Disponíveis a qualquer hora e sem julgamento aparente, ferramentas de inteligência artificial têm sido usadas para desabafar, buscar conselhos e organizar sentimentos; especialistas alertam para os riscos de transformar uma tecnologia em substituta da escuta humana e do acompanhamento profissional.
Por Lucas Assunção*
À 1h da manhã, quando o silêncio da noite pode tornar uma angústia ainda maior, abrir uma conversa no celular pode parecer mais fácil do que procurar alguém. Não é necessário marcar horário, explicar por que está acordado ou enfrentar o medo de ser julgado: basta escrever. Foi nesse tipo de situação que Vitória Oliveira, estudante de Jornalismo, recorreu a uma inteligência artificial para colocar em palavras aquilo que estava sentindo. Em uma dessas ocasiões, ela estava angustiada, com medo e com a sensação de estar sozinha.
“Foi tipo um ‘tapa na cara’”, lembra Oliveira ao falar de uma das respostas que recebeu. Naquele momento, segundo ela, a conversa trouxe acolhimento. A experiência, porém, não fez com que passasse a enxergar a IA como uma substituta das relações humanas. Pelo contrário: com o tempo, a estudante passou a questionar os limites desse tipo de interação.
A experiência de Oliverira não é isolada. Entre os jovens ouvidos para esta reportagem, a inteligência artificial aparece como uma alternativa para situações que vão de conflitos em amizades e relacionamentos a momentos de angústia, dúvidas e solidão.
A psicóloga clínica Adriana Azevedo alerta, porém, que a sensação de acolhimento oferecida pelos chatbots não significa que a tecnologia seja capaz de compreender integralmente a experiência humana ou substituir o acompanhamento de profissionais de saúde mental.
A facilidade parece ser um dos principais motivos para procurar uma IA. Em situações envolvendo amizades e relacionamentos, Oliveira conta que chegou a preferir conversar primeiro com o chatbot.
A possibilidade de escrever sem estar diante de outra pessoa diminuía o receio de ser julgada e permitia organizar aquilo que estava sentindo antes de tomar alguma decisão. “Na IA não existe um julgamento”, explica Oliveira.
Com o tempo, porém, Vitória Oliveira percebeu um comportamento que passou a considerar preocupante: muitas vezes procurava a ferramenta já esperando determinada resposta. Em vez de buscar necessariamente uma perspectiva diferente, recorria ao chatbot para confirmar aquilo que já pensava sobre determinada situação.
“Eu meio que procuro a IA só para poder ter uma confirmação do que eu devo fazer ou não fazer”, relata Oliveira.
A percepção fez com que Oliveira reduzisse o uso da inteligência artificial para questões pessoais. Para ela, existe uma diferença entre receber uma resposta que parece compreender um sentimento e efetivamente ser compreendida por outra pessoa. “Ela [a inteligência artificial] não entende o que a gente está sentindo. A forma em que ela responde faz parecer que entende”, afirma Oliveira.
A experiência de Tainara Silva, também estudante de Jornalismo, aconteceu em um contexto diferente, mas revela uma busca semelhante. Em um momento marcado por pressão envolvendo família, amigos, faculdade, profissão e relacionamento, ela recorreu à inteligência artificial diante de um turbilhão de pensamentos.
Entre as dúvidas que passavam pela cabeça estavam perguntas como “será que estou no caminho certo?”, “será que o problema sou eu?” e “será que vai dar certo?”. A resposta recebida não resolveu o problema, mas trouxe algum alívio naquele momento. “Não mudou muita coisa como se eu tivesse conversado com alguém, mas ali na hora me confortou”, conta Silva.
Hoje, Silva define a IA como uma ferramenta para organizar os próprios pensamentos. A experiência, segundo ela, não equivale à conversa com uma pessoa, mas pode funcionar como um suporte momentâneo.
Outro estudante Rafael Mendes [nome fictício pois pediu anonimato para preservar sua privacidade], também recorreu ao ChatGPT durante um momento de dificuldade. O problema envolvia uma amizade que passava por conflitos. Antes de procurar a inteligência artificial, ele havia tentado conversar com pessoas próximas, mas ouviu que aquilo que estava sentindo era “frescura”.
A sensação de não ser compreendido fez com que buscasse outra alternativa. Mendes explicou à inteligência artificial os problemas que enfrentava e pediu sugestões sobre como conversar com o amigo sem perder a relação. Segundo o estudante, as respostas ajudaram a encontrar maneiras diferentes de abordar a situação. “Eu já não sabia mais o que fazer. Então acabei confiando”, relata Mendes.
A experiência, entretanto, não fez com que Mendes considerasse a IA uma substituta para profissionais. Para o estudante, a ferramenta pode oferecer atenção e conselhos em situações nas quais uma pessoa se sente ignorada, mas existe um limite importante: “A IA nunca deve substituir um psicólogo”.
Mendes também aponta um risco específico quando o assunto envolve sofrimento psicológico: uma ferramenta que responde de maneira excessivamente afirmativa pode reforçar uma interpretação equivocada ou perigosa.
Para a psicóloga Adriana Azevedo, a popularização desse tipo de uso não pode ser analisada apenas como consequência do avanço tecnológico. Ela também está relacionada à maneira como as pessoas vivem e ao acesso aos serviços de saúde mental. “Estamos vivendo em uma sociedade extremamente adoecida e extremamente acelerada”, avalia Azevedo.
Na perspectiva da psicóloga, a mesma lógica de rapidez que transformou atividades cotidianas, como pagar uma conta ou pedir comida pelo celular, também influencia a maneira como as pessoas procuram ajuda.
A inteligência artificial está disponível imediatamente, não exige deslocamento, espera ou agendamento e oferece uma característica especialmente atraente para quem está sofrendo: a sensação de ser ouvido sem julgamento. “A IA consegue oferecer uma escuta sem julgamento, uma presença”, afirma Azevedo.
O problema começa, segundo a psicóloga, quando essa facilidade é confundida com atendimento psicológico. “Uma coisa é você usar a IA como ferramenta de reflexão. Outra coisa é você achar que ela tem essa capacidade de se tornar o psicólogo da sua vida, porque ela não tem.”
Para a psicóloga, a diferença fundamental está na capacidade de análise. Enquanto a inteligência artificial trabalha a partir das informações apresentadas pelo usuário, o profissional pode investigar o contexto, questionar contradições, buscar outras
perspectivas e observar aspectos que não foram verbalizados. “A IA é um espelho do que você está mandando para ela”, explica Azevedo.
Uma resposta que parece acolhedora pode ser justamente parte do problema. Imagine uma pessoa chegando ao chatbot convencida de que todos ao redor a abandonam. Se a ferramenta simplesmente validar aquela percepção, pode reforçar uma interpretação que precisaria ser questionada.
Na psicoterapia, explica Azevedo, o profissional pode investigar essa afirmação, buscar evidências e compreender a história por trás dela. A inteligência artificial, por outro lado, não possui acesso à totalidade da vida daquela pessoa. “Ela pode muitas vezes fazer uma leitura equivocada daquela pessoa”, afirma.
Outro risco apontado pela psicóloga é o da dependência emocional. Diferentemente de uma relação entre duas pessoas, na qual comportamentos como ciúme, controle e manipulação podem revelar problemas na relação, a dependência de uma IA pode ser mais silenciosa.
A ferramenta está sempre disponível, não demonstra cansaço e não pede nada em troca. O conforto, justamente por parecer inofensivo, pode passar despercebido. Azevedo explica que essa característica pode fazer com que uma relação de dependência seja mais difícil de reconhecer. “Com a inteligência artificial, a dependência é silenciosa”, afirma.
Para ela, também existe o risco de a ferramenta reforçar pensamentos, comportamentos ou interpretações equivocadas. Isso ocorre porque o sistema recebe apenas as informações fornecidas pelo próprio usuário. Se uma pessoa afirma ao chatbot que “todo mundo a abandona”, por exemplo, a ferramenta pode trabalhar a partir dessa afirmação como se ela fosse verdadeira. Na
terapia, o profissional pode investigar a situação, procurar evidências e questionar aquela interpretação.
Quando o preço também entra na conversa
Existe ainda uma questão que aparece por trás de alguns desses relatos: acesso. Vitória reconhece que procuraria novamente uma inteligência artificial em uma situação de desespero. Não porque considere a ferramenta suficiente, mas porque o acesso a um profissional pode estar distante de sua realidade financeira. “Uma sessão de terapia não é menos que R$ 200, então não condiz com a minha realidade e com a realidade de muita gente”, afirma.
A fala ajuda a deslocar a discussão. Se pessoas encontram na inteligência artificial uma alternativa para falar sobre sofrimento, talvez a pergunta não seja apenas porque elas estão usando a tecnologia, mas também o que está fazendo com que não encontrem outras possibilidades de escuta.
Adriana Azevedo relaciona a procura por chatbots às dificuldades enfrentadas pela população para conseguir atendimento em saúde mental. Para ela, enquanto o sofrimento psicológico existe e os serviços não conseguem acompanhar todas as demandas,
ferramentas tecnológicas acabam ocupando espaços deixados vazios.
Um fenômeno que preocupa especialistas
Nesse cenário, a IA aparece como uma solução de fácil acesso para uma necessidade que já existia. A discussão não é exclusivamente brasileira. Em março de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou recomendações resultantes de um encontro internacional realizado em janeiro, que reuniu mais de 30 especialistas em inteligência artificial, saúde mental, ética e políticas públicas.
Entre as preocupações apresentadas estava o crescimento do uso de ferramentas de IA generativa que não foram desenvolvidas nem testadas especificamente para saúde mental como forma de suporte emocional, especialmente entre jovens.
Os especialistas defenderam que os efeitos da inteligência artificial sobre a saúde mental sejam incorporados às avaliações de impacto e ao monitoramento dessas tecnologias.
Entre os efeitos que precisam ser investigados estão possíveis consequências de longo prazo, como a dependência emocional.
Outra recomendação foi que ferramentas utilizadas para oferecer suporte em saúde mental sejam desenvolvidas com a participação de especialistas e de pessoas com experiência direta nessas questões, incluindo jovens.
A discussão mostra que a questão ainda está longe de ter respostas definitivas. O uso da inteligência artificial para conversar sobre sentimentos é relativamente novo, enquanto seus efeitos de longo prazo continuam sendo investigados. Para Azevedo, o avanço tecnológico pode transformar profundamente a maneira como as pessoas lidam com o próprio sofrimento. “Ainda não estamos sofrendo todas as consequências disso, porque algumas consequências são mais tardias”, afirma.
O futuro, para ela, é difícil de prever. Mas existe uma preocupação central: o enfraquecimento das relações humanas em uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente. As experiências reunidas pela reportagem mostram que a inteligência artificial pode ocupar diferentes lugares. Para Tainara Silva, ela ajuda a organizar pensamentos. Para Vitória Oliveira, já funcionou como um espaço de desabafo e confirmação. Para Rafael Mendes, serviu como uma alternativa diante da sensação de não ser compreendido.
Nenhum deles, porém, descreve a tecnologia como equivalente a uma relação humana ou a um acompanhamento profissional. A inteligência artificial pode responder imediatamente, ajudar a organizar pensamentos e oferecer uma primeira palavra quando alguém não sabe para quem escrever. Mas não sente o que o usuário sente.
Oliveira resume essa diferença ao defender que, apesar da utilidade da tecnologia, nada substitui a presença humana. “Existe uma vida fora das telas”, afirma. A questão, portanto, não parece ser escolher entre inteligência artificial ou seres humanos. É entender até onde a primeira pode ajudar sem ocupar o lugar que pertence aos segundos. Enquanto essa resposta ainda é construída pela ciência, pela tecnologia e pelos próprios usuários, uma coisa permanece: quando a conversa envolve sofrimento psicológico, a tela pode até ser o primeiro lugar onde alguém escreve. Mas não deveria ser necessariamente o último.
*Aluno do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.