Apesar dos avanços, mais de 11 milhões de brasileiros ainda não sabem ler nem escrever. Isso acarreta dificuldades frequentes, durante o dia a dia. Comprometendo, assim, a autonomia e cidadania de uma parte da população. 

Por Marta Matos*

Foto: Pei Fon/Folhapres

  “Eu não tenho inveja de nada, nem de ninguém, só de quem tem a leitura e não lê”, afirma Maria, de 85 anos (Nome fictício, pois a fonte preferiu não se identificar). Ela parou os estudos ainda muito nova, e se vê como um reflexo da sociedade que enfrenta dificuldades pelo pouco, ou nenhum, acesso à educação no Brasil. 

  Uma pessoa é considerada analfabeta quando não consegue ler ou escrever algo simples em seu próprio idioma. Isso acarreta dificuldades frequentes, durante o dia a dia. Comprometendo, assim, a autonomia e cidadania de uma parte da população. 

  Desde 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos já afirmava em seu artigo 26: “Toda pessoa tem direito à educação”. No Brasil, a Constituição Federal reforça esse princípio no artigo 205, onde define a educação como um direito de todos e um dever do Estado e da família. Porém, esse acesso é dificultado em alguns casos.

Os dados e suas marcas sociais

  Segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil avançou na alfabetização da população com mais de 15 anos nas últimas décadas. Os dados mais recentes, de 2022 mostram que 93% da população nessa faixa etária é alfabetizada, mas ainda existem 7%, cerca de 11,44 milhões de brasileiros, que não sabem ler e escrever. 

  Os dados do IBGE revelam também que o analfabetismo é mais comum entre pessoas idosas, com baixa renda e residentes em áreas rurais. Pessoas nesse contexto enfrentam questões delicadas. Algumas delas são a identificação de rótulos em remédios, assinatura de documentos com segurança, acesso a benefícios sociais como Bolsa Família e INSS, entre outros. Além do sentimento de incapacidade e a vergonha que esta condição causa. 

  A coordenadora pedagógica, Patrícia Vieira, chama atenção a esta realidade.“Há uma parcela muito grande de pessoas adultas que não sabem ler e escrever. É uma realidade que mexe com a gente, porque você viver em um ambiente em que você não consegue decifrar é viver um aprisionamento”, afirma. 

  Vieira relata que, como educadora, já presenciou inúmeras situações constrangedoras para essas pessoas. “Eu já estive em muitas situações que me incomodavam, em que era necessário que a família assinasse ata de reunião ou algo relacionado à matrícula de um aluno, e o responsável respondia que não assinava. Isso mexia muito comigo porque eu via o quanto aquilo deixava a pessoa envergonhada”, conta. 

  O trabalho também é uma questão delicada entre pessoas não alfabetizadas, pois as oportunidades são reduzidas. Aos 49 anos, Dejanira Santos vive uma realidade diferente, proporcionada pela educação. Antes empregada doméstica, ela concluiu os estudos aos 48 anos e só a partir daí conseguiu atuar como auxiliar de limpeza hospitalar. “A melhor coisa que fiz foi terminar os estudos. Só assim eu pude perceber o quanto é importante”, afirma. 

Níveis de alfabetização

  Além do analfabetismo absoluto, existem também níveis diferentes de alfabetização, conforme o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF). Essas escalas mostram que saber ler e escrever não garantem que uma pessoa esteja plenamente alfabetizada para uma vida social. 

  Os níveis do INAF são divididos em quatro categorias: Analfabeto, Rudimentar, Básico e Pleno. O primeiro se refere a que não consegue ler e nem escrever. O segundo refere-se a quem lê e escreve, mas tem dificuldade em compreender textos. O terceiro é direcionado a quem consegue realizar operações simples e identificar informações. Por fim, a última categoria representa quem é capaz de ler, compreender, interpretar e utilizar informações com autonomia em seu dia a dia.

Educação de jovens e adultos

  Como alternativa, o Estado oferece a Educação de Jovens e Adultos (EJA). O programa fornece ensino fundamental para pessoas a partir de 15 anos e ensino médio, da primeira à terceira série, para pessoas com mais de 18 anos que desejam concluir os estudos. 

Foto: https://www.seduc.ce.gov.br/

  As aulas deste programa são adaptadas à realidade dos estudantes, por terem outras ocupações, como o trabalho e a família. O horário é alternativo, geralmente à noite, e a duração do ensino é reduzida, em comparação ao ensino regular. E, mesmo seguindo o currículo escolar tradicional, os professores seguem uma metodologia conforme as necessidades e realidade dos alunos. 

  Foi o caso de Rafaela Souza, de 25 anos, que através do EJA permaneceu estudando. Ela havia repetido o ano escolar e, desmotivada, quase abandonou os estudos. “Na época, eu pensei em desistir de concluir o segundo grau, devido à minha adolescência, que foi muito difícil. Com um conselho de um professor, eu me matriculei no EJA e concluí o ensino médio”, afirma. 

  Hoje, Souza se orgulha da sua trajetória. Formou-se na primeira graduação aos 24 anos, cursa a segunda e trabalha como professora. Como educadora, ela busca replicar o que recebeu. “Ali me deparei com o acolhimento dos meus professores e venci todo o meu medo de fracassar. Hoje posso fazer pelos meus alunos o que tanto recebi dos meus professores. Muitos se acham um caso perdido, e assim como fui acolhida, procuro lembrar a eles o quanto são capazes, o quanto podem chegar longe pelos estudos”, declara. 

  Santos, também formada através do EJA, destaca como a formação abre novos caminhos. “A gente só percebe a falta que fazem os estudos quando a gente tem acesso a ele. Hoje posso sonhar em me aprofundar em outras áreas e, quem sabe um dia, ter um emprego menos pesado.”, diz. 

  Suas histórias mostram que, mesmo com todas as dificuldades, o acesso à educação, além de direito, é também perspectiva para um futuro melhor.

*Aluna do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

Agência Experimental de Jornalismo da Uneb Seabra