“E, para nós, preservar é o caminho para prosperar. Eu preciso de um bom solo, então eu tenho que cuidar do solo. Eu preciso de água para produzir, então preciso de rios limpos, de uma água boa para irrigar. O agricultor, com certeza, é um dos mais preocupados com a preservação e a sustentabilidade”, Isabela Tumelero Busato, engenheira agrônoma.
Por Eloísa Carmo*
Publicada em 02/10/2025
No berço das águas onde nascem importantes bacias hidrográficas (São Francisco, Tocantins-Araguaia e Paraná), sobre o segundo maior bioma do Brasil, o cerrado, estão localizadas as fazendas de algodão. De acordo com o Instituto Sociedade População e Natureza – ISPN, no cerrado vivem aproximadamente 25 milhões de pessoas, ou seja, 12% da população nacional. Dentre elas, há em torno de 80 etnias indígenas e diversas comunidades quilombolas. Como encontrar o equilíbrio entre produzir e preservar em um bioma de tamanha riqueza natural?
A Associação Baiana de Produtores de Algodão (ABAPA) vem com um passo importante para preencher essa lacuna, pois ela garante programas estratégicos de sustentabilidade e recuperação de nascentes, reforçando a conexão entre o agronegócio e a comunidade. Em 2012, o Programa Socioambiental da Produção de Algodão (Psoal) e Instituto Algodão Social (IAS) unificaram os protocolos, dando origem ao programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), um dos mais completos em matéria de sustentabilidade de algodão em todo o mundo. O programa ABR está fundamentado nos Três Pilares da sustentabilidade (ambiental, social e econômico). O programa ABR é gerido, nacionalmente, pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), em benchmark com a Better Cotton (BCI), e é executado em campo pelas associações estaduais. Neste ciclo, participam do programa, além da Abapa.
Segundo a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, o projeto ABR tem como objetivo principal, influenciar de forma direta e indiretamente na sustentabilidade dentro da cultura. “A utilização de goma e subprodutos como casca, caroço e lagarta formam uma roda sustentável que permite que todo o algodão seja aproveitado desde a colheita. O impacto sustentável do algodão brasileiro responsável é enorme, pois desde a escolha da semente, do modelo de produção, com uso de biológicos, plantio direto e energia renovável, todas as etapas empregam práticas sustentáveis”, afirma Zanotto.
Para Zanotto, conciliar a produção em larga escala do algodão com a preservação ambiental é um ponto essencial que é prioridade. “Não se produz sem água, sem solo saudável, sem rios preservados. Todas as práticas, do plantio à colheita, são voltadas para o cuidado com o meio ambiente. A associação também mantém projetos de recuperação de nascentes, plantio de árvores e doação de kits de irrigação a pequenos produtores, evitando a produção às margens dos rios e promovendo o uso sustentável da água”.
Os investimentos em pesquisas e qualificações estão sendo feitos para ampliar o cuidado entre a produção, solo e reserva hídrica. “Vários projetos de responsabilidade social iniciativas com universidades federais centros de pesquisa são conduzidos hoje na região oeste com o propósito de mitigar o máximo possível quaisquer riscos de impactos ambientais e sociais que venham a existir no manejo e nas atividades agrícolas aqui instaladas”, explica Douglas Fernandes Vieira, gerente do centro de treinamento e tecnologia da Abapa.
Fazenda Busato: exemplo de Cuidado e Responsabilidade com o Meio Ambiente
No final dos anos 80, a Fazenda Busato que, faz parte da Abapa e participa do projeto ABR, iniciou suas atividades agrícolas no Oeste da Bahia, nos municípios de São Desidério, Serra do Ramalho e Jaborandi. A sua agricultura está baseada no cultivo de soja, híbridos de milho (pipoca e milho para consumo humano e animal) e algodão, com base no sistema de irrigação tecnológica e no sequeiro. A sua missão enquanto instituição é praticar a agricultura utilizando recursos tecnológicos, de forma sustentável e com responsabilidade sócio-ambiental.
De acordo com Marcos Rodrigues Vieira, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda Busato, a área utilizada para plantio na fazenda está de acordo com a as Áreas de Preservação Permanente (APPs), que são espaços territoriais especialmente protegidos, cobertos ou não por vegetação nativa, que têm a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, e proteger o solo. “O estado da Bahia determina que precisamos preservar 20% das áreas com reserva legal. Então assim, nós preservamos 35%, são as áreas hoje que nós temos em reserva legal”, explica Marcos Rodrigues Vieira- engenheiro agrônomo e gerente da fazenda.
A gestão dos recursos hídricos vêm sendo geridas conforme a autorização legal concedida pelo poder público- Outorga (normalmente por órgãos gestores de recursos hídricos, como a ANA– Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico– no Brasil) que dá a uma pessoa ou instituição o direito de usar recursos hídricos de forma controlada. De acordo com Isabela Tumelero Busato, engenheira agrônoma da fazenda Busato, a legislação é rigorosa enquanto a liberação da outorga, dessa forma, afirmando mais uma vez, o compromisso com a preservação do meio ambiente. “Então, a nossa preocupação com o recurso hídrico é grande. Temos água em abundância? Temos. Mas não é por isso que vamos desperdiçar”, explica Busato.
Atualmente, o grande desafio enfrentado pela instituição são as queimadas que atingem as lavouras. “São coisas que a gente não controla, mas que estamos sempre prontos para combater. A parte de preservação, que já é aquilo que a gente faz antes de acontecer, é uma preocupação muito grande. A nossa legislação dita que 25% da área tem que ser de reserva. Então, eu tenho essa reserva na fazenda e eu tenho que cuidar dela. Não pode ter incêndios, não pode ter gente caçando, ela tem que ser cercada. Nossa legislação garante que o produtor preserva 25% da terra dele “, afirma Busato.
Proteção e Investimento pelo Solo do Cerrado
Na perspectiva de Douglas Fernandes Vieira, gerente do centro de treinamento e tecnologia da Abapa, a região não era produtiva, o solo tinha características potenciais baseado no que ele oferecia. Há décadas o produtor vem investindo no solo através da correção, da adubação e do incentivo à utilização de outras tecnologias para que pudesse ter um solo consistente com a capacidade produtiva. O engenheiro ainda destaca que o solo oferecia limitações que, naturalmente, se o produtor não tivesse a vocação de plantar, colher e produzir, talvez tivesse desistido. “Acreditamos nessa região como um grande potencial produtivo e acreditamos na tecnologia. E isso foi o que o produtor rural fez quando assumiu estar aqui há mais de 30 anos, investir no solo com responsabilidade, utilizando-se de muita tecnologia e conhecimento técnico específico para que ela se tornasse uma região rica ”, destaca Fernandes.
Uma das grandes dúvidas quando se fala em investir no solo, é a utilização de métodos que comprometam o solo, mas Vieira explica como funciona o processo de melhoria do solo com base na plantação das culturas, “Como é que a gente melhora isso? É plantando culturas. Essa planta, esse talo, vai voltar para o solo e virar matéria orgânica. Inclusive, os galhos dessas plantas são uma fonte de potássio muito alta. Depois dessa planta, vai vir uma cobertura verde aqui. Essa cobertura verde vai ficar dessa altura e depois vai virar palhada, voltar para o solo, se decompor e virar matéria orgânica. Essa matéria orgânica vai liberar nutrientes que a planta vai aproveitar na próxima cultura”, explica Vieira.



Douglas Fernandes ressalta a responsabilidade em respeitar a característica local a ponto de compreender que não se cultiva para mudar e sim para se adaptar ao clima, solo e meio ambiente, dessa forma, utilizando o máximo do potencial produtivo da região. “Hoje nós chamamos os produtores rurais da região oeste de grandes construtores de solo porque investiram maciçamente em tecnologia em adubação e correção da acidez do solo para que ele oferecesse as condições que hoje estão instaladas”, diz Fernandes.
Apesar de todos os desafios entre produzir e preservar, gerir os recursos hídricos, cuidar com o solo, os avanços não param. A Abrapa junto com a Abapa seguem promovendo ações estratégicas para fortalecer um trabalho voltado para a sustentabilidade na cotonicultura. Assim, desde a safra 2003/04, a Bahia se mantém como o segundo maior produtor nacional de algodão, com reconhecimento mundial pela qualidade da sua pluma e responsabilidade com o meio ambiente. “A agricultura é a nossa vida. Então a gente faz isso porque gosta. E por isso que a gente está aqui”, finaliza Marcos Rodrigues Vieira, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda.
Aluna do curso de jornalismo da Uneb Seabra, sob orientação da professora Juliana Almeida*.