Entre previsões populares e dados científicos, comunidades rurais constroem respostas conjuntas à crise climática no território.

Por Geisa Lorena, Valesca Monielle, Marta Matos e Gabriel Dourado*

Rosalina Maria, guardiã dos saberes, colhe a flor de calêndula - planta usada como anti-inflamatório e cicatrizante. Foto: Valesca Monielle

  Desde a antiguidade, observar o tempo sempre foi uma necessidade humana, já que as plantações dependiam dos ciclos das chuvas. Sem dispor de recursos tecnológicos ou da ciência moderna, os seres humanos aprenderam a observar o céu, o comportamento dos animais e as mudanças do vento, numa tentativa de prever as condições do tempo. Saberes ancestrais foram ferramentas importantes de adaptação ao ambiente. 

  Passados de geração em geração, esses ainda orientam tomadas de decisões de quem vive no campo. Em Baixa Grande, no território da Bacia do Jacuípe, os agricultores ainda seguem essas tradições. Desde jovem, Jairo Rios começou a registrar observações do seu território. “Para as previsões da chuva, a gente sempre aprende um pouco com as experiências que a natureza nos oferece. Desde os mais antigos, esse conhecimento vai passando de geração em geração”, conta o agricultor.

  Entre os métodos tradicionais que o agricultor segue está aquele intitulado “12 dias de agosto”, um ritual com colheres de sal colocadas em círculos numerados, em que cada dia representa um mês do ano seguinte. “A gente guarda as colheres de sal em lugar protegido e no dia 13 de agosto olha quais derreteram. Aquele sal que derreteu, indica quais são os meses que vai chover no ano que vem”, explica Rios. 

  Essas leituras do tempo, construídas na convivência estreita com a natureza, também foram difundidas no imaginário popular por meio da arte. Nos versos “Mandacaru quando fulora na seca / É o sinal que a chuva chega no sertão” o célebre Luiz Gonzaga se refere à florada da planta que ocorre quando ela “percebe” mudanças sutis na umidade do ar, na temperatura e na pressão atmosférica, o que geralmente antecede o início das chuvas.

Mandacaru, símbolo de resistência do sertão. Foto: Geisa Lorena.

  O secretário agrícola do sindicato de Baixa Grande, Ailton de Brito aprendeu a ler o tempo com seus avós. “Eles tinham muito conhecimento. Por exemplo, se a codorna começou a cantar, é sinal que durante três dias choveria”, detalha. “Na virada do ano, no dia 31 de dezembro, se você levantar cinco horas da manhã e as boiadas e o gado estiverem comendo, é sinal que aquele ano será escasso. Mas se o gado estiver deitado e calmo, é sinal de prosperidade; vai ser um ano de fartura”, narra.

  Há práticas que unem tradição, observação da natureza e fé. Uma delas é a crença popular de “roubar” a figura do menino Jesus, junto à imagem de São José. “Nós vamos na casa de uma família. Chegando lá, começamos uma conversa e aí roubamos o santo. Nós levamos para nossa casa ou para uma igreja e, mais ou menos um mês e três semanas, chega o dia 19, dia [ de São José] em que nós reunimos as pessoas e levamos o menino Jesus até a casa da família que roubamos”, confidencia Maria da Glória Almeida. “Nesse momento, acontece que Deus vê nossas orações e, conforme o período que está seco, chegamos em casa molhados; das Graças de Deus”, completa Almeida, presidenta da Associação Beneficente de Agricultores Familiares da comunidade Caldeirão Encantado.

Quando a chuva chega, a alegria renasce no sertão. Foto: Geisa Lorena

Clima e resistência

  Conforme relatam os produtores rurais de Baixa Grande, a estiagem tem desafiado o cultivo local. Além das previsões, as alternativas à seca são as pequenas irrigações e as cisternas. 

  “Nos resta a esperança. A esperança de que ela [a chuva], mesmo que não tenha chegado no momento certo, irá chegar depois”, opina Maria da Glória Almeida. A percepção é que antes chovia com mais regularidade, mas hoje, mesmo quando precipita, leva pelo menos um mês até que aconteça de novo.

  Para Jairo Rios, o ciclo da chuva influencia diretamente as plantações. “No [cultivo do] feijão, por exemplo, a chuva precisa ser constante; se não chover na hora certa, o feijão não se desenvolve”, pontua. A mandioca é mais resistente, mas ainda sofre, ele afirma, em outro exemplo. 

  O agricultor mantém registros pluviométricos detalhados de 1962 até 2025. Nos dados, Jairo Rios dividiu por três os 63 anos do seu monitoramento, criando “lotes” de 21 anos. “E dá para ver como variou [o clima]: o primeiro lote teve 26.800 mm [de precipitação], o segundo 17.000 mm e o último 16.000 mm”, enumera. “Isso também é ciência”, completa.

  Chuvas fora de época, períodos de seca mais longos e impactos da ação humana, como desmatamento e uso de agrotóxicos, têm alterado os ciclos que os povos do campo conheciam de cor. “Com as mudanças climáticas, nossa experiência tradicional nem sempre se confirma”, queixa-se Rios. 

  “Quando há muito veneno na região, a chuva, pelo menos no inverno, não cai como deveria, e até a lavoura, como o feijão, adoece”, alerta. Ele lembra que a três quilômetros de onde mora, um fazendeiro utilizou veneno por três anos consecutivos e isso prejudicou a plantação de feijão dos vizinhos.

Saberes ancestrais no centro do debate

  Em sua dissertação “Sucuiúba: Justiça Hídrica e Ancestralidade na Chapada Diamantina”, o antropólogo Cláudio Dourado investiga como cinco comunidades rurais da região têm enfrentado os efeitos das mudanças climáticas e os conflitos pela gestão da água. 

  Em um território marcado por secas severas, expansão da monocultura e disputas por outorgas de captação de água, o pesquisador analisa como agricultores articulam saberes ancestrais, práticas comunitárias e estratégias de resistência para garantir a produção de alimentos e defender seus rios. A pesquisa científica constata que a crise hídrica não é apenas ambiental, mas também política, resultado de um modelo que concentra o controle das águas e desconsidera conhecimentos tradicionais.

  Para Dourado, camponês e membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), discutir mudanças climáticas sem ouvir quem convive diariamente com os efeitos delas é um debate incompleto. Confira no áudio a seguir:

"Quebra do ciclo da água”

  Segundo um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas (INPE), realizado com dados climáticos de 60 anos no Brasil,  mostra que o número de dias sem chuva no país aumentou 25%. A pesquisa mostra ainda que, nos últimos anos, as precipitações na região Nordeste caíram de 10% a 40%, impactando os produtores rurais e a produção de alimentos.

  “Antes de falar dos efeitos das mudanças climáticas, a gente precisa entender quais são as causas [dessas mudanças]”, aponta Deorgia Souza, pesquisadora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). “Na era moderna, a partir do modelo econômico capitalista, houve um aumento expressivo da emissão de dióxido de carbono na atmosfera, inicialmente associado à industrialização [o que contribuiu com essas alterações climáticas]”, observa Souza.

  De acordo com a pesquisadora, a industrialização passa a atingir o campo e o modo de produção rural, que altera a organização da paisagem. Áreas antes ocupadas por diferentes culturas ou vegetação natural deram lugar a pastagens degradadas, grandes áreas de monocultura ou outros usos intensivos do solo, conforme contextualiza a professora da UEFS. 

  “O desmatamento é o ponto de partida dessas mudanças no uso e na cobertura da terra. A Bahia chega a quase um milhão de hectares desmatados entre 2019 e 2024, segundo dados mapeados pelo MapBiomas”, específica. Deorgia faz parte do projeto MapBiomas, uma rede global formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra nos territórios e seus impactos.

  No seu projeto, mapeia a cobertura do bioma Caatinga, entre 1985 e 2024, a fim de entender como acontece o processo da emissão de gases do efeito estufa. Para isso, utiliza o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

  De acordo com a pesquisadora, alterações na cobertura da terra têm impacto direto no clima local, no ciclo da água e na capacidade do solo de se regenerar. Conforme explica, a retirada da vegetação leva à perda da capacidade de evapotranspiração das plantas, processo fundamental para a formação das chuvas. 

  “Há uma quebra no ciclo da água. Com isso, ocorre o aumento da temperatura e a redução das precipitações”, indica. As áreas que antes não eram consideradas áridas ou semiáridas passam, então, a apresentar essas características, agravando os efeitos da escassez de água.

  “Esses acontecimentos vêm como um alerta para nós, seres humanos, que não cuidamos do meio ambiente. Quando a gente não cuida, só tem devastação”, opina a camponesa Maria da Glória. Na sua visão, o regime de chuvas já não segue o mesmo padrão de antes na comunidade onde mora. “A chuva não tem mais o mesmo ‘patamar’ que antigamente. Isso afeta muito a nossa plantação. Às vezes a gente planta de acordo com a experiência, mas quando a chuva não vem, quem sente somos nós”, lamenta.

Práticas adaptativas

  Diante de um clima cada vez mais imprevisível, agricultores e pesquisadores apontam que a adaptação no campo passa pelo cuidado com a terra e isso inclui a preservação das matas e de conhecimentos ancestrais.

  A pesquisadora Deorgia Souza acrescenta que as práticas adaptativas às mudanças climáticas estudadas pela ciência já estão presentes no dia a dia de povos e territórios tradicionais. “Antes mesmo de serem chamadas de práticas adaptativas ou sustentáveis, essas formas de produção já existiam como modos de vida. Comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares desenvolveram historicamente sistemas de manejo baseados na conservação do solo, da água e da biodiversidade”, detalha.

  Entre essas experiências está a agrofloresta, também chamada de sistema agroflorestal (SAF). Cada vez mais adotada no campo como resposta ao clima instável, esse modelo considera que as árvores, cultivos agrícolas e diferentes espécies convivem no mesmo espaço, favorecendo a diversidade, o equilíbrio ambiental e a recuperação do solo. “Os SAFs contribuem para a regeneração da biodiversidade e ajudam a recuperar a água, que volta a surgir onde antes havia escassez”, afirma a Souza, do MapBiomas.

  “Hoje, nós temos que reflorestar, começar a plantar mais árvores. Incentivar os pequenos agricultores a não usar veneno nas suas lavouras porque o pequeno está aprendendo com o grande e começou a usar veneno nos terrenos. Aqui em Baixa Grande, temos uma demanda muito grande no uso do agrotóxico”, avalia o agricultor Ailton Brito.  

Saberes ancestrais na universidade

  Cláudio Dourado enfatiza que é urgente repensar as estruturas ocidentais de produção de conhecimento, Estado, universidade e ciência, para reconhecer o valor daqueles que historicamente foram colocados à margem. “Nós, pesquisadores e pesquisadoras, temos que nos redimir no processo histórico e imaginar o quanto é importante essas comunidades, essas pessoas que são guardiões desses saberes e que, para o futuro da humanidade, são fundamentais”, diz o antropólogo.

  Segundo Dourado, ao falar de crise climática é necessário primeiro entender comunidades que já vem dialogando com a natureza, como é o caso dos profetas e profetisas das chuvas. “A perspectiva das mudanças climáticas exige que toda essa discussão seja pautada, primeiro, por quem consegue dialogar com esses mistérios, não por quem quer cada vez mais lucros e lucros”, adverte.

  Essa integração foi traduzida por meio da criação de um mapa de simpatias e previsões dos camponeses de Baixa Grande, elaborado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), campus Seabra, por meio de um projeto de extensão do curso de Jornalismo.

  O instrumento foi produzido por Edvan Lessa, docente do curso e autor do projeto, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Baixa Grande e a CPT. “Os camponeses sempre desenharam o tempo riscando a terra, indicando o caminho dos ventos, o comportamento dos insetos, as fases da lua. Nosso trabalho foi apenas sistematizar o que já é muito comum entre eles”, explica Dourado. 

Mapa criado pelo docente Edvan Lessa, da Uneb, a partir de saberes tradicionais de camponeses da zona rural de Baixa Grande. Foto: Divulgação

  Segundo o antropólogo, por meio do mapa, desenhado sob forma de uma mandala, o conhecimento oral dos camponeses e camponesas foi traduzido numa metodologia acessível com o intuito de preservar saberes que atravessam gerações. O mapa reúne círculos que representam as luas, as estações e o ciclo anual, mostrando como tudo se interliga no olhar camponês. 

  O mapa foi lançado durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), sob o tema “Uneb, um só Oceano”, promovido entre 22 e 24 de outubro, no campus Seabra. No evento, uma das convidadas foi a profetisa da chuva Helena Queiroz, de Baixa Grande. “Quando a Uneb veio ouvir a gente, uma universidade que forma doutores, e achou isso importante, foi uma alegria. Eu me senti orgulhosa de ver esses saberes sendo reconhecidos”, compartilha a agricultora.

  Wilson Gomes, agente da CPT, esteve no I Encontro dos Profetas da Chuva, ocorrido em abril na comunidade de Viração, em Baixa Grande.  Ali, os camponeses apresentaram as suas previsões para o ano de 2025 e analisaram porque certos sinais se confirmaram ou não, em diálogo com pesquisadores presentes. 

  O evento contou com a participação dos discentes do curso de Jornalismo da Uneb para a cobertura. Gomes defende que registrar e compartilhar os saberes ancestrais é fundamental para que eles não desapareçam e sejam acessados pelas pessoas jovens. “Se todos puderem acessar esse material, seja ele oral ou escrito, levá-lo para as comunidades, para as universidades e para a academia, isso se torna extremamente valioso”, finaliza.

Agroecologia: uma forma de cuidado

  A agroecologia surge como uma ciência de produção agrícola, integrada aos sistemas ecológicos, a fim de propor um modo de produção que respeita os sistemas naturais, priorizando biodiversidade, preservação da água, cuidado com o solo e equilíbrio ambiental.  Na visão de Natália Lima, agricultora familiar , a agroecologia se apresenta como uma forma de cultivo que prioriza o cuidado com a terra e com as pessoas. 

  “Porque, se a gente pensa em agroecologia, a gente pensa nela tanto como alternativa para a segurança alimentar, quanto para a luta contra a crise climática. A agroecologia vai pensar no cuidado com a terra, no cuidado com o ser humano”, diz a agricultora. Nesse contexto, a certificação orgânica é criada como um documento que garante que os produtos cultivados realmente sigam esses princípios, sendo avaliada por instituições que são autorizadas e fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para assegurar que não há uso de agrotóxicos sintéticos, fertilizantes químicos ou transgênicos.

  Lima, certificada pelo MAPA, compartilha sua rotina aplicada às práticas naturais. “Cada etapa, desde a identificação da planta que precisa de ajuda, a coleta do adubo, a mistura de adubos orgânicos, preparo do solo, até a colheita de sementes e produtos que vou consumir ou levar para a feira, são feitas com as minhas mãos e a de meu marido, que me ajuda, com muito zelo, sem nada de veneno, sem pressa”, relata. “Com escuta e olho atento ao que cada planta e cada espaço me contam do que estão precisando”, adiciona.

  Para a especialista em agricultura biodinâmica e familiar, Brigida Salgado, as ações no sistema agrícola devem ser pensadas de forma a não impactar e agravar as mudanças climáticas. “Ou seja, precisamos contribuir para diminuir esses impactos, tanto dentro da agricultura familiar quanto na agricultura comercial”, acredita Salgado.

  Quando se fala dos desafios para agricultores que querem migrar para essas práticas agroecológicas, Salgado diz que o maior obstáculo está na mudança de mentalidade. A agricultura convencional trabalha com a ideia de produzir o máximo possível em um espaço limitado. Já a agroecologia, busca cultivar diferentes alimentos em um mesmo espaço, respeitando o tempo natural de cada espécie. 

  As mudanças climáticas adicionam desafios constantes à agricultura. “Até 20 anos atrás, a gente tinha as estações climáticas muito bem definidas e nós sabíamos: em outubro vamos plantar feijão, em abril vamos plantar alho e vamos colher em setembro”, recupera Salgado.  “Porque nós tínhamos um sistema climático de temperatura e de chuvas bem definidos. Com as mudanças climáticas, nós já não temos essa previsão; essa previsão já não existe”, explica.

  Felipe Campelo, coordenador da Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, ressalta a dimensão educativa necessária à agroecologia. De acordo com ele, a prática agroecológica requer que o agricultor entre em um ciclo de aprendizado, no qual  faz, observa e avalia o que funcionou ou não e, a partir disso, constrói ações melhoradas. “Estamos falando de uma educação popular, que se baseia no respeito aos conhecimentos tradicionais, no respeito aos conhecimentos populares, na troca desses conhecimentos, na elaboração de conhecimentos novos e na integração com os conhecimentos científicos, com a pesquisa e com a ciência”, sugere Campelo.

Rosalina Maria e sua horta, comunidade Mata da Onça, Seabra/BA. Foto: Valesca Monielle 

Saberes que curam

  Em seu quintal, na comunidade de Mata da Onça, em Seabra, Bahia, a agricultora Rosalina Maria de Souza carrega um conhecimento passado de geração em geração. Seus primeiros aprendizados vieram ainda na infância, observando a mãe. Mais tarde, já adulta, aprendeu novos usos com a sogra e com as cunhadas, mulheres que preparavam remédios caseiros. “Eu aprendi com as pessoas que faziam os remédios e diziam que era bom. Aí fui pegando gosto. Hoje faço os mesmos remédios que elas indicavam”, conta.

  Entre as plantas que mais utiliza, Maria cita o hortelã grande e o pequeno, folha de algodão, folha de pitanga, capim-de-cheiro, manjericão, alfavaca, açafrão, mastruz, limão, alho e o popular “xododô”, também conhecido como viola. Para ela, essas plantas são a base dos cuidados de saúde da família, usadas há décadas para tratar gripe, tosse e outros incômodos do dia a dia. “Quando alguém aqui fica gripado, eu junto tudo: hortelã, pitanga, algodão, capim-de-cheiro, açafrão, mastruz, limão… Aí pode fazer chá ou xarope. É o que sempre funciona”, garante.

  Conheça algumas das plantas usadas por Maria nos cuidados da saúde:

Algumas das ervas que fazem parte do dia-a-dia de Maria. Fotos: Valesca Monielle

  A tanchagem, segundo Maria, é uma das plantas mais completas. Costuma ser boa para dor de garganta, infecção nos rins, inflamação da bexiga, do útero e até para pneumonia, ela conta. “É uma planta muito antiga, sempre nos ajudou”, completa.

Seu jeito de preparar o xarope carrega a sabedoria das mulheres mais velhas: coloca as plantas na panela de pressão, mistura com mel – ou, na falta dele, açúcar – e deixa “refogar”, sem adicionar água. “A água sai das próprias plantas”, descreve. É um método tradicional que atravessa décadas e continua sendo usado por ela.

  Para ela, o maior desafio é encontrar algumas plantas no período da seca. “Quando falta chuva, elas morrem. Só brotam de novo quando chove. No verão é mais difícil”, relata.Mesmo com as mudanças do tempo, Maria não abre mão de seguir essas práticas. “Eu continuo fazendo porque dá resultado. É por isso que eu não deixo de usar e nem de passar adiante”, coloca.

  Seu esposo, Cloves Teixeira, também reforça o valor dos remédios caseiros. Diagnosticado com diabetes, passou a tomar o chá de melão-de-são-caetano, planta amarga tradicionalmente usada para controlar a glicose, e afirma que o uso contínuo ajudou no controle da doença. Maria, porém, faz um alerta: “Cada pessoa é uma pessoa. O melão-de-são-caetano, por exemplo, não pode ser tomado por mulher grávida, porque é abortivo”.

  A seguir, veja a planta utilizada por Teixeira no preparo do chá:

Folhas e fruto do melão-de-são-caetano, planta medicinal de sabor amargo. Foto: Valesca Monielle

  Além do uso para diabetes, Teixeira lista benefícios como ação anti-inflamatória, antioxidante e auxílio contra prisão de ventre.  Ele conta que não abre mão dos chás, gosta muito de preparar e tomá-los no dia a dia, acredita que eles trazem vários benefícios para a saúde, ajudando tanto no controle de doenças quanto no bem-estar geral. 

  Floriza Silva, moradora da comunidade quilombola Vão das Palmeiras, no município de Seabra, compartilha o legado de seus pais e avós sobre ervas medicinais. Sua conexão com a natureza a ajuda a descrever o uso de plantas retiradas do seu próprio quintal para tratar inflamações, dores de cabeça e até rachaduras nos pés. 

  Ela revela uma relação afetiva com as plantas, que a ajudaram a criar seus filhos sem precisar ir ao médico, cultivando-as como parte de sua rotina diária e espiritual. “Eu choro por causa das minhas plantas. Eu já começo meu dia dando bom dia à elas”, compartilha.

  No vídeo a seguir, Silva relata os benefícios do coentro, uma erva aromática com propriedades medicinais.

Floriza Silva em sua horta, na comunidade Vão das Palmeiras, Seabra/BA. Vídeo: Gabriel Dourado

  Ao refletir sobre o lugar desses conhecimentos na história, o antropólogo Cláudio Dourado lembra que muitos saberes foram perseguidos e tratados como ameaça. “Quantas mulheres, chamadas de bruxas, foram exterminadas porque sabiam curar, porque produziam autonomia?”, indaga. Para ele, mesmo que ressignificadas essas mulheres ainda são reservadas na história de forma pejorativa. “É como se esse conhecimento não tivesse importância na luta, na caminhada, na história”, afirma.

  “Os Estados modernos ocidentais têm que avançar para entender essa diversidade de saber, de conhecimento ao longo da história, para produzir outras formas de governança e de relações com a natureza”, conclui o antropólogo.  Valorizar as ervas medicinais e os remédios tradicionais é também parte da identidade das comunidades, conforme indicam pesquisadores e comunidades rurais.

  “É importantíssimo que a gente continue falando dos nossos poderes e das nossas tradições. Minha mãe fazia uma espécie de alquimia com base no alho, e aquilo tem um resultado clínico e o mercado farmacológico vai criar patente sobre isso”, disse Wesley Correia, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), durante o Seminário Estudos Afro-Brasileiros, realizado no começo de dezembro.  Por meio da sua fala, proferida no contexto do evento de aniversário do grupo de pesquisa da Uneb CLIC (Crítica Literária e Identidade Cultural), o pesquisador ecoou, para os presentes, a importância de reconhecer saberes tradicionais. 

  Naquele ato, o seu discurso buscou mais do que valorizar saberes ancestrais. O objetivo  era demarcar os povos tradicionais como legítimos produtores de conhecimento, capazes de apoiar o debate – e a solução – de questões contemporâneas urgentes,  dentro e fora da universidade.

*Alunos do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação do professor Edvan Lessa.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra