas práticas também significa excluir comunidades tradicionais dos espaços de decisão, o que viola o direito à participação política, previsto no Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010) e na Constituição.

Entre resistência e apagamento

O encontro foi organizado por meio da parceria entre o Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Baixa Grande e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Mais do que celebrar tradições, a proposta foi criar um espaço de resistência, troca e afirmação cultural.

“Temos aqui pessoas que talvez não saibam ler ou escrever, mas que têm um conhecimento profundo sobre o tempo, a terra e a natureza”, afirma Elena Rita, agricultora familiar e presidenta do Sindicato.

 “Esses saberes são fundamentais para a agricultura familiar e para garantir soberania alimentar”, completa.

Abertura do evento reúne lideranças comunitárias, representantes de sindicatos e moradores locais para compartilhar saberes ancestrais sobre as mudanças climáticas. (Foto: José Bores Júnior)

O que está em jogo: voz, memória e dignidade

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua (IBGE, 2023), cerca de 32% da população do semiárido brasileiro vive em áreas rurais, muitas delas com acesso limitado à internet, à educação e à informação. Quando esses territórios são silenciados na mídia, seus saberes também são ignorados – e seus direitos, negados.

Valorizar os profetas da chuva não é uma escolha editorial neutra. É reconhecer que a ciência não nasce apenas em laboratórios. Ela também floresce no campo, nas observações cotidianas, no saber passado por gerações. É política pública, é cultura, é direito.

Comunicar com responsabilidade é respeitar direitos humanos

Dar visibilidade aos saberes tradicionais de forma justa e contínua não é caridade, nem vitrine de pluralidade. É cumprir com a função ética da comunicação: reconhecer e amplificar as vozes que historicamente foram caladas.

Quando a mídia silencia ou instrumentaliza essas vozes, colabora para a negação do direito à cultura, à comunicação e à participação. E sem esses direitos, não há democracia que se sustente, nem futuro que nos inclua a todos.

*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra