A psicóloga Bruna da Silva explica como comportamentos abusivos são naturalizados em diferentes relações, quais sinais podem indicar uma relação abusiva e como buscar ajuda.
Por Anna Clara Silva Pinto*
Relacionamentos tóxicos podem afetar significativamente a saúde mental das pessoas, principalmente pela dificuldade em identificar sinais de controle, manipulação e dependência emocional dentro das relações. Muitas vezes, comportamentos abusivos passam despercebidos por serem confundidos com cuidado, proteção ou amor.
Dados da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto Datasenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, mostra a dimensão do problema. Em 2025, 27% das brasileiras declaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Entre as vítimas, o vínculo mais comum com o agressor foi afetivo: 70% identificaram o marido, companheiro ou namorado como responsável pela agressão mais grave. O levantamento ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em todo o país.
Para falar sobre o tema, a psicóloga Bruna da Silva compartilhou sua percepção profissional. Ao longo da entrevista, ela explica como comportamentos abusivos podem ser naturalizados, quais sinais merecem atenção e de que forma essas relações podem afetar a saúde mental.
Como a sociedade contribui para que comportamentos abusivos sejam confundidos com demonstrações de amor, cuidado ou proteção?
Bruna da Silva: A sociedade contribui quando nos ensina uma visão romantizada do amor e naturaliza sofrimento, posse ciúmes excessivo e necessidade constante do outro como se essa fosse a principal forma de viver um relacionamento. Com isso, muitos comportamentos abusivos acabam sendo interpretados como demonstrações de cuidado, interesse ou intensidade emocional, quando na realidade, produzem controle, culpa, medo e desgaste psicológico. Do ponto de vista psicológico, isso acontece porque o abuso emocional raramente começa de maneira explícita. Ele costuma aparecer de forma progressiva, misturado com momentos de afeto, validação e proximidade, o que gera confusão emocional. aos poucos, a pessoa passa a questionar a própria percepção e a minimizar o sofrimento que está vivendo. Também é importante lembrar que essas dinâmicas não acontecem apenas em relações amorosas. Relações familiares, amizades e até vínculos profissionais podem reproduzir comportamentos abusivos que a sociedade ensina a tolerar em nome do amor, da lealdade ou da obrigação. Muitas pessoas cresceram acreditando que precisam suportar sofrimento para manter vínculos, e isso dificulta reconhecer limites saudáveis.
Relacionamentos tóxicos não acontecem apenas entre casais, mas também em amizades, ambientes familiares e profissionais. O que essas relações têm em comum e como elas impactam a identidade e a saúde emocional das pessoas envolvidas?
Bruna da Silva: Relacionamentos tóxicos não estão necessariamente ligados a tipo de vínculo, mas à dinâmica que se estabelece dentro da relação. O que essas relações têm em comum é a presença de controle, manipulação, desrespeito aos limites, invasão emocional e uma sensação frequente de culpa, medo ou insuficiência.
Em amizades, relações familiares ou ambientes profissionais, isso pode aparecer de maneiras muito sutis: críticas constantes, chantagem emocional, competitividade excessiva, humilhações disfarçadas de brincadeira, silenciamento ou a sensação de que a pessoa precisa se anular para manter aquele vínculo.
A autoestima fica fragilizada, os limites se tornam confusos e muitas vezes a pessoa passa a acreditar que precisa aceitar determinadas violências para ser amada, acolhida ou pertencente. Psicologicamente, isso pode gerar um padrão de dependência emocional e dificuldade de reconhecer relações saudáveis
E um ponto importante é que a toxicidade nem sempre aparece em agressões explícitas. Muitas vezes, ela está justamente na repetição de pequenas violências que vão desgastando a identidade e a saúde emocional de forma silenciosa.
Quais sinais podem indicar que uma relação está ultrapassando os limites de um conflito comum e se tornando abusiva?
Bruna da Silva: Conflitos fazem parte das relações. Ter opiniões diferentes, se frustrar, discutir ou até se desentender não significa, por si só, que estamos diante de uma relação abusiva. A diferença começa a aparecer na forma como esse conflito é conduzido e, principalmente, quando existe um padrão de desrespeito e de violação dos limites do outro.
Alguns sinais importantes são a tentativa constante de controlar a pessoa, o ciúme excessivo, a invasão de privacidade, a desvalorização, humilhações, ameaças, chantagens emocionais, isolamento de amigos e familiares e a necessidade de fazer com que o outro se sinta culpado por tudo. Também é um sinal de alerta quando a pessoa começa a sentir que precisa medir constantemente o que fala ou faz para evitar uma reação do outro.
Uma pergunta que pode ajudar é: ‘Eu consigo ser eu mesma dentro dessa relação?’. Porque em uma relação saudável, mesmo quando existe conflito, existe espaço para diálogo, negociação, respeito e reparação. Em uma relação abusiva, o conflito muitas vezes deixa de ser uma divergência entre duas pessoas e passa a ser utilizado como instrumento de controle.
Outro sinal importante é perceber os efeitos dessa relação sobre você. Se, com o passar do tempo, você se sente cada vez mais insegura, culpada, diminuída, com medo de desagradar ou questionando constantemente a própria percepção, é importante olhar para essa dinâmica com atenção.
Então, mais do que identificar um comportamento isolado, é importante observar a frequência, a repetição e o padrão que está sendo construído naquela relação.
Por que é tão difícil reconhecer e romper um relacionamento abusivo, mesmo quando a relação causa sofrimento, e quais mecanismos emocionais costumam manter a vítima presa a esse ciclo?
Bruna da Silva: Uma das maiores dificuldades em reconhecer e romper um relacionamento abusivo é que ele raramente começa de forma explícita. Na maioria das vezes, o abuso acontece de maneira gradual e sutil, alternando momentos de afeto, pedidos de desculpas, promessas de mudanças e episódios de violência emocional. Esse movimento cria muita confusão psicológica e faz com que a pessoa tenha dificuldade de identificar que está vivendo uma relação abusiva. Existe também um mecanismo conhecido como ciclo da violência, em que períodos de tensão e agressão são seguidos por momentos de carinho. Isso gera esperança de mudança e fortalece o vínculo emocional, mesmo diante do sofrimento.
Outro aspecto importante é a dependência emocional, que muitas vezes vem acompanhada de isolamento social, medo da solidão, medo do julgamento ou até dependência financeira. Em alguns casos, a pessoa acredita que não será amada fora daquela relação ou sente que não conseguirá reconstruir a própria vida.
No processo terapêutico, é muito comum perceber um vínculo emocional ambivalente. A pessoa sofre, reconhece que a relação faz mal, mas ao mesmo tempo ainda existe apego, esperança de mudança e dificuldade de abrir mão daquele vínculo.
Por isso, sair de um relacionamento abusivo não depende apenas de ´´querer sair “. Existe todo um impacto psicológico e emocional que precisa ser acolhido sem julgamentos.
De que forma relacionamentos tóxicos ou abusivos podem afetar a saúde mental das pessoas envolvidas e quais impactos emocionais costumam aparecer ao longo do tempo, mesmo após o fim da relação?
Bruna da Silva: Relacionamentos tóxicos e abusivos podem afetar profundamente a saúde mental porque colocam a pessoa em um estado constante de tensão emocional, insegurança e desgaste psicológico. Quando alguém vive repetidamente situações de manipulação, controle ou invalidação emocional, isso impacta diretamente a forma como ela se percebe, sente e se relaciona consigo mesma e com os outros.
No consultório, também é frequente perceber o quanto essas relações afetam a identidade da pessoa. Depois de muito tempo em um vínculo adoecedor, algumas relatam que já não sabem mais quem são, o que gostam ou o que sentem, porque passaram anos se anulando para manter a relação funcionando.
Os impactos emocionais nem sempre terminam quando o relacionamento acaba. Mesmo após o rompimento, podem permanecer marcas importantes, como medo de viver novos vínculos, dificuldades de confiar, sensação de culpa, crise de ansiedade, necessidade constante de validação e até a repetição inconsciente de padrões relacionais semelhantes.
Em alguns casos, a pessoa pode desenvolver sintomas traumáticos relacionados ao que viveu, principalmente quando houve violência psicológica intensa, controle constante ou medo persistente dentro da relação.
Existe diferença entre um relacionamento tóxico e um relacionamento abusivo? Como essa diferença pode ser percebida?
Bruna da Silva: Existe uma diferença importante, embora os termos muitas vezes sejam utilizados como sinônimos. ‘Relacionamento tóxico’ é uma expressão mais ampla, utilizada para descrever relações que produzem sofrimento, desgaste emocional e dinâmicas pouco saudáveis. Pode existir uma relação marcada por comunicação ruim, conflitos recorrentes, dependência emocional ou dificuldade de estabelecer limites, por exemplo.
Já quando falamos em uma relação abusiva, estamos falando de uma dinâmica em que existe uma violação mais sistemática dos limites, da autonomia e dos direitos da outra pessoa. O abuso pode acontecer de diferentes formas: psicológica, moral, física, sexual, patrimonial, entre outras. O controle e a manipulação passam a ocupar um lugar central na relação.
Mas acho importante fazer uma ressalva: essa diferença não deve servir para minimizar o sofrimento de quem está em uma relação que considera tóxica. Uma relação não precisa chegar a uma situação extrema para que a pessoa reconheça que algo não está bem e procure ajuda.
O que eu considero mais importante é observar a dinâmica. Existe respeito? Existe liberdade para discordar? A pessoa consegue estabelecer limites sem ser punida emocionalmente por isso? Existe responsabilização pelos próprios comportamentos ou sempre existe alguém sendo culpabilizado? Existe espaço para que os dois tenham autonomia?
Essas perguntas ajudam a compreender se estamos diante de conflitos relacionais que podem ser trabalhados ou de uma dinâmica de violência e controle que precisa ser reconhecida e interrompida.
Que mensagem você deixaria para alguém que se reconhece em uma relação tóxica ou abusiva, mas ainda não consegue sair dela?
Bruna da Silva: Eu diria, antes de qualquer coisa: não se culpe por ainda não conseguir sair. É muito fácil, olhando de fora, dizer ‘é só terminar’, mas quem está dentro dessa relação está lidando com uma história, sentimentos, vínculos, medos e, muitas vezes, com uma autoestima que já foi profundamente afetada.
Você não precisa esperar que a situação fique ainda pior para reconhecer que algo está fazendo mal. O seu sofrimento já é motivo suficiente para buscar ajuda.
Procure uma pessoa de confiança, fale sobre o que está acontecendo e, se for possível, busque acompanhamento psicológico. Ter um espaço seguro para organizar os sentimentos e compreender a dinâmica que está sendo vivenciada pode ser muito importante para recuperar a confiança em si mesma e construir possibilidades.
E eu acho importante lembrar que pedir ajuda não significa necessariamente estar pronta para terminar naquele momento. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente conseguir dizer em voz alta: ‘isso não está me fazendo bem’. A partir daí, outros passos podem ser construídos.
Não existe vergonha em reconhecer que uma relação está fazendo mal e também não existe vergonha em precisar de tempo, apoio e cuidado para conseguir sair dela. Você não precisa atravessar esse processo sozinha.
As reflexões apresentadas por Bruna da Silva mostram que reconhecer uma relação tóxica ou abusiva é um processo que envolve não apenas identificar comportamentos de controle e violência, mas também compreender os impactos que essas situações podem causar na autoestima, na autonomia e na saúde emocional. Nesse sentido, ampliar o debate sobre o tema é fundamental para que comportamentos abusivos deixem de ser naturalizados e para que mais pessoas consigam reconhecer os sinais de uma relação prejudicial.
Para o futuro, a psicóloga destaca a importância de fortalecer o espaço de escuta, acolhimento e orientação, permitindo que pessoas em situação de violência tenham acesso a apoio e possam reconstruir sua autonomia. Mais do que incentivar uma saída imediata, é necessário compreender que cada pessoa possui seu próprio tempo e que o primeiro passo pode ser simplesmente reconhecer que aquela relação não está fazendo bem. dar visibilidade ao tema e promover informação pode contribuir para a prevenção de novos casos e para a construção de relações baseadas em respeito, liberdade e cuidado.
*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.