Com debates, oficinas e mostra científica, evento celebrou os saberes da Chapada Diamantina e refletiu sobre o papel da universidade na defesa da natureza e da vida.
Por Geisa Lorena, Lucas Assunção e Taisla Teles*
Entre os dias 22 e 24 de outubro, o campus da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Seabra, foi palco da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). Com o tema “UNEB, um só oceano: saberes e fazeres na confluência com ciência e tecnologia”, a universidade mergulhou nas confluências entre ciência, tradição e natureza. O evento foi promovido pelo curso de Jornalismo, sob a coordenação do professor Edvan Lessa, e reuniu estudantes, educadores, pesquisadores e representantes de comunidades da Chapada Diamantina em torno de debates sobre meio ambiente, ancestralidade e sustentabilidade.
Durante os três dias de evento, a programação da Semana de Ciência e Tecnologia incluiu oficinas de fotografia e podcast, voltadas para estudantes da rede pública, que tiveram a oportunidade de aprender novas linguagens de comunicação e refletir sobre o papel da juventude na preservação ambiental. Além de atividades lúdicas realizadas com as mulheres da Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI).
Nos espaços de convivência do campus, a Feira Agroecológica trouxe o sabor e a sabedoria do campo, reunindo produtores locais, estudantes e visitantes em torno de alimentos e produtos artesanais. Outro destaque foi a exposição de banners, que apresentou o tema “Chapada Diamantina como sujeito de direitos” e reuniu trabalhos produzidos por estudantes do curso de Jornalismo. A mostra propôs uma reflexão sobre a água como ser de espiritualidade, morada de outros seres e elo vital do território da Chapada.
Os banners abordaram temas como o mapeamento das nascentes da Chapada, o reconhecimento dos rios como sujeitos de direitos, a relação ancestral das comunidades tradicionais com a água, além de reflexões sobre mineração, mudanças climáticas, biodiversidade e espiritualidade.


Saberes das águas para fluir no amanhã
Na primeira noite, a mesa “Saberes das águas para fluir no amanhã”, mediada pelas estudantes de Jornalismo Taciere Santana e Ana Paula Oliveira, abriu o ciclo de debates da Semana. Participaram a profetisa da chuva e integrante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Baixa Grande, Helena Rita Rios Queiroz, a liderança quilombola Vanúsia Santos, da comunidade da Bocaina (Piatã), e o antropólogo Cláudio Dourado, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que destacou a força do campesinato, segundo ele entender os povos camponeses “é a chave para entender as mudanças climáticas”.
O debate propôs um mergulho nas formas de ler e sentir a natureza que atravessam as comunidades do campo. Dourado destacou o caráter político e simbólico da água, associando sua transformação em “recurso” à concentração de poder. “Quando se transforma a água em recurso, ela se torna muito mais acessível a quem tem poder do que a quem a vê como um parente próximo. Aí começa um conflito tão sério quanto o fundiário”, observou o antropólogo.
A mesa também foi marcada por momentos de emoção, reconhecimento e trocas de saberes. A profetisa da chuva Helena Rita Rios Queiroz, explicou alguns dos sinais da natureza usados nas previsões da chuva. “A formiga troca de ninho quando vai chover, a galinha joga mais terra que o normal, o joão-de-barro faz a casa virada pra onde chove menos. São os sinais que a gente aprende com a natureza.” Ela também destacou o orgulho de ver a universidade se aproximar dessas tradições. “Quando a UNEB veio ouvir a gente, uma universidade que forma doutores, e achou isso importante, foi uma alegria. Eu me senti orgulhosa.”
Vanúsia Santos, da comunidade da Bocaina, emocionou o público ao relatar o impacto da mineração em seu território e o afastamento dos jovens das tradições locais. “Cresci vendo meu pai olhar os sinais da natureza. O caminho das formigas, a neblina de agosto, pra saber se o ano ia ser bom de chuva. Hoje muitos jovens acham isso uma ‘bestagem’, influenciados pela mineradora que chegou na comunidade. Espero que a minha comunidade volte a se reconhecer e valorizar sua origem.”
A mesa também contou com a apresentação do Mapa de Simpatias e Previsões dos Profetas e Profetisas da Chuva, conduzida pelo professor Edvan Lessa. Ele explicou que o trabalho foi fruto de uma construção coletiva entre a universidade e as comunidades. “Isso só foi possível porque a comunidade documentou e trouxe esses saberes para que a universidade encontrasse uma forma de comunicá-los. Nada disso teria sentido se não expressasse um modo de compaixão radical com a Terra.”
Para Lessa, o debate também abriu espaço para pensar o direito da natureza e o reconhecimento dos seres naturais como sujeitos, “fica mais fácil proteger o que a gente reconhece como semelhante. A ideia de natureza como algo separado da gente é o que impede a criação do vínculo e da ternura que precisamos ter com ela.”
Território, clima e resiliência ambiental
Na segunda noite, a mesa “Território, Clima e Água: políticas integradas para a resiliência ambiental”, mediada pelas estudantes Monielle Teixeira e Geisa Lorena, reuniu Thiago Ramos, agricultor e ex-secretário do Meio Ambiente, Agricultura e Mudança do Clima de Palmeiras (SEMMAP); Marlan Melo, vice-presidente do Grupo Ambientalista Serra do Araújo (GASA); e Cristina Alice Ribeiro, coordenadora pedagógica e mestre em Ciências Ambientais. O encontro trouxe reflexões sobre políticas públicas, preservação dos recursos hídricos e educação ambiental na Chapada Diamantina.
Thiago Ramos destacou o papel das universidades na construção de políticas sustentáveis e na defesa dos direitos da natureza. “A universidade é onde eu enxergo o futuro, mas um futuro que precisamos ter, não apenas o que a gente almeja. Às vezes o que a gente almeja está muito distante do que realmente precisamos.”
Ele lembrou o reconhecimento internacional de Palmeiras pelas ações ambientais, como a declaração de emergência climática e a lei que reconhece o Rio Preto como sujeito de direitos, pioneira na Bahia. “Foi um trabalho coletivo, com apoio da universidade e de pesquisadores, que resultou numa legislação que reconhece os direitos do Rio Preto, braço do Rio Paraguaçu. Pensar políticas públicas junto à universidade é o caminho para que as coisas realmente aconteçam.”
Marlan Melo chamou atenção para os desafios locais de Seabra quanto à gestão da água e à conservação da Serra do Araújo, área estratégica para o abastecimento da região. “Seabra não tem grande disponibilidade de água. Antigamente tínhamos o Rio da Prata, que já não existe mais. O rio foi secando, o volume de chuvas caiu pela metade e a ocupação desordenada nas margens acabou destruindo o que restava. Hoje dependemos de poços, e muitos já secaram. Por isso, preservar a Serra do Araújo é fundamental, é dela que vem a água que sustenta o município.”
Encerrando a mesa, Cristina Alice Ribeiro destacou a importância da educação ambiental nas escolas como ferramenta de conscientização e transformação social, “durante o mestrado em Ciências Ambientais, percebi que as escolas do município não trabalhavam a questão ambiental de forma contínua. Quis provocar o município a pensar a Serra do Araújo dentro da sala de aula. As crianças precisam ser estimuladas a refletir sobre a relação entre natureza e sociedade desde cedo, unindo o olhar local ao global.”
A mesa evidenciou que a resiliência ambiental depende tanto da formulação de políticas públicas quanto da valorização do conhecimento produzido nas comunidades e nas escolas, um diálogo constante entre prática, ensino e território.
Representação da água na arte e no audiovisual
Encerrando a programação, a terceira noite contou com o Cine Afluente, sessão especial em parceria com o Festival de Cinema Ambiental da Chapada Diamantina (FACINE). O encontro foi mediado pelos discentes de Jornalismo Ana Novaes e Gabriel Dourado, e contou com a presença do diretor do Facine, Alan Lobo. Foram exibidos dois curtas-metragens: Tuã Ingugu, dirigido por Daniela Thomas, e A Lenda dos Cavaleiros da Água, de Helen Quintans, seguidos de um debate sobre a representação da água na arte e no audiovisual.
Ana Novaes, discente do curso de Jornalismo, destacou como o cinema pode provocar reflexões sobre a relação entre ser humano e natureza. Segundo ela, o filme dirigido por Daniela Thomas nos pergunta o que significa tratar a Terra com respeito e o que perdemos quando vemos ela apenas como recurso. “Ele faz a gente pensar no papel que temos como comunidade e como agentes nessa relação com a água. Mostrar esse cinema ambiental é também um jeito de cuidar do que é nosso.”
O discente do curso de Jornalismo, Gabriel Dourado, que mediou o debate, ressaltou como o audiovisual desperta uma sensibilidade adormecida pela rotina tecnológica. “Os filmes nos fazem lembrar de uma conexão que é natural, mas que esquecemos. Hoje parece que estar perto da natureza virou um privilégio, algo distante. Mas, na verdade, nunca deixamos de fazer parte dela. Precisamos apenas reaprender a respeitar e sentir a água e o ambiente como parte de nós”.
O cinema ambiental tem o poder de reencantar o olhar sobre o mundo, rompendo com o distanciamento que a vida moderna impôs à natureza. Para Alan Lobo, vivemos em um tempo de desencantamento, no qual nos desconectamos da nossa essência. “O cinema tem esse papel de reconectar, de lembrar que nós somos água, somos parte da Terra. Ao ver esses filmes, a gente percebe que o reencantamento começa quando voltamos a olhar para o que está próximo, o rio, o alimento, o cotidiano das comunidades”, disse ele.
A exibição marcou o encerramento simbólico da semana, reunindo arte, memória e consciência ambiental em um mesmo fluxo. Como as águas que inspiraram o tema do evento, o Cine Afluente mostrou que ciência, cultura e ancestralidade podem seguir o mesmo curso, confluindo em defesa da vida, da arte e da natureza.
*Discentes do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.