Segundo dados da Andifes, 8 em cada 10 estudantes em universidades federais relatam sintomas de ansiedade. Enquanto isso, o acolhimento institucional é limitado e a mídia pouco se aprofunda no tema.
Por Valesca Monielle*
De acordo com uma pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), realizada em 2018, oito em cada dez alunos apresentam sintomas relacionados à ansiedade. O levantamento acende um alerta sobre o sofrimento mental de estudantes nas universidades públicas brasileiras, realidade que segue sendo subnotificada, tanto nas políticas institucionais quanto na cobertura da mídia.
O ambiente universitário, idealizado como espaço de formação e emancipação, tem se mostrado também um terreno de sobrecarga emocional e esgotamento. Na visão da psicóloga Rhana Luísa, que atende estudantes universitários em sua clínica, os quadros de ansiedade são os mais recorrentes, especialmente nos períodos de avaliações. Ela aponta que a falta de empatia em relação a problemas pessoais, excesso de tarefas e a pressão por desempenho agravam o quadro, sobretudo entre alunos que também precisam trabalhar para se manter.
Entre os estudantes ouvidos, a percepção é semelhante. Uma aluna da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), que preferiu não ser identificada, relata que a sobrecarga acadêmica se intensifica quando o estado emocional já está fragilizado. A estudante também descreve sobre como os fatores socioeconômicos impactam. “A renda é uma preocupação para conseguir se manter na universidade, sendo necessário conciliar estágios, projetos de extensão e várias disciplinas que acabam sendo obrigatórias para não haver atraso do curso”.
Embora sua universidade ofereça programas de apoio psicológico, ela nunca buscou atendimento e observa que poucos professores se mostram atentos à importância do tema e a ajudar.
Para Vitória (nome fictício), estudante da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) campus Seabra, existe sim o espaço para conversar sobre saúde mental com os colegas, mas não com o corpo docente. Mesmo tendo ouvido falar sobre a existência de apoio psicológico, afirma que nunca utilizou o serviço.
“Nunca vi nada na mídia sobre saúde mental na universidade”, comenta a estudante, reforçando a sensação de invisibilidade do tema fora dos corredores acadêmicos. Ela ainda complementa, que a universidade poderia lidar melhor com o tema promovendo debates frequentes.
A psicóloga Luísa observa que esse silêncio também se estende aos meios de comunicação. Segundo a profissional, “a mídia só fala sobre saúde mental universitária em casos extremos. Apesar de não ser permitido divulgar casos de suicídio, alguns veículos mediáticos ainda assim compartilham informações de estudantes que chegam a esse nível”. Luísa também acrescenta que esse tema poderia ser mais falado na mídia, porém, há falta de informação e escassez de profissionais da área sendo ouvidos.
Em sua visão, o sofrimento psíquico dos estudantes só será levado a sério quando as instituições adotarem metodologias que respeitem a individualidade de cada aluno, com menos cobrança e mais responsabilidade emocional.
A profissional recomenda práticas de autocuidado e descanso, como fazer coisas que gosta, respiração diafragmática, técnicas de relaxamento, conversar com pessoas de confiança e ações institucionais mais proativas, além disso, perceber que a nota não é o que mais importa, mas o quanto você aprende. “Minha sugestão é que sejam marcadas consultas para todos os alunos, porque muitos precisam de ajuda e não sabem como pedir”, afirma.
A pesquisadora Milena Skubincan, mestranda em psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), identifica uma relação direta entre o ambiente acadêmico e o sofrimento mental dos estudantes. Para ela, apesar da universidade ser um espaço de formação crítica e de oportunidade, ainda carrega uma estrutura que frequentemente cobra alto rendimento sem oferecer suporte adequado. A pressão por desempenho, a precarização das bolsas, a competitividade e a reprodução de violências simbólicas como o racismo e o elitismo contribuem significativamente para o sofrimento mental.
Skubican complementa ainda que “quando somamos essas pressões ao acúmulo de outras responsabilidades, trabalho, cuidados familiares, deslocamentos longos, esse sofrimento se agrava. O ambiente acadêmico muitas vezes normaliza o adoecimento como parte do processo formativo, o que é extremamente preocupante”.
A psicóloga clínica e mestranda na UFBA, Joice Rosa, conta que nunca foi informada sobre as ofertas de acolhimento psicológico voltadas à pós-graduação. Em sua experiência, o apoio costuma vir de colegas ou, eventualmente, de orientadores que se mostram mais abertos, mas ela ressalta os limites dessa informalidade. “É um problema estrutural da universidade, esse apoio deveria partir da própria instituição”, afirma.
Sobre a cobertura da mídia, Rosa faz críticas à abordagem superficial e sensacionalista de casos extremos, como surtos ou suicídios. Ela aponta que os relatos mais profundos costumam aparecer apenas nas redes sociais, vindos de estudantes que estavam presentes, e são raramente repercutidos por veículos jornalísticos com profundidade. “Quando chega a um caso grave, noticiam, mas não contextualizam, nem como forma de prevenção ou aviso, e não noticiam o que está acontecendo nas universidades. E isso reforça preconceitos em vez de gerar reflexão”.
A mestranda lembra que, durante a graduação, participou de ações de acolhimento com instituições parceiras, mas aponta que os espaços oferecidos enfrentam dificuldades recorrentes. Segundo ela, muitos serviços não funcionam como deveriam por falta de verba e apoio, e ainda sofrem com o estigma social.
Rosa relata que já viu espaços de acolhimento psicológico com baixa adesão, justamente porque os estudantes têm medo de serem julgados. “As pessoas acham que, se forem ali, estarão se expondo”, conta. Em outros casos, havia grande procura, mas as instituições não conseguiam atender à demanda. Para ela, falta visibilidade para esses espaços e mais investimento em psicoeducação que é a prática de educar a população sobre saúde mental e seus cuidados.
A universitária Ana Júlia, do campus XXIV da UNEB em Xique-Xique, também identifica o peso emocional da vida acadêmica. Vinda de outra cidade e morando na residência estudantil com outras sete jovens, ela destaca a importância do apoio familiar e das amizades, mas ressalta que a adaptação não foi fácil. “No começo foi bem difícil, pois tive que sair de casa e ir para uma cidade onde não conhecia ninguém. Tudo muito novo, e residir com sete meninas diferentes, cada uma com sua personalidade, seus costumes, foi um desafio. Mas, apesar das diferenças, a convivência é muito boa e serve de aprendizado”, conta. Ela diz que sempre teve o apoio da família e de um grupo pequeno de amigos. “Mas não é fácil não, estou bem focada no meu objetivo”, complementa Júlia.
Ela reconhece os esforços da universidade em garantir assistência estudantil, como bolsas e cestas básicas, mas reforça que o auxílio ainda é insuficiente. “Muitos precisam estudar e, ao mesmo tempo, buscar uma forma de sobreviver”, observa.
Ana Clara (nome fictício), estudante da UNEB em Seabra, compartilha um relato semelhante. Ela conta que o peso da pressão acadêmica não começa na universidade, mas antes mesmo da entrada no ensino superior. “O sistema nos deixa sobrecarregado em tudo. Desde o ensino médio, a cobrança no vestibular, a pressão de ‘ser alguém na vida’, aí entra na universidade achando que vamos ganhar paz e não é assim. Temos que trabalhar, estudar, fazer atividades extracurriculares e ainda entregar tudo no prazo deles. Sei que temos responsabilidades, mas há, sim, pressão. Aí chega perto de formar e já bate ansiedade em tentar conseguir um emprego”, relata.
Júlia aponta também que a mídia precisa tratar o tema sobre saúde mental na universidade de forma mais abrangente. “A sociedade cria um tabu quando o assunto é saúde mental. Muitos ainda falam que é frescura, algo que é muito sério”, afirma a estudante.
O sofrimento emocional também aparece como um dos fatores que levam à evasão universitária. Uma ex-aluna da UNEB Seabra, que pediu para não ser identificada, relata os motivos que levaram ao abandono do curso. “Decidi deixar o curso porque me senti insegura com as matérias, por vezes me sentia frustrada, sem ânimo e distante”.
Ela diz que, na época, chegou a ser informada sobre a existência de atendimento psicológico na universidade, mas não procurou o serviço. “Eu estava tão cansada de estar ali, que naquele momento só queria sair de fato”. A estudante acredita que o emocional abalado interfere diretamente na permanência acadêmica. “Quando o nosso emocional está cansado e sem forças, a única saída parece ser desistir”.
Ao refletir sobre possíveis mudanças, ela defende que é fundamental que os docentes conversem com os alunos, tentem entender suas realidades e os façam sentir que pertencem à universidade. “Mais do que mandar uma mensagem, é mostrar para o aluno a sua importância dentro da universidade, e dizer para ele que é possível sim ser algo, ser feliz”.
Como conselho para quem está passando por algo semelhante, a ex-universitária recomenda procurar apoio, seja na universidade, entre colegas ou familiares, e, sempre que possível, buscar ajuda terapêutica. “Fazer terapia é muito importante. Te acolhe e te dá um norte. Antes de pensar em desistir, converse com alguém”.
A Constituição Federal, em seu artigo 6º, estabelece a saúde e a educação como direitos fundamentais. A Lei 13.935/2019 prevê a atuação de psicólogos e assistentes sociais nas instituições públicas de ensino, mas sua implementação é desigual, sendo apenas para a educação básica. Skubincan destaca que a saúde mental ainda é tratada como um apêndice dentro da universidade, e não como parte central da permanência estudantil.
Para estudantes, professores e demais integrantes da comunidade acadêmica que enfrentam dificuldades emocionais, é importante lembrar que não estão sozinhos. O número 188 é o telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV), um serviço nacional gratuito que oferece
apoio emocional e prevenção ao suicídio, com atendimento sigiloso por telefone, chat, e-mail ou presencialmente.
Na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), o suporte psicológico é oferecido por meio do Projeto Dois Altos.
Como buscar atendimento na UNEB:
- WhatsApp: (71) 99600-2672
- E-mail: doisaltosonline@uneb.br
- Presencial: Departamento de Educação – Campus I, andar térreo
- Horários de plantão presencial:
Segunda-feira: das 13h às 17h
Terça a sexta-feira: das 8h às 12h e das 13h às 17h
Em casos noturnos, é possível pedir o contato direto do plantonista por e-mail.
Procurar ajuda pode ser o primeiro passo para continuar a jornada acadêmica com mais acolhimento e dignidade.
*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.