Nessas áreas, onde se concentram fauna e flora endêmicas, floresce também modos de vida específicos e adaptados a vida no sertão, como as comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e de fundo e fecho de pasto.

Por Taciere Santana*

  Nas regras gramaticais da língua portuguesa o prefixo “re” parte de ideia de reformular algo que já existe, como começar de novo, indicando o reforço da nova tentativa. Mas para os brasileiros que vivem em regiões semiáridas a utilização do prefixo revela a força da permanência em um bioma, pés na terra e vivência comunitária. Para essa população, a junção do “re” + “caatinga” parte da valorização do bioma Caatinga como um ecossistema vivo e produtivo, dessa forma, o recaatingamento consiste em uma metodologia para recuperar áreas degradas e conservar, promovendo oportunidades de renda, sustentabilidade e qualidade de vida para essas regiões.  O processo de regeneração natural dessas áreas é lento, a recuperação inicial acontece somente a partir de 15 anos, segundo o  Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA).

Comunidade produtiva na Caatinga. Foto reprodução: cartilhas do IRPAA

  A palavra Caatinga tem origem no Tupi e significa “mata branca”, devido ao aspecto acinzentado que adquire durante os períodos de seca.  Com predominância no Nordeste brasileiro, a Caatinga corresponde a cerca de 862.818km² (IBGE, 2019), cerca de 10,1% do território nacional e 53,49% da região Nordeste, segundo a Associação Caatinga. Ocupa a totalidade do estado do Ceará e parte do território de Alagoas, Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. O bioma é um patrimonio biológico exclusivamente brasileiro, ou seja, não é encontrado em nenhuma outra região do mundo.

  Segundo o Ministerio do Desenvolvimento Agrário (MDA, 2017) aproximadamente 27 milhões de pessoas residem no Semiárido Brasileiro, dessas, 40% dependem diretamente do bioma para sua sobrevivência. 

Área de ocorrência do Bioma Caatinga e altimetria do Semiárido brasileiro. Fonte: Embrapa

  Nessas áreas, onde se concentram fauna e flora endêmicas, floresce também modos de vida específicos e adaptados a vida no sertão, como as comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e de fundo e fecho de pasto. Esse último, consiste em um sistema de ocupação coletiva de terras e uso comunitário, além das áreas familiares que são individuais. Nessas comunidades, os animais são criados soltos em espaços nos espaços da Caatinga e Cerrado, e árvores como o umbuzeiro, tamarindo e juazeiros produzem frutos essenciais para a alimentação dos bichos e da população. 

Quando o doce é autonomia: mulheres à frente da produção

  Em Juazeiro (BA), na comunidade de Fundo e Fecho de Pasto de Curral Novo, um grupo de mulheres vem inovando práticas ancestrais de beneficiamento do umbu e tamarindo. A cooperativa Aroma da Caatinga é composta por seis mulheres, que juntas produzem geleias e licores, além de aplicarem cursos profissionalizantes para outras agricultoras. De acordo com Clarice da Silva Evangelista, agricultora rural e membro da cooperativa, a fabricação de geleia a partir do fruto do umbuzeiro era realizada de forma caseira desde os tempos de seus avós, e vem se tornando para as novas gerações uma alternativa de renda fixa.“Nós começamos a trabalhar com umbu, no intuito de dar uma renda para nossa comunidade. Porque antes vivíamos somente da criação de bodes e galinhas” aponta a agricultora. 

  Mesmo com a mini-fábrica já instalada desde 2012, a tarefa de melhoramento na produção é constante na cooperativa. Para elas é importante que a “mão esteja na massa” enquanto os olhos e horizontes são direcionados ao conhecimento, por meio de projetos e ações formativas que participam. A associação possui rótulo próprio, padrão de qualidade dos doces, e uma variedade de produtos como umbuzada, geleia de maracujá do mato e licores.

  A agricultora Clarice Evangelista, reflete sobre o quanto esse trabalho comunitário potencializa a renda das mulheres da comunidade.  Na cadeia de produção todas as tarefas e retornos são femininos: as associadas colhem o fruto, compram os materiais, fazem o doce, e vendem diretamente aos clientes. “Nós estamos na correria para ter nosso próprio dinheiro, sem depender de marido ou de pai. Decidimos e resolvemos tudo, aqui a gente ver que mulher está em todo lugar”. Evangelista complementa afirmando a importância da produção e da renda a partir do seu próprio quintal-produtivo, ação que reflete na queda da evasão rural e precarização do trabalho. 

Embalagens e comércio dos produtos Aroma da Caatinga. Foto reprodução: arquivo pessoal.

Diante de secas previsíveis, tecnologias sociais garantem água e dignidade no semiárido

  No semiárido, onde a estiagem natural dura em média oito meses por ano e a constante ocorrência de secas, ou seja, quando o volume de chuva é inferior à média anual, tornam a população vulnerável. Em busca de soluções, inúmeras alternativas e tecnologias são empreendidas para melhoramento da qualidade de vida no semiárido, principalmente quando critério é a busca por água. Dentre elas, o uso de cisternas, barreiros, cacimbas, sistemas bioagua e tantos outros, se encarregam de dar mais dignidade a vida das famílias do sertão.

  De acordo com dados do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) as grandes secas no Nordeste são previsíveis e ocorrem a cada 26 anos, com duração média de seis anos consecutivos, sendo a última ocorrida entre 2005-2011 e a próxima prevista para 2031-3037 (IRPAA, 2017).  

  A partir desses estudos, enfrentar as secas deve se tornar uma tarefa planejada, com necessidade de munir a base rural com tecnologias de captação para enfrentamento dos períodos mais densos. Segundo o coordenador do eixo Clima e Água do Irpaa, André Rocha, “a cultura de captação e estoque de água da chuva em diversas formas, incluindo cisterna, tem se mostrado uma estratégia indispensável para a convivência com o semiárido”. Rocha ainda aponta a necessidade de direcionamento orçamentário para a popularização dessas tecnologias, dizendo que “ainda falta orçamento público para universalização do acesso à água para diversos fins, em volume, quantidade e regularidade”.

  No início dos anos 2000, o Programa Um Milhão de Cisternas, desenvolvido pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) mirou em suprir as necessidades da população que vive no campo.  Através da captação da água da chuva em cisternas construídas com cimento ao lado das casas, as famílias passaram a ter uma relação diferente com a água, antes, dependentes agora gestoras do armazenamento próprio. O agente da Caritas Diocesana do Nordeste, Luciano França, aponta para o impacto na renda das famílias por meio dessa tecnologia, “são várias famílias que passam o ano inteiro produzindo hortaliças, principalmente, para consumo humano, subsistência, e também para vendas, melhorando a sua renda”. 

  Hercilia Ramos, agricultora e moradora de Rafael Jambeiro (BA), tem uma cisterna ao lado da sua casa há cerca de sete anos, ela relata que “a água da cisterna é para tudo: para beber, banho e para as plantas quando o tempo ta quente, ta seco”, diferente de seus tempos de infância, em que a mesma caminhava longas distâncias ao lado de sua mãe a procura de água. Com uma experiência parecida, na cidade de Baixa Grande, a Maria da Glória Almeida rememora os tempos difíceis para conseguir água, hoje com a cisterna também em seu quintal, ela relata com empolgação as melhorias no modo de vida “hoje temos a cisterna para nos dar suporte de melhoria para as famílias produzirem”. 

Tecnologia simples fortalece a produção, a segurança alimentar e o acesso a políticas públicas

  Assim como colher água, fazer roça no sertão, de forma tradicional, tem se tornado cada vez uma tarefa mais árdua. O aumento da temperatura, desertificação e falta de chuvas impactam diretamente na produção das famílias agrícolas e pecuaristas. Ações como a cobertura do solo, plantio em curva de nível (evitando perder a terra em erosões e reter a água), adobamento e reuso de água com o sistema bioagua são alguns dos exemplos de manutenção eficazes para as plantações.

  Com o sistema bioagua as famílias conseguem fazer o reaproveitamento de águas cinza, de uso da cozinha, chuveiros e lavagem de roupas. Geiziane Rodrigues, técnica em agropecuária em Sento Sé, detalha passo a passo de como realizar o tratamento, de acordo com ela “o tratamento começa dentro de casa, com cuidados básicos para evitar resíduos no ralo. Em seguida, a água passa pela caixa de gordura, que retém resíduos sólidos, e depois pelo filtro biológico, composto por camadas de materiais como casca de coco, serragem e areia grossa. Após a filtragem, a água é armazenada em um tanque de reuso e pode ser utilizada na irrigação de fruteiras e plantas forrageiras, não sendo indicada para hortaliças ou plantas rasteiras, já que não é totalmente tratada e não deve ter contato direto com os alimentos”.

  Uma técnica simples, mas que apresenta diversos resultados significativos como, o aumento na produção, segurança alimentar e nutricional. Além disso, também pode auxiliar como uma solução caseira no problema do esgoto ao ar livre e redução da incidência de pagas e doenças. Rodrigues relata ainda que os impactos podem ser observados no aumento da participação em políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e vendas no comércio comunitário.

Sistema circular de cultivo

  Outra técnica de produção que tem se mostrado estratégica para fortalecer a agricultura no sertão é o cultivo de hortaliças em mandalas agrícolas. Esse sistema organiza a produção em círculos concêntricos, em torno de um ponto central, como um poço de peixes ou galinheiro. Esse sistema agrícola integra diferentes culturas em um mesmo espaço, favorecendo a diversidade. 

  Na Escola Família Agrícola do Território da Chapada Diamantina (EFA), localizada em Seabra, o projeto chegou em 2024, visando promover a sustentabilidade e evitar o uso de defensivos químicos. Segundo o técnico em agropecuária (conferir) e professor da escola, Manuel Messias Júnior, o modelo funciona como um sistema integrado e autossustentável. “Os alimentos que não são destinados ao comércio, ou a merenda escolar, retorna para o aviário (galinheiro), e, em contrapartida, todos os dejetos voltam para a mandala, como nutrição para o solo”, aponta Junior. 

Estudantes da EFA realizando a manutenção da mandala agricola. Foto: arquivo pessoal

  O técnico reforça que a tecnologia pode ser replicada nos quintais produtivos, impactando a vida do produtor em diversos aspectos, como produção sustentável, rentabilidade, e minimização do êxodo rural. “Se esse projeto fosse implementado nas comunidades, poderia minimizar ou acabar com o êxodo rural. Essas pessoas não precisariam sair do seu lugar de origem em busca de emprego, ali mesmo eles poderiam ter sua fonte de renda”, afirma Júnior. 

Caatinga em pé

Umbuzeiro, a árvore nativa da caatinga e essencial para o recaatingamento. Foto reprodução: cartilhas do IRPAA

  Conciliar a presença humana com o ambiente natural, por meio de métodos compatíveis com a realidade social da região, é trabalhar para enriquecer a vida do solo e da população da região. A Caatinga é fonte de plantas que carregam tradição: frutas silvestres, fibras e plantas medicinais. Além de recanto para o pastoreio de caprinos como as cabras e ovelhas e na produção de abelhas nativas.

  Por meio da valorização da caatinga em pé reconhecemos os povos tradicionais como guardiões do bioma e da diversidade de saberes e tradições presentes nele. São esses conhecimentos, aliados às tecnologias sociais de convivência com o semiárido, que possibilitam produzir sem destruir. Nesse contexto, o protagonismo das mulheres ganha centralidade, seja na gestão da água, na produção de alimentos, na ciência, ou no fortalecimento do empreendedorismo feminino como caminho de autonomia e geração de renda. Assim, a agricultura sustentável no semiárido se afirma não apenas como técnica, mas como projeto de vida, enraizado no território, na justiça social e no cuidado com o futuro.

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra