De acordo com a organização Retina Brasil, o apoio psicológico é fundamental, pois a perda visual afeta a vida de forma ampla, podendo gerar ansiedade, depressão e frustração.
Por Amaral Souza*
A discrepância dos dados é grande com relação ao acesso à educação no Brasil, neste aspecto o país é marcado por desigualdades profundas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, entre as pessoas com 25 anos ou mais com deficiência, 63,1% não concluíram o ensino fundamental — quase o dobro da proporção observada entre pessoas sem deficiência (32,3%). No ensino superior a distância, ainda é mais acentuada: apenas 7,4% das pessoas com deficiências concluíram, enquanto 19,5% das pessoas sem deficiência alcançaram esse nível de escolaridade. Anualmente, pessoas com deficiência visual tentam ingressar na universidade, enfrentando limitações emocionais, estruturais e a falta de acessibilidade.
Nayara Rodrigues, que possui deficiência visual com perda total, ingressou no curso de Pedagogia do Campus XXIII da UNEB Seabra em 2023, por meio das leis de cotas (Lei 93 da Lei 8.213/91), após participação no vestibular.
Rodrigues relatou dificuldades relacionadas à acessibilidade na universidade, afirmando que a estrutura disponível não é totalmente satisfatória. “Enfrento dificuldades para me locomover pelo espaço da universidade devido à ausência de piso tátil e também para executar minhas atividades acadêmicas. Pois muitos métodos de ensino não são adaptados à minha condição”, afirmou Rodrigues.
De acordo com a diretora do campus XXIII, Fátima Sudré. “O piso tátil está inserido em um projeto de reforma e acessibilidade nos acessos ao pavimento de aulas e áreas comuns. Inclusive uma equipe da Pró reitoria de Infraestrutura (Proinfra) esteve do dia 26 a 29 de maio para fazer um mapeamento e estudo de como fazer essa acessibilidade no campus XXIII. Neste momento, estamos aguardando o projeto arquitetônico de adaptação de acessibilidade para iniciar a tramitação do processo e realização da obra”.
Apesar dos desafios, Rodrigues acredita que no futuro se tornará uma grande profissional. Ronilda Oliveira, coordenadora do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) do Campus XXIII da UNEB, explicou que o núcleo faz parte da Secretaria de Acessibilidade e Inclusão (SAIN) e atua em todos os departamentos da universidade, oferecendo suporte a estudantes com deficiência, Transtorno Global do Desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista, Altas Habilidades e outras necessidades específicas, sejam temporárias ou permanentes.
Segundo Oliveira, o NAI disponibiliza suporte completo para esses estudantes, incluindo aqueles com deficiência visual, por meio do auxílio de monitores, com o objetivo principal de promover autonomia e preparar os discentes para a vida após a faculdade.
De acordo com a organização Retina Brasil, o apoio psicológico é fundamental, pois a perda visual afeta a vida de forma ampla, podendo gerar ansiedade, depressão e frustração. Entre os impactos mais comuns estão tristeza, isolamento e baixa autoestima, o que compromete a autoconfiança e dificulta o processo de superação.
O isolamento social também é recorrente, já que muitas pessoas com deficiência visual enfrentam barreiras para participar de atividades e interagir com outras pessoas, o que pode resultar em solidão.
A psicóloga Juliana dos Anjos, do Centro de Educação Inclusiva de Iraquara, destacou que identificar problemas emocionais em estudantes com deficiência visual exige acompanhamento próximo, conversas frequentes e observação das necessidades individuais, além do incentivo ao desenvolvimento de suas habilidades. Anjos enfatiza que o trabalho psicológico deve promover um sentimento de pertencimento ao ambiente acadêmico, contribuindo para uma melhor qualidade de vida e fortalecendo a permanência estudantil.
Além disso, o preconceito e a estigmatização presentes na sociedade continuam sendo obstáculos que dificultam a inclusão plena de saúde mental e acessibilidade de pessoas com deficiência nas universidades.
*Aluno do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira e da monitora apoiadora, a estudante de Jornalismo, Eloísa Carmo.