Por Lucas Assunção*
Quando os tambores do reisado ecoam pelas casas da Bocaina, em Piatã, não é apenas o anúncio da visita dos Santos Reis. É também a memória de um povo que insiste em se comunicar, resistir e celebrar… apesar dos “Herodes” modernos que rondam o território. Como diz Erivelton, líder do grupo local, “a cada ano, o coração bate mais forte, e seguimos, porque o reisado é parte de mim e eu sou parte dele.”
Assim como o reisado, outras expressões populares seguem vivas na Chapada Diamantina e no sertão baiano: a festa do boi, as quadrilhas juninas, os grupos de Natal, os ternos das almas, os profetas das chuvas e até o cinema feito com os pés na terra. Mais do que tradição, essas práticas são linguagens comunitárias que transmitem valores, acolhem a dor, reforçam a fé e ajudam a resolver conflitos sociais com canto, fé, arte e presença.
Festa de Santos Reis
O reisado da comunidade da Bocaina é uma tradição que data da década de 70. Inicialmente formado só por homens, o grupo se reunia para cantar canções que anunciam o nascimento do Menino Jesus, visitando casas e recebendo ofertas para manter a festa viva. A entrada das mulheres no grupo, em 1994, e a construção da Igreja de Santos Reis, em 1999, marcaram importantes avanços para a continuidade da tradição.
Erivelton Souza, atual líder, destaca que “graças ao bom Jesus, as novas gerações sempre me procuram para também fazerem parte do grupo. Isso me alegra, porque sei que a tradição está viva”.
Apesar das dificuldades, como a falta de transporte e de apoio público, o grupo segue firme, “assim como os Reis Magos tiveram que desviar de Herodes, temos fé que também nos livraremos dos Herodes que rondam nossa comunidade”, ressalta Souza
A festa do boi: memória curta, sentido profundo
Na comunidade de Tiririca de Cima, no munícipio de Ibitiara, a festa do boi é celebrada todo ano no dia de Santo Antônio. Segundo Emerson Matos, quem organiza atualmente é o tio Dedê, mantendo a tradição passada oralmente entre gerações. “A tradição não se puxa mais que duas gerações. Mas segue viva com quem acredita. Meu tio Dedê é quem está à frente hoje.”
Gislene Moreira, professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB e estudiosa das culturas populares, vê essas manifestações como expressões de ancestralidade africana, indígena e camponesa. Ela alerta que “quando perdemos o sentido da lapinha, da fogueira, da festa… perdemos o milho, a terra, a soberania. Perdemos quem somos… e com isso, nosso território fica vulnerável aos megaprojetos que prometem muito, mas respeitam pouco”.
Segundo Moreira, o risco de “espetacularizar” essas festas como folclore estereotipado, sem conexão com o território e o modo de vida, ameaça sua continuidade. A saída está em políticas públicas que dialoguem com os saberes do chão, reconectando escola, juventude e cultura viva.
Quadrilhas juninas: identidade e juventude
A quadrilha junina é outro exemplo de como a juventude segue dando vida à cultura. Em comunidades como Abaíra e Piatã, grupos organizam-se todos os anos, mesmo com dificuldades de estrutura e apoio.
Saberes Populares e os Profetas da Chuva
O agente pastoral e antropólogo Cláudio Dourado, da CPT, compartilha que os profetas da chuva partem de dois princípios: o vasto conhecimento da natureza e a oralidade. Suas observações se baseiam na leitura dos astros, plantas e animais, confirmadas pela repetição e comparação entre anos.
“Profetas da chuva são verdadeiros conhecedores da relação tempo e espaço”, explica Dourado. Com as novas tecnologias, há uma perda de encontros, de escuta e de saber tradicional. Para ele, o problema não é a tecnologia em si, mas a quebra da relação entre tempo, espaço e saber popular. Os profetas se tornam chave para uma discussão sobre mudanças climáticas a partir do ponto de vista da comunidade.
Cultura e Formação no Instituto Nossa Piatã
A professora Regiane Oliveira, integrante do Instituto Nossa Piatã, afirma que as iniciativas culturais são fundamentais para manter viva a memória coletiva da cidade. “Criamos espaços onde a comunidade pode expressar sua identidade e passar esses conhecimentos para as novas gerações”, afirma. O Instituto também realiza o Festival Cultural, promovendo arte, café, artesanato e saberes populares.
A Juventude e a Cultura Musical
O cantor Luiz Felipe Abreu é um dos representantes da nova geração de artistas piataenses. Para ele, a música local é reflexo da realidade vivida, “ela atinge não só a estética sonora e visual, mas também a dimensão política”. Abreu alerta para a exclusão cultural que afeta os artistas locais, “o apoio depende de nichos ou relevância social. Pouco se abre espaço para o novo ou para o resgate de tradições não lucrativas”.
Sobre políticas culturais, Abreu acredita que os eventos deveriam valorizar primeiro os artistas da cidade, promovendo trocas com artistas de fora, mas sem esquecer das produções diversas existentes localmente.
Dados estatísticos: a cultura em números
Segundo o IBGE (2021), cerca de 24% dos jovens entre 15 e 29 anos no Nordeste participam de atividades culturais não formais, incluindo festas religiosas, quadrilhas e grupos musicais. Ainda assim, o Mapa da Cultura do Estado da Bahia (SECULT) de 2007, aponta que apenas parte dessas manifestações está formalmente registrada nos sistemas públicos, dificultando o acesso a editais e apoio técnico. Esses dados reforçam a importância de reconhecer essas expressões como estratégias de comunicação comunitária e mediação social.
As festas populares não são ruídos: são fala. Não são ornamento: são raiz. E onde há raiz, há resistência. Em tempos de avanço de projetos que esvaziam os territórios de sentido, a cultura comunitária se afirma como escudo e semente. Cada terno, cada fogueira, cada batida de tambor é, no fundo, um grito de vida… coletivo, ancestral e nosso.
*Discente curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora e editora Dayanne Pereira.